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Xand Avião e Luciano falam de música na pandemia: 'Lives vieram para ficar'

Do UOL, em São Paulo

08/05/2020 13h22

Em tempos de quarentena para evitar o avanço da pandemia do coronavírus, as lives de tornaram uma das principais formas de entretenimento para as pessoas confinadas em casa. Diversos artistas estão recorrendo às plataformas digitais para realizar apresentações dentro de suas próprias casas, agitar o público e arrecadar doações para quem mais sofre com o vírus.

Com mediação da editora de Entretenimento Liv Brandão, o UOL Debate de hoje reuniu os cantores Luciano Camargo e Xand Avião, além de Sandra Jimenez, diretora da área de música do YouTube para a América Latina, e Pedro Tourinho, empresário e publicitário, para discutir o fenômeno que as lives se tornaram no Brasil e no mundo e avaliar o seu impacto para o futuro pós-pandemia.

Vieram para ficar

Das cinco lives recordistas de público no YouTube, cinco são brasileiras. Todas ocorreram durante o período de pandemia:

  1. Marília Mendonça - 8 de abril - 3,3 milhões
  2. Jorge e Mateus - 4 de abril - 3,16 milhões
  3. Andrea Bocelli na Catedral de Milão - 12 de abril - 2,8 milhões
  4. Gusttavo Lima - 11 de abril - 2,76 milhões
  5. Sandy & Junior - 21 de abril - 2,54 milhões

Ao citar os dados fornecidos pelo YouTube, a mediadora Liv Brandão comparou os números ao "Beychella", apresentação de Beyoncé no festival Coachella. Para ver a estreia da cantora como atração principal em um dos maiores festivais de música do mundo, 458 mil pessoas se reuniram ao vivo para assistir via YouTube. E essa audiência, vale lembrar, contou com fãs do mundo todo.

"Acho que as lives são um caminho sem volta", afirmou Luciano, parceiro da dupla com o irmão Zezé di Camargo. "Não esperava esse estouro de lives. Eu achava que o Instagram era mais para conversar, bater papo. Tive que ver como o Gusttavo Lima fez para copiar um pouco. Primeiro que não tenho a casa que ele tem", brincou Xand Avião. "Nem nos meus sonhos mais loucos pensei que as pessoas veriam shows das suas casas. Mas a gente se adaptou bem", comemorou.

Pedro Tourinho também defendeu que o modelo das lives vai durar para depois do fim da pandemia.

"Muita gente que não costumava acessar YouTube começou a acessar. Muita gente usou a primeira vez e aprendeu. Isso não tem volta. Dá resultado, é estratégico. A grande rede se conecta pela filantropia. Trocar afeto estando junto na live, os artistas e os fãs. Quando isso passar, vai ficar esse lado positivo, do afeto", sugeriu o empresário.

Do lado do YouTube, Sandra Jimenez concordou que as lives vieram para ficar, criando um novo hábito. "As lives criaram uma conversa ao redor do que está acontecendo. É admirável o que todos os artistas estão fazendo para arrecadar doações. As lives vão ficar por conta de uma nova forma de consumir conteúdo. Quem conhecia está usando mais e quem não conhecia, passou a usar", disse Sandra.

Ajudar quem mais precisa

Um dos pilares da realização das lives durante esse período de quarentena é a doação para quem mais precisa. Os espectadores, além de assistir ao shows, podem doar dinheiro e mantimentos para os mais afetados pela crise desencadeada pelo coronavírus.

"A participação do público é o mais importante. É triste ver que uma ferramenta assim venha se tornar popular por causa de uma pandemia, de uma crise", lamenta Luciano. "Por outro lado, mostra como é importante esse trabalho social. Hoje, com a tecnologia, as doações são diretas, não demoram para chegar em quem precisa. Acho que isso é o mais importante", defendeu o cantor.

A preocupação também avança para os outros agentes envolvidos no setor musical. São músicos, produtores, secretários, técnicos de som que estão sem oportunidade de trabalhar durante a pandemia.

