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San Diego Comic-Con


Marvel esquece Stan Lee em sua apoteose na San Diego Comic-Con

Stan Lee - Sebastian Artz/Getty Images
Stan Lee Imagem: Sebastian Artz/Getty Images

Renan Martins Frade

Colaboração para o UOL, em San Diego

21/07/2019 04h00

Em meio a anúncios dos filmes e séries da Fase 4 da Marvel Studios na San Diego Comic-Con ontem, uma ausência foi sentida - a do nome da única pessoa a estar presente em 22 dos 23 longas-metragens do estúdio: Stan Lee. Ele, que morreu em novembro do ano passado aos 95 anos, foi editor-chefe, publisher, mente criativa e o rosto público da Casa das Ideias por décadas. E uma figura fundamental nos 50 anos de Comic-Con.

O evento sempre foi o habitat natural de Stan Lee. Criador de personagens como Thor, Homem-Aranha e Homem de Ferro, o editor e roteirista esteve presente na San Diego Comic-Con desde os seus primórdios, nos anos 1970. Até por isso, esperava-se alguma homenagem da Marvel no principal painel da convenção deste ano.

Todos os anúncios foram corridos, é verdade. No palco do Hall H, o maior espaço do evento, o presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, se desdobrou para divulgar dez filmes e séries que serão lançados entre 2020 e 2021 nos cinemas e na plataforma de streaming Disney+, além de anunciar Mahershala Ali como o novo Blade.

Homenagens

A morte do ídolo não passou em branco no resto do evento. Na quinta-feira, a Comic-Con recebeu dois painéis em homenagem a Stan Lee. O primeiro reuniu profissionais dos quadrinhos, que compartilharam algumas palavras sobre o quadrinista e como era o relacionamento deles com a lenda da cultura pop.

"Quando chegávamos na convenção com ele, era como estar com um rockstar", disse Gill Champion, presidente da POW! Entertainment, editora co-criada por Lee em 2001.

Champion também comentou sobre uma passagem complicada na vida do sócio e amigo. "Há 20 anos, eu e minha esposa fomos jantar com ele e a mulher, Joan. Ele tinha 70 e tantos anos e estava muito deprimido. Foi a única vez que o vi deprimido. 'Eu não sei o que fazer. Eu trabalhei toda minha vida, não posso me aposentar, eu nunca joguei golfe, não gosto de tênis, eu não gosto de tirar férias. Tudo que sei e amo fazer é escrever'. Então eu disse: 'continue escrevendo, Stan, escreva novas histórias, novos personagens e novos universos.' O famoso sorriso dele voltou e, com um piscar de olhos, a depressão havia ido embora e nunca mais a vi."

Jimmy Palmiotti, responsável pelo recente reposicionamento na personagem Arlequina nas HQs da DC, lembrou de uma passagem da época em que começou a trabalhar na Marvel, em 1991.

"Seis meses lá dentro, trabalhando com o Justiceiro, entrei no escritório da Marvel e vi Stan Lee do outro lado do corredor. Ele começou a andar até mim e eu suei frio. Não sabia o que fazer. Ele riu e disse: 'Jimmy Palmiotti, prazer em conhecê-lo'. Ele sabia meu nome! 'Bom trabalho, continue assim'. Stan então se virou, começou a ir embora, mas parou novamente e se voltou para mim. 'Você deve estar se perguntando como sei o seu nome'. Ele tirou do bolso um recorte da revista Wizard, com a minha foto. 'Eu sabia que você vinha hoje e peguei sua foto, para saber quem você era quando o encontrasse." E foi embora."

Tom DeSanto, produtor dos filmes dos X-Men, relembrou um momento importante para a cultura pop - o surgimento das participações especiais de Lee, chamada de "cameos" em inglês, nos filmes dos personagens que criou. Até então, o rosto do quadrinista era mais reconhecido pelos fãs de quadrinhos e desenhos animados - e por uma ponta que tinha feito no longa-metragem independente "Barrados no Shopping", de Kevin Smith.

"Eu estava tentando que o Stan fizesse um cameo em 'X-Men 1'. Nós estávamos gravando em Toronto, e naquela época o Stan estava sempre em turnê, com a Stan Lee Media - que o acabou deixando em uma situação horrível. Stan disse numa ligação 'eu estou processando a Marvel, eles não querem que eu faça isso'. E eu respondi: 'mas Stan, você é a Marvel'".

O quadrinista acabou aceitando. "Nós tínhamos um dia de gravação em Los Angeles. É a cena do senador Kelly saindo da água e virando aquele homem-peixe gelatinoso. Não tinha falas, mas criamos esse vendedor de hot-dog para Stan fazer. Ele então veio e todos ficaram animados, querendo tirar fotos, e Stan percebeu o impacto que teve em todos aqueles criadores no mundo dos filmes. Ele foi incrível, faz a sua ponta e, quando estava saindo, diz 'hey, Titânico Tom DeSanto, que tal no próximo filme você me dar uma fala?'. Assim era Stan Lee".

Já o segundo painel utilizou um formato comum em velórios nos Estados Unidos, com amigos e colegas de trabalho subindo ao púlpito para dedicar algumas palavras ao morto. Desta vez, os fãs e profissionais que não conheceram o mítico quadrinista, mas foram impactados pelo seu trabalho, também foram ao microfone.

Robert Mulhahan, amigo do quadrinista, se emocionou ao relembrar o valor que Lee dava para as convenções de quadrinhos. "Ele queria que todos tivessem a experiência de se sentir realmente parte de uma comunidade. Essas comic cons são como ir à igreja. Todo mundo é um devoto. Você não precisa explicar. E era o que Stan queria. Ele queria que todos se sentissem bem-vindos, que se sentissem especiais".

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