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Aline Diniz


O gênero do talk-show vai morrer de coronavírus

Jimmy Kimmel na versão caseira do seu programa - Divulgação
Jimmy Kimmel na versão caseira do seu programa Imagem: Divulgação
Aline Diniz

Aline Diniz é jornalista de formação, especialista em séries de TV, apresentadora, roteirista e produtora focada em entretenimento e cultura pop. Depois de nove anos no site Omelete, onde foi estagiária, repórter, editora, gerente e muito mais, hoje é apresentadora da TNT e criadora de seu próprio conteúdo em várias plataformas, incluindo aqui no UOL!

Colunista do UOL

03/04/2020 16h03

Resumo da notícia

  • Late-night talk shows enfrentam uma grande crise após a pandemia do coronavírus
  • Apresentadores trabalham de suas casas, com suas famílias como equipe
  • Criadores de conteúdo online podem ser a solução para o gênero
  • O que vem por aí no futuro da televisão?

A pauta quente, como jornalistas chamam os assuntos mais relevantes e urgentes que servem também de combustível para análises e textos especulativos, está bem escassa —pelo menos no entretenimento. Com estreias adiadas e produções interrompidas para que todos possam cumprir com o isolamento social, o assunto principal do momento segue sendo o coronavírus e seus desdobramentos.

Sendo assim, temos duas escolhas: ou falamos sobre as consequências que a pandemia do coronavírus podem acarretar ao mercado, trazendo teorias com base em acontecimentos atuais em decorrência da quarentena; ou damos dicas de produções já disponíveis para entreter o público, que permanece em casa. Então, hoje, minha escolha foi a primeira: falar sobre a pandemia.

Um amigo me enviou um vídeo muito bom de um canal americano do YouTube relativamente pequeno, chamado "Colin and Samir". Nesse vídeo, a dupla do título fala sobre uma possível mudança no cenário de late-night talk shows que, até então, eu não tinha pensado. Essa matéria é basicamente a minha interpretação do vídeo deles, então segue abaixo o material original —em inglês:

O que Colin e Samir dizem nessa análise não é novidade: quando superarmos os dias mais intensos dessa pandemia, o mercado do entretenimento e do audiovisual passará por grandes mudanças e adaptações. Na verdade, já está passando. Eles apontam exatamente o gênero de programas noturnos conhecido como talk show como um dos que já está se tornando algo novo e diferente —a grande questão aqui é que os apresentadores dos late-night talk shows americanos têm competição: os criadores de conteúdo, ou youtubers.

Por tratar-se de um gênero genuinamente americano, vou falar aqui dos talk shows de lá. Por aqui ainda temos muito poucos conteúdos no mesmo formato —e ainda assim, são programas que tentam inovar e fazer coisas diferentes (tô olhando pra você, "Lady Night").

A comparação deles é certeira e aponta algo que já estaria suscetível a mudanças a longo prazo sem a pandemia, mas com ela as coisas devem acontecer de forma bem mais acelerada. Popularizado na década de 1960, os late-night talk shows sempre tiveram mais ou menos a mesma estrutura. Entre entrevistas, esquetes engraçados e quadros engraçadalhos, etc, o foco sempre ficava no apresentador, um comediante, e em sua banda de apoio. O Jô Soares fez algo nesses moldes aqui no Brasil com o "Programa do Jô", mas totalmente focado na estrutura monólogo-abertura, sem os quadros adicionais.

Pois bem, como a pandemia impossibilita grupos grandes de se reunirem, todas as produções televisivas não jornalísticas foram interrompidas e, para não ficar de bobeira em casa, o que esses apresentadores de talk show decidiram fazer foi dar continuidade aos seus programas de dentro das suas casas, com suas famílias como equipe, em seus canais de YouTube. Isso quer dizer que eles não têm mais maquiadores, cameramen, diretores ou qualquer tipo de assistência física, eles precisam fazer tudo funcionar sozinhos.

Divulgação
Imagem: Divulgação

O que faz mais falta, no entanto, é a plateia. É ensurdecedor o silêncio que sucede uma piada no monólogo do Jimmy Fallon, por exemplo. Para alguém que está acostumado a falar diariamente com uma audiência, Fallon deveria ter adaptado seu discurso, mas escolheu manter a pausa para claque (aquelas risadas do público) após cada piada. É de uma vergonha alheia sem tamanho.

A questão aqui é que tem gente que faz tudo isso e muito mais por si só há muito mais tempo: os youtubers. São pessoas completamente independentes, que já estão acostumadas a fazer tudo de suas próprias casas, editam seus próprios vídeos, são seus próprios diretores, maquiadores, cameramen? e têm muito reconhecimento por isso, atingindo a casa dos milhões periodicamente —tudo com um custo infinitamente menor.

A observação final de Colin e Samir é exatamente que o formato tradicional de talk show pode estar em extinção após o fim dessa pandemia, que essas pessoas podem tranquilamente serem substituídas por outros apresentadores, gerando um custo muito mais baixo de produção e, por sua vez, trazendo um lucro muito maior. É aqui que eu discordo do argumento deles.

Vale apontar que a televisão como indústria que gera dinheiro exige que algumas regras sejam cumpridas. Não vai ser do dia pra noite que esses monopólios da informação e do entretenimento deixarão de existir, mas mudanças vão, sim, acontecer. A grande questão é: os youtubers, que hoje fazem suas próprias regras, decidem suas próprias pautas e são seus próprios chefes (pro bem e pro mal) aceitarão entrar nesse mundinho quadrado da televisão? Eu aposto que não.

A questão agora é que o público está decididamente focado no consumo de conteúdo através de plataformas on demand, sejam elas quais forem, e muitas coisas vão mudar para a TV tradicional num futuro muito mais próximo do que o imaginado. Mas o que exatamente vai mudar? Só o tempo vai dizer.

Aline Diniz