"A gente tem uma equipe muito grande. O público só vê o artista, mas por trás tem músicos, técnicos, secretários. Até agora, estamos segurando todo mundo", revelou Xand, que planeja uma festa junina virtual. "Eu tinha 36 shows marcados para o São João, melhor época, e cancelaram todos. Foi uma queda de 100%. A gente tem uma equipe em Fortaleza voltada para os freelancers que são os que sofrem mais. Fizemos uma doação para essa galera. Todo mundo está passando por uma crise que não esperava, mas temos que ajudar essas pessoas", defende.

Impacto para os artistas

As lives nas plataformas digitais também estão criando novas oportunidades para todos os tipos de artistas. Do lado dos artistas independentes, Pedro reforçou que "a live ajuda a manter o modelo de negócio rolando, vendendo shows para festivais digitais" e sugeriu o estabelecimento de um modelo de negócio que possibilite a cobrança de ingressos para consumir o trabalho desses artistas menores.

Já para a diretora de parcerias musicais do YouTube, Sandra Jimenez, esse novo modelo do entretenimento é um "momento de aprendizado" e está "dando oportunidade para o público que ficava fora do circuito de shows" consumir seus artistas favoritos.

Intimidade exposta

Um lado bastante interessante para o público que acompanha as lives é justamente a oportunidade de entrar na casa dos artistas e conhecer um pouco mais de sua intimidade. Ivete Sangalo surgiu de pijama, Alok agitou os vizinhos na varanda. São esses momentos que os fãs guardam na memória.

"Acho que estou aprendendo a ser mais íntimo com o vídeo, mostrando minha casa, as brincadeiras. Vou aprender com isso dos fãs entrarem na nossa casa", disse Luciano. "Nunca imaginei cantar para 1 milhão de pessoas sem ninguém na minha frente", completou Xand. "Na hora que meus filhos entraram na live, aumentou 150 mil pessoas. As pessoas querem ver isso", refletiu.

O comportamento dos cantores durante a transmissão ao vivo, porém, tem que ser cuidadoso. "Se eu não for legal, as pessoas não vão querer me ver num show", sugeriu Xand. "Não é por estar em casa que você pode fazer qualquer coisa, ficar bêbado na frente de todo mundo", alertou Pedro.

Respeito à legislação

Muito se discutiu sobre as diretrizes do YouTube diante de alguns episódios envolvendo as lives. Gusttavo Lima, que realizou uma transmissão ao vivo no dia 11 de abril, foi alvo de processo aberto pelo Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) por consumir bebida alcoólica durante a apresentação, considerada uma ação publicitária. A legislação brasileira veta o consumo de álcool na publicidade.

Sandra Gimenez esclareceu que a política do YouTube em relação a isso não se alterou depois da pandemia. "As regras não mudam desde 2018. Existem políticas que as pessoas devem seguir. Se você buscar no Google, elas estarão lá", explicou.

"O que aconteceu foi um ajuste de cada uma das pessoas dos setores que estão fazendo as lives a buscar essas informações. Por isso, fizemos esse treinamento de quatro semanas porque sentimos que o mercado musical precisava olhar para esse novo momento", pontuou Sandra. "Não é a plataforma que está determinando nada. Acima de tudo, temos que respeitar as leis do país", reforçou.

"As pessoas se acostumaram a olhar as plataformas como se fosse o ar. É tão integrado que esquecem que é uma plataforma de negócio. Gera emprego, gera renda. É uma rede financeira que tem que ter regras. É uma plataforma comercial que tem que remunerar todo mundo de sua cadeia", defendeu Pedro Tourinho.

Xand Avião, que também já levou sua live ao YouTube, se posicionou como artista a respeito do assunto. E lembrou que deixou para beber apenas após o fim do show online.

"Tive uma reunião para entender o que era o comercial de bebidas. Todo artista que faz isso (live) precisava passar por isso. Comercial de cerveja não tem ninguém tomando cerveja, eu nunca tinha reparado nisso. Pode aparecer a cerveja, mas ninguém bebe. Eu posso vender o produto, mas tenho que respeitar as leis do país", ponderou. "Não bebi durante a minha live, mas bebi muito quando acabou", brincou.