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Fantastic Negrito: Da plantação de maconha ao Grammy, bluesman estreia no Brasil

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O músico Fantastic Negrito foi apadrinhado por Chris Cornell Imagem: Getty Images

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

2019-03-19T04:00:00

19/03/2019 04h00

Xavier Amin Dphrepaulezz, mais conhecido como Fantastic Negrito, chega ao Brasil pela primeira vez para uma apresentação única em São Paulo, hoje, no Cine Joia. Em fevereiro, aos 51 anos, ele venceu seu segundo Grammy por um álbum de blues, que marca uma vida e uma trajetória cheias de obstáculos. De artista de rua a traficante na adolescência, ele passou por um trabalho plantando maconha até chamar a atenção de Chris Cornell e ver sua carreira decolar.

Em entrevista ao UOL, Xavier conta que se vê como muitos dos brasileiros que perseguem seus sonhos por anos a fio. As coisas só mudaram para ele há cerca de cinco anos, quando alguém mandou um link de suas apresentações de rua a Chris Cornell, que fez contato. "Cara, eu te vi no YouTube, você estava tocando na rua e passei a noite acordado vendo suas coisas", disse Cornell, adicionando ao elogio um convite para que o norte-americano abrisse os shows de sua turnê solo "Higher Truth".

Os frutos estão na casa de Xavier, no formato de gramofones, que se contrapõe à lembrança dos duros dias na rua, quando ganhava trocados, mas também agressões.

Música é a linguagem da humanidade. Ela transcende as palavras. Palavras são traiçoeiras. Mas com a música, quando eu estava há cinco anos tocando nos trens e na rua, eu vi como podia influenciar as pessoas. Eu sempre digo: se você está escrevendo música, teste com quem não quer ouvir. Tem gente que passa, anda 15 metros e depois volta para dar um trocado. Já ganhei 100 dólares, mas também já me jogaram garrafas. Fantastic Negrito

As dificuldades vieram desde a infância para Xavier. Oitavo de uma família de 15 filhos, ele passou a adolescência em Oakland, Califórnia, onde roubou casas de amigos - de quem se aproximava só com esse objetivo -, traficou drogas, fugiu de casa e caiu no mundo da rua de cabeça. "Todos vendíamos drogas, cara. Carregávamos pistolas. Havia uma epidemia de crack", disse ele, em entrevista ao "The Guardian", em 2016.

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Insistência

Sua salvação foi a música, mas depois de muitas tentativas. Primeiro, com a banda The X-Factor. Mas um acidente de carro o tirou de ação, com as duas pernas e braços quebrados. "Eu era um cara de meia-idade, não era um rapper, não era uma garota branca...", relembra ele.

Por muito tempo, o sonho de vencer era adiado. Ele teve uma boate ilegal e achou uma das experiências mais enriquecedoras da vida ao trabalhar em uma plantação de maconha, para uso medicinal.

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Foi lindo. Eu aprendi muito com as plantas, elas me deram tanto... Se eu desse a elas ar, água e comida, elas me davam tudo em troca. Eu aprendi com elas a tratar pessoas também.

Sobre a carreira musical, o pensamento era um só: "Eu achei que tinha acabado".

A volta à música veio arranhando um violão para agradar ao filho, quando tirou uma música dos Beatles e o garoto ficou encantando. A reação o fez querer apostar novamente em seu potencial, o que o levou às ruas e a chamar a atenção de Chris Cornell.

Relação com Brasil e realidade dos EUA

Xavier diz que se sente muito conectado com o Brasil. "Vejo que aí tem muitas crianças sofrendo, mas sempre há uma luz no fim do túnel. Temos que lutar. