PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Aline Diniz


Aline Diniz

De Família Soprano a Game of Thrones: um passeio pela história da TV

Elencos de Família Soprano e Game of Thrones - Divulgação
Elencos de Família Soprano e Game of Thrones
Imagem: Divulgação
Aline Diniz

Aline Diniz é jornalista de formação, especialista em séries de TV, apresentadora, roteirista e produtora focada em entretenimento e cultura pop. Depois de nove anos no site Omelete, onde foi estagiária, repórter, editora, gerente e muito mais, hoje é apresentadora da TNT e criadora de seu próprio conteúdo em várias plataformas, incluindo aqui no UOL!

Colunista do UOL

03/05/2020 14h06

Resumo da notícia

  • O começo das séries na TV americana: “I Love Lucy” e “O Cavaleiro Solitário”
  • HBO e a nova onda das produções cinematográficas na TV
  • “Lost”, fóruns e a internet nas teorias de fã
  • “Breaking Bad” e o efeito Netflix
  • “Peak TV”: o que vem por aí?

Muita gente me pergunta sobre o futuro da TV, o que vai acontecer daqui pra frente, qual vai ser 'a próxima Netflix', o que vai acontecer com a TV comum que conhecemos hoje em dia e a resposta é bem simples: eu não sei. Não tenho como saber. E pra falar sobre quais foram as principais séries que começaram a revolução que vivemos atualmente na TV e transformaram o meio no que a gente conhece hoje, a gente precisa primeiro entender um pouco sobre tudo o que aconteceu antes disso, o que deu origem ao formato inicialmente.

Vale lembrar que, como estamos falando de série, o foco vai ser principalmente na TV dos Estados Unidos —que é o que estudei minha vida inteira. O modelo tradicional de TV brasileira é diferente.

A primeira transmissão de TV da história aconteceu no Reino Unido em 1936, mas nos Estados Unidos a coisa só começou a esquentar mesmo um tempo depois. Por mais que a transição do rádio para a TV já tivesse começado, a ficção começou a ser introduzida mais tarde. Eu sempre digo que a TV como a gente conhece começou nos anos 1950 porque foi ali que começaram a surgir as séries como a gente conheceu e se apegou a elas: no formato semanal, de drama ou comédia. Dentre as primeiras, estavam "O Cavaleiro Solitário" e "I Love Lucy". Como novos episódios só passavam de sete em sete dias, a ideia era ter uma linha narrativa bem simples de fundo. O formato mais comum era o procedimental (ou "procedural", em inglês), aquele do "caso da semana", que funciona como um prêmio para quem acompanha o programa, e que ainda bomba até hoje.

Elenco de I Love Lucy - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Apesar de a comédia também seguir essa mesma linha de pensamento, a criadora da primeira comédia para a TV, Lucille Ball, teve uma das ideias mais revolucionárias daquela época. Como comediante, ela questionava o fato de "I Love Lucy" ser exibida em um meio que não permitia que ela tivesse o feedback instantâneo da audiência —e vale lembrar que não existia rede social, o que determinava o sucesso de uma série eram pura e simplesmente a crítica e os números de audiência. Foi por isso que ela inventou o formato que é usado até hoje: a sitcom gravada com platéia ao vivo. Sitcom é um termo que significa "situation comedy", ou comédia de situação, e a ideia de gravar na frente de um público surgiu simplesmente para que o feedback se tornasse imediato. O riso da plateia indicava aos roteiristas se uma determinada piada funcionaria com o público que assistiria na TV ou se precisavam mudar algum detalhe do roteiro.

Uma vez estabelecido o formato inicial, ele foi mantido assim por décadas. As produções originais televisivas eram criadas exclusivamente pelos canais abertos nos Estados Unidos, que foram três por um bom tempo (CBS, ABC, NBC) até a chegada da Fox nos anos 1980. Hoje são cinco, contando a CW.

O tempo foi passando com muitos sucessos seguindo essas fórmulas e eventualmente a HBO (que muita gente não sabe, mas significa Home Box Office), uma emissora paga que só exibia filmes, encomendou sua primeira produção televisiva: "Oz". Em 1997, estreou a série de Tom Fontana, diferente de tudo que já havia sido feito até então para o meio; ela custava mais caro que as produções das TVs abertas, tinha menos episódios, era bem violenta e sexualizada e seguia uma narrativa completamente linear, com grandes ganchos de episódio para episódio, o que criava um arco que não necessariamente seguia o elemento procedimental de contar uma história diferente por episódio, o tal "caso da semana".

