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Necessidade de autorização pode ruir dez anos de trabalho de biógrafos

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O escritor e colunista do UOL Mário Magalhães, autor de "Marighella - o Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo" Imagem: Divulgação

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

23/10/2013 06h00

A obrigatoriedade de autorização prévia para lançamento de biografias, ainda em vigor no Brasil, ameaça um processo longo, que envolve a leitura de uma "estante de livros", a pesquisa a calhamaços de documentos e realização de centenas de entrevistas. Em certos casos, a construção de um texto biográfico passa de uma década de trabalho, como foi com a biografia de Roberto Carlos, retirada de circulação em 2007 a pedido do cantor.

Enquanto artistas defendem o direito à privacidade, escritores afirmam que o imperativo de anuência vai além de questões comerciais e de liberdade de expressão. Limitaria também a atuação de historiadores, antropólogos e da própria forma como se conta a história do país.

Em meio à discussão --a Câmara dos Deputados volta nesta quarta-feira a debater o projeto que liberaria novamente a publicação de biografias não autorizadas--, o UOL pediu aos biógrafos Mário Magalhães (autor de "Marighella"), Lira Neto ("Getúlio", "Maysa", "Padre Cícero" e "O Inimigo do Rei: Uma biografia de José de Alencar") e Marcos Eduardo Neves ("Nunca Houve um Homem como Heleno", "Anjo ou Demônio - A Polêmica Trajetória de Renato Gaúcho") que dissecassem a complexa arte de biografar para entender melhor a dimensão de um trabalho que pode ser levado ao limbo caso o personagem se sinta incomodado.

Segundo os autores, o escritor precisa mergulhar em pelo menos cinco etapas: consolidar a ideia, investigar o personagem, cruzar todas as informações disponíveis e, enfim, escrever e editar o texto. Um esforço que, contam, assemelha-se muito ao de produzir uma grande reportagem jornalística.

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    Lira Neto, que biografou Getulio Vargas

A fase de consolidação, com a consulta a tudo que já tenha sido publicado anteriormente, pode durar mais de um ano, dependendo do biografado. "Eu procuro, primeiro, fazer a leitura inicial de tudo de relevante que já tenha saído, recorrendo a bibliotecas, sebos. No caso de 'Getúlio', precisei construir uma espécie de biografia paralela para compor o roteiro", revela Lira Neto.

A etapa seguinte, contam os escritores, é a mais trabalhosa: a apuração. É quando eles se debruçam em bibliotecas e arquivos públicos em busca de jornais, correspondências, certidões, todo o tipo de documento que remeta ao personagem. Após esse "garimpo", o biógrafo parte paras as entrevistas com pessoas ligadas ao biografado, os "sobreviventes da história".

"No meu caso, entrevistei 256 pessoas. Tive acesso a cerca de 70 mil páginas de documentos, em microfilme e mídias digital e impressa, oriundos de 32 arquivos públicos e privados de Brasil, Paraguai, Estados Unidos, República Tcheca e Rússia. Também li 500 títulos, equivalentes a perto de 600 volumes de livros", conta Mário Magalhães sobre "Marighella", que conta a história do guerrilheiro brasileiro "que incendiou o mundo".

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    A biografia de Heleno de Freitas

Com esse volumoso quebra-cabeças de dados, o escritor parte para uma tarefa delicada: cruzar as informações. É o que afirmam ser o calcanhar de aquiles das "reportagens sobre vidas". Algo que, na visão de Mário Magalhães, suscita o exercício constante do ceticismo.

"Você pode ouvir 30 pessoas e, na primeira entrevista, escutar que tal pessoa foi a terceira mulher do personagem, mas outras 29 dizem que foi a quarta. Não dá para confiar nas memórias. Se você não tem um documento que comprove, tem de falar com o máximo de gente possível", disse o escritor Marcos Eduardo Neves, que recorreu a 120 vozes para reconstruir a trajetória do jogador de futebol Heleno de Freitas, biografia adaptada para o cinema em 2012.

"Toda fonte de informação tem um interesse. E é comum encontrar relatos e documentos opostos. Quando não há consenso, é preciso dar ao leitor a chance de conhecer as várias visões sobre o mesmo episódio", disse Lira Neto, que, em 2007, recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria melhor biografia do ano, pelo livro "O inimigo do Rei: Uma Biografia de José de Alencar".

História perdida
Temendo processos, editoras como a Companhia das Letras chegam a submeter as biografias a checagem e a seu departamento jurídico. Na opinião dos autores, no entanto, hoje o problema legal é outro: a necessidade de autorização prévia de personagens e herdeiros, conforme o Código Civil.

"Caso o marco legal não seja alterado, como queremos, extinguindo a autorização obrigatória, as biografias vão entrar em extinção no Brasil. Minha carreira de biógrafo estará encerrada", afirmou Lira Neto.

O colega Magalhães vai pelo mesmo caminho. "Eu já desisti. Enquanto perdurar o atual marco legal, do que adianta mergulhar anos a fio em uma biografia que pode jamais ter autorização para ser lançada?", questionou.

"Não quero que 'Heleno' seja meu grande trabalho. Adoraria fazer uma biografia definitiva, por exemplo, do Simonal. Mas, se nada for feito [em relação à lei], serei um biógrafo frustrado que fará só livros sob encomenda para parentes, com minha empresa", lamentou Neves.

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