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Artistas nacionais ganham mais espaço e usam Lollapalooza como palanque

Do UOL em São Paulo
Mariana Pekin/UOL

O Lollapalooza 2019 teve um gosto especial para artistas brasileiros. Após sete edições dominadas por bandas e cantores gringos, o festival colocou o Brasil na linha de frente: pela primeira vez uma banda nacional ocupou posição de destaque na programação do palco principal, com o Tribalistas abrindo para o Arctic Monkeys na sexta-feira.

Mais do que isso: shows paralelos atraíram grande atenção e atraíram uma plateia quente, antenada tanto na música quanto na conjuntura política. Gritos de "Ei, Bolsonaro, vai tomar no c*" foram uma das tônicas do festival, virando uma espécie de hit extraoficial do evento --assim como o "Fora, Temer" de 2016, mas agora com muito mais vigor.

Flavio Moraes/UOL Flavio Moraes/UOL
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Palanque indie

O protesto também eclodiu em shows internacionais, como o do grupo californiano Fever 333, que entrou na onda mesmo sem entender português, mas foi nos nacionais que a manifestação se intensificou. O coro era orgânico e surgia em diversos momentos dos shows, principalmente no fim, e os artistas no palco escolhiam ou não endossá-los.

No momento em que o governo Bolsonaro tem a pior avaliação entre os presidentes de 1º mandato, músicos alinhados à esquerda, como a cantora carioca Letrux, aproveitaram a situação, com transmissão ao vivo do Multishow, para se manifestar. "Não quero falar esse nome, que pra mim já é um xingamento", disse ela no palco, com a placa da "rua Marielle Franco nas mãos", em alusão ao presidente JAir Bolsonaro. Outros mais "isentões", como o rapper Gabriel o Pensador, resumiu seu protesto à própria letra. "Chamando políticos de mito", clamou em "Tô Feliz (Matei o Presidente) 2".

Houve ainda protestos no telão do show de Liniker e os Caramelows, que exibiu o bordão "Ele, não". A pernambucana Duda Beat também mostrou mensagem fortes, depois de deixar o palco, com as frases "Liberdade para Rennan da Penha" [funkeiro carioca preso acusado de associação com o tráfico], "1964 foi golpe Sim" e "Fora Bolsonaro", acompanhado de gritos "ei, Bolsonaro..."

Nunca um festival do tamanho do tamanho do Lollapalooza ganhou cores políticas tão berrantes.

Mariana Pekin/UOL Mariana Pekin/UOL

O que o público acha disso?

Acho que tudo isso que está acontecendo é reflexo do tempo que estamos vivendo. Os jovens estão cada vez mais engajados, e tudo influência nesse comportamento. Frequento vários festivais, como o Rock in Rio, e aqui é realmente diferente. É um público mais jovem e mais ativo politicamente. Acho isso ótimo.

Mariana Martins, 26

O Lolla é um festival que expressa a diversidade cultural, e dentro desse contexto é normal que esses protestos aconteçam aqui. Isso é democrático. O público conservador é mais comercial, mais velhos, que escuta mais o que está no rádio. Claro que existem exceções, mas não é o ambiente natural para ele.

Ícaro Campos, 27

A política tá bagunçada, mas entendo que as pessoas têm que se expressar. Porém, para mim, um festival é mais para curtir e menos para falar de política. Não me incomoda as manifestações, mas as vezes as músicas ficam prejudicadas quando falam muito de política.

Otávio Fernandes Homem, 20

Iwi Onodera/UOL Iwi Onodera/UOL

"Tô Feliz (Matei o Presidente)"

Com 27 anos de carreira e 45 de idade, o Gabriel o Pensador ainda tem muito o que dizer. Atração do domingo, o rapper tocou a nova versão de "Tô Feliz (Matei o Presidente)", que compôs para o ex-presidente Fernando Collor e que relançou em 2017 como "Tô Feliz (Matei o Presidente) 2" para criticar Michel Temer.

A letra não foi alterada para fazer alusão ao presidente Jair Bolsonaro, mas o trecho que diz "chamando políticos ridículos de mito" ganhou aplausos e gritos da plateia. Em seguida, o rapper emendou "FDP", em que pergunta: "Todo político é filho da p***?". A plateia não teve dúvidas.

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Ale Frata/Código 19/Estadão Conteúdo Ale Frata/Código 19/Estadão Conteúdo
Flavio Moraes/UOL / Camila Cara/Divulgação Flavio Moraes/UOL / Camila Cara/Divulgação

"Não compactuamos com o fascismo"

Discursos políticos também marcaram apresentações de Liniker e Aláfia

Depois de ter que deixar o palco do Lollapalooza 2018 por problemas técnicos, a cantora Liniker pôde lavar a alma em 2019. O discurso político, uma tônica do festival, aconteceu no fim do show da sexta-feira, após a plateia gritar "Ei, Bolsonaro, vai tomar no c." "É pra isso que estamos aqui, pra resistir", resumiu Liniker no palco. "Muito gostoso olhar para essa plateia e me ver mais nas pessoas", continuou. "Escolhi falar de afeto porque é o que me deixa viva, me legitima, me dá esperança."