J.K. Simmons em Oz - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Mas por mais que "Oz" tenha sido o primeiro programa deste tipo, a série que realmente começou a chamar atenção do público e da crítica foi "Família Soprano", que estreou em 1999, também pela HBO. Enquanto "Oz" foi indicada a dois Emmys, mostrando um pouco da resistência da indústria para esse tipo novo de produção, Sopranos foi indicada 111 vezes ao Emmy e levou 21 prêmios pra casa, incluindo melhor série dramática duas vezes. Foi a partir de "Sopranos" que a indústria e o público abraçaram este tipo de produção mais elaborada, criando uma nova tendência que evoluiria para o estilo narrativo cinematográfico de produções que a gente conhece e ama hoje em dia.

Outro marco muito importante para a TV foi "Lost". Por mais que o final tenha sido controverso, a série estreou em 2004 e trouxe uma trama cheia de reviravoltas e mistérios que deixava os espectadores sempre muito curiosos. O grande trunfo de "Lost" foi ter nascido numa época em que a internet também estava em um momento de transição, o que levou os fãs da série para os fóruns, criando teorias e discutindo semanalmente o que viria a seguir para os sobreviventes na ilha. Muitas das séries que viriam depois de Lost e também prometiam mil mistérios foram chamadas de 'a nova Lost', mas nenhuma nunca conseguiu —até "Game of Thrones" suprir essa necessidade dos fãs de criar teorias sobre personagens e sobre a história em si.

O fenômeno que sucedeu Lost foi "Breaking Bad". Mas o que muita gente não sabe é que por mais que a série tenha um alto nível de qualidade e tenha encerrado com altos números de audiência, as primeiras temporadas sofreram muito para chegar onde a série chegou. Isso porque a força das recomendações e a disponibilidade da série na Netflix foi o que impulsionou o programa ao sucesso —além, é claro, da qualidade do roteiro e da produção de Vince Gilligan.

Breaking Bad - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

"Breaking Bad" sempre foi produzida e exibida nos Estados Unidos pelo canal AMC. No Brasil, durante os primeiros anos, o AXN transmitia a série em sua programação normal, horário de exibição, reprises etc. Mas em algum momento da exibição da quarta temporada, a Netflix adquiriu os direitos de streaming de "Breaking Bad" e disponibilizou todos os episódios anteriores na plataforma. O resto é história: enquanto o primeiro episódio da primeira temporada não chegou nem nos 2 milhões de espectadores, o último passou dos 10 milhões, um número exorbitante para a TV de hoje em dia —paga ainda por cima...

Esse é o efeito Netflix: não tem horário de exibição, você não tem que ligar a TV em um momento específico e assistir o que quer que seja até o final. Você faz o seu próprio cronograma, assiste a quantos episódios quiser, na hora que quiser, onde quiser. Isso é uma utopia quando o assunto é TV. Da mesma forma que uma série pode ser exibida ao longo de meses, criando burburinho semanal e menções nas redes sociais por muito tempo, a Netflix hoje sofre com um mal que é o buzz relâmpago. Do mesmo jeito que o assunto aparece, ele some. Em alguns casos, uma semana é o necessário para que um lançamento inédito já seja passado.

Com o nascimento e ascensão da Netflix como a gente conhece hoje, criou-se mais uma era de ouro da TV moderna, mas essa é conhecida como peak TV. Essa segunda década do século 21 viu exatamente o ápice das produções televisivas: em 2002, o número de séries de TV roteirizadas nos Estados Unidos era 182. Em 2016, menos de 15 anos depois, esse número cresceu 250%. Nunca existiram tantas boas produções na TV, que hoje é equiparada com o cinema em vários patamares depois de tanto tempo ter sido considerada um meio marginalizado.

Por mais que a TV como meio seja antiquada e ultrapassada, ela ainda tem muito a percorrer e muita tecnologia para desenvolver. Quando a transição do rádio para a TV começou, muita gente achou que o rádio morreria e ele segue aí, firme e forte —e ainda viu o formato ressurgir em podcasts. Não acho que a TV convencional, de sentar no sofá às dez da noite pra ver "Game of Thrones" na HBO, vai morrer tão cedo, mas continuar evoluindo dia a dia, passando da tela fixa na sala à tela do computador, do celular e qualquer outra coisa que venha depois dele, talvez sem nunca perder a sua essência —e eu vou estar lá pra ver o que ainda vem por aí.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Aline Diniz