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Terá valido a pena?, questiona Zuenir Ventura sobre racha do Procure Saber

Mario Miranda Filho/Agência Foto
Escritor e jornalista Zuenir Ventura Imagem: Mario Miranda Filho/Agência Foto

Do UOL, em São Paulo

06/11/2013 10h49

O escritor e jornalista Zuenir Ventura comentou, em coluna ao jornal "O Globo", nesta quarta-feira (6), o recente racha entre os integrantes do Procure Saber. Por meio do empresário Dody Sirena, Roberto Carlos pediu para que os companheiros do grupo, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, "fiquem à vontade com o andamento do Procure Saber" sem a sua presença.

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Em sua coluna, Zuenir questiona se a causa valeu a pena para o grupo. "Até agora, essa aliança de artistas deixou como saldo imagens arranhadas e relações estremecidas, sem falar no estigma de ter trazido à cena o fantasma da censura prévia. Terá valido a pena tanto desgaste, inclusive para as biografias dos envolvidos? O objetivo não era preservá-las?". 

Em entrevista ao UOL, Zuenir já havia se posicionado contra a necessidade de autorização prévia para publicação de biografias: "Eu não quero dizer que as pessoas que defendem essa tese sejam censores, não é isso. Acho que é uma injustiça dizer isso de pessoas que lutaram contra a censura. Mas o resultado é, na verdade, uma censura prévia. Isso é ruim".

No artigo do "Globo", o autor de "1968: o Ano que Não Terminou" e "Chico Mendes: Crime e Castigo" também compara os diferentes perfis de Roberto e Caetano Veloso. Diz que, apesar da parceria ter sido responsável por um dos momentos mais emocionantes da música brasileira --quando o Rei compôs a canção-homenagem "Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos", na época em que Caetano estava exilado em Londres, em 1970--, a dupla não está dando certo em termos de ação política conjunta. "De um lado, o Rei, um moita, cheio de segredos, mistérios e cismas. De outro, Caetano, transparente, franco, expansivo, exibido e sem papas na língua".

Para Zuenir, a culpa pelo ruído entre os dois e pela desunião da turma não deve ser atribuída a Paula Lavigne, destituída recentemente do cargo de porta-voz do grupo. "(...) Apesar da fama, [Paula] é mais conciliadora do que briguenta (peço licença para uma revelação: Caetano ficou 15 anos sem falar comigo por causa do '1968'. Um dia, ela pegou os dois pelas mãos, disse 'Vamos deixar de viadagem' e jogou um nos braços do outro)", ele conta. 

Roberto Carlos rompe com Procure Saber
Empresário de Roberto, Dody Sirena divulgou na noite de terça-feira (5) uma carta aos integrantes do Procure Saber dizendo que o cantor continua na luta a favor das autorizações para a divulgação de imagens e biografias. Pouco antes, Cicão Chies, empresário de Roberto, havia abandonado a vice-presidência do grupo.

"O comitê criado na última reunião na Urca para atender às biografias continuará atuando de forma intensa apenas em nome do Roberto, já que Dr. Marco Antonio Campos, Dr. Antonio Carlos Almeida/Kakay, Dra. Fernanda Gutheil e Dra. Ana Paula Barcelos, são profissionais de sua equipe", afirmou o empresário na nota, em clara resposta ao artigo de Caetano Veloso em "O Globo" no último domingo, onde desautorizava o advogado de Roberto, o Kakay, a responder pela associação.

"Luta iniciada pelo Procure Saber. Kakay é advogado de RC, não fala oficialmente pela associação. E RC só apareceu agora, quando da mudança de tom. Apanhamos muito da mídia e das redes, ele vem de Rei. É o normal da nossa vida. Chico era o mais próximo da posição dele; eu, o mais distante", escreveu o compositor baiano. Dody rebateu: "Somos mais discretos, afinal defendemos também a privacidade no sentido profissional".

Veja a íntegra da carta de Dody Sirena:

"Caros amigos do Procure Saber,

Este ano ainda não encerrou e vejo quantos movimentos interessantes aconteceram para os artistas brasileiros. Demos um grande passo com o Ecad e trouxemos à tona o tema biografias/privacidade. Falamos sobre direitos e, como administradores/empresários dos maiores nomes da música brasileira, sabemos que no futuro tudo isso será uma grande referência de um movimento coletivo, como outros que estes ícones já participaram. Interessante lembrar que a tropicália e as guitarras andaram em calçadas diferentes, que a imprensa anunciava que a MPB não gostava da Jovem Guarda, e com o tempo todos se uniram no mesmo pensamento.

Caminhamos bastante, divergimos algumas vezes, mas acredito que podemos nos ver como uma seleção de futebol onde os grandes craques se reúnem para defender o país e depois voltam para os seus times. Roberto conversou muito comigo em função dos últimos acontecimentos. Não é bem assim o nosso jeito de trabalhar, somos mais discretos, afinal defendemos também a privacidade no sentido profissional.