O numeroso grupo Aláfia -- são 15 integrantes -- também aproveitou seu espaço no festival para se posicionar. "Não compactuamos com o fascismo, não compactuamos com esse governo que está no poder", declarou o vocalista Jairo Pereira.

As composições do grupo já provam que a banda não se restringe em apontar críticas no Brasil. Falando sobre escravidão, a São Paulo preconceituosa e o esquecimento dos indígenas, o grupo ainda criticou o presidente Jair Bolsonaro, os batedores de panela e o racismo. "Justiça e igualdade!", pregou Jairo erguendo o pulso direito no final da apresentação.

Camila Cara/Divulgação Camila Cara/Divulgação

Índios participaram do show do Portugal. The Man

A banda americana Portugal. The Man abriu espaço para um grupo de índios fazer um protesto antes do show no primeiro dia do festival.

"Os indígenas são 5% da população. Nós protegemos 82% da biodiversidade do mundo. Falam que é muita terra para pouco índio, mas é muito índio protegendo a vida. Nós, povos indígenas, estamos sendo perseguidos, estamos sendo assassinados e mortos. Nós estamos lutando pela vida", disse um dos líderes indígenas em cima do palco.

"O homem mais poderoso do mundo, no meio da floresta, sem nada, ele não vai ter sobrevivência. O poder da vida está na natureza. Salve o planeta", finalizou o líder indígena, sendo bastante aplaudido pelo público que já estava em peso no local

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Flavio Moraes e Mariana Pekin/UOL Flavio Moraes e Mariana Pekin/UOL

O universo particular dos Tribalistas e a força de Iza

Desde a chegada do Lollapalooza no Brasil, em 2012, muito se discutiu sobre a escalação de artistas nacionais nos horários de menor público, geralmente no início da tarde logo após a abertura dos portões. A ascensão de artistas brasileiros tem se fortalecido nas últimas edições, mas 2019 foi o ano em que as apostas corresponderam às expectativas.

A reunião dos Tribalistas ganhou o palco principal na sexta-feira, antes apenas do Arctic Monkeys. E a resposta veio de maneira entusiasmada do público, que cantou junto com Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte em clima de nostalgia.

A presença de Iza no domingo também foi suficiente para mostrar que as atrações brasileiras têm força suficiente para bancar seus shows nas "letras maiores" do cartaz do festival nas próximas edições. Dona do palco, a cantora apresentou os hits de seu disco "Dona de Mim" e deixou a impressão que merecia um lugarzinho de mais destaque no Lolla com show cheio de personalidade.

Iza canta "Pesadão" com Marcelo Falcão

Flavio Moraes/UOL Flavio Moraes/UOL

Manifestação também nas parties

Em show do Bring Me The Horizon, Bolsonaro foi hostilizado

Eventos realizados paralelamente ao festival, as Parties do Lolla também tiveram sua cota de manifestações. No show do Bring Me The Horizon na Audio, em São Paulo, o presidente Jair Bolsonaro foi hostilizado ao ser citado pelo vocalista Oliver Sykes, que falou em português, incluindo palavrões."Vai se f..., Bolsonaro", disse o vocalista, aplaudido pela maioria, que entoou um coro hostilizando o presidente. "Eu não gosto Bolsonaro (sic)", disse ele, desculpando-se pelos erros fora de sua língua mãe. Vale lembrar que o disco mais recente dos britânicos ganhou um nome exatamente em português "Amo".

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Público em 2019

  • Sexta-feira (5)

    78 mil pessoas

    Imagem: Camila Cara/Divulgação
  • Sábado (6)

    92 mil pessoas

    Imagem: Flávio Moraes/UOL
  • Domingo (7)

    76 mil pessoas

    Imagem: Manuela Scarpa/Brazil News
  • *Em 2018

    O Lollapalooza 2018 foi a maior edição do festival: 100 mil pessoas por dia.

    Imagem: Mariana Pekin/UOL
Instagram/Reprodução Instagram/Reprodução

Funk também encontrou lugar no Lolla

Embora Kevinho tenha sido atração do Lollapalooza Chile, o funk geralmente tem pouco espaço no festival, exceto quando é lembrado pelos DJs do palco eletrônico. Em 2019, o estilo marcou presença com Kevin O Chris, convidado por ninguém menos que Post Malone para participar de seu show.

"Malone, tamo junto, papai!", disse MC Kevin o Chris antes de cantar "Vamos pra Gaiola", transformando o Lolla em baile funk. Até Post entrou na dança e ficou no seu canto observando o brasileiro enquanto dançava timidamente. Na sequência veio "Ela é do Tipo", com o público descendo e rebolando pela surpresa no show do rapper americano.

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Eu acho super necessário falar de política aqui, porque o Lolla é um lugar elitizado para a galera de alta renda. É um ato político estarmos ocupando esse lugar. A galera está usando esse espaço realmente para reivindicar.

Mariana Peillo, 18

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