Concluímos que neste momento é importante continuar o trabalho que iniciamos há muitos anos sobre biografias, independente de estarmos em uma associação ou grupo. Portanto, a partir de agora, fiquem à vontade com o andamento do Procure Saber sem a presença direta do Roberto. O comitê criado na última reunião na Urca para atender as biografias continuará atuando de forma intensa apenas em nome do Roberto, já que Dr. Marco Antonio Campos, Dr. Antonio Carlos Almeida/Kakay, Dra. Fernanda Gutheil e Dra. Ana Paula Barcelos, são profissionais de sua equipe.

Gostaria de sugerir que o Procure Saber nomeie representantes para falar em nome do grupo quanto a liberação das biografias e em defesa da privacidade, principalmente no Congresso Nacional, em razão do pronunciamento coletivo e do comunicado oficial. Sempre que outros assuntos surgirem com tema coletivo, se Roberto entender que a pauta vai de encontro aos seus pensamentos, considerem sua adesão. Como exemplo, a pronta e efetiva participação dele no caso do autoral/Ecad e nos futuros desdobramentos com órgão regulador, como já discutimos em outras ocasiões, bem como as questões trabalhistas e a plataforma digital.

Foi muito importante termos participado deste grupo e desejamos boa sorte para os próximos passos.

Com respeito e admiração por cada um de vocês,

Dody Sirena"

Entenda a polêmica

Uma proposta que libera as biografias não autorizadas (PL 393/11) está para ser votada na Câmara dos Deputados do Brasil. O debate excedeu os corredores de Brasília depois de artistas como Roberto Carlos, Chico BuarqueCaetano Veloso e Gilberto Gil, se declararem a favor da autorização prévia para a publicação de uma biografia.
 
O projeto de lei, de autoria do deputado Newton Lima (PT-SP), pede a modificação do artigo 20 do Código Civil, que prevê autorização prévia para a divulgação de imagens, escritos e informações biográficas. O artigo possibilitou que Roberto Carlos proibisse a comercialização de sua biografia não autorizada, "Roberto Carlos em Detalhes", lançada pelo jornalista Paulo César de Araújo, em 1997.
 
Com o tema em voga em veículos da imprensa -- onde escritores, biógrafos e artistas se posicionaram contra ou a favor da publicação de biografias não autorizadas-- e redes sociais, os parlamentares começaram a prestar mais atenção nas discussões. "Os artistas ajudaram a colocar luz ao assunto. Eles já tinham ajudado no caso do Ecad [Escritório Central de Arrecadação e Distribuição], mas dessa vez eles acabaram entrando em uma linha do raciocínio que colabora para a censura prévia", afirmou o deputado ao UOL.
 

A Ministra da Cultura, Marta Suplicy, também se posicionou a favor do projeto. "Minha opinião caminha para o apoio à liberdade de expressão, com multas mais vultosas aos autores que infringirem a verdade e a imagem do biografado", afirmou em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo".

O deputado Alessandro Molon (PT-RJ), último relator do projeto na Câmara, avaliou, em entrevista ao UOL, que a indecisão de hoje é culpa do Congresso no passado. "Nós que erramos ao aprovar o Código Civil na época do FHC [Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente], com esses dois artigos que abriam uma brecha para a família do Mané Garrincha processar o biógrafo Ruy Castro. O Roberto Carlos, do qual sempre fui fã, teve o descabimento de tirar o livro das prateleiras, um trabalho de pesquisa que levou 15 anos e que não o desmoralizava", avaliou.

O Conselho de Comunicação Social do Congresso definiu que irá formar grupos de trabalho para debater projetos de lei sobre comunicação que estão sendo discutidos na Câmara dos Deputados e no Senado, entre eles, a Lei da Biografia.

Já o STF anunciou que vai realizar audiência pública para discutir o tema das biografias não autorizadas. A ministra Cármen Lúcia, relatora da Ação Direta de Inconstitucionalidade solicitada pela Anel (Associação Nacional dos Editores de Livros), que questiona a validade dos artigos 20 e 21 do Código Civil, anunciou audiência pública para discutir o assunto nos dias 20 e 21 de novembro.

O presidente do STF, Joaquim Barbosa, e o ministro Marco Aurélio Mello já deram entrevistas sinalizando que são a favor da publicação de biografias sem autorização prévia. Escritores e biógrafos como Ruy Castro e Lira Neto já mandaram o recado. "Caso o código civil brasileiro não seja alterado, como queremos, extinguindo a autorização obrigatória, as biografias vão entrar em extinção no Brasil. Minha carreira de biógrafo estará encerrada", afirmou Lira.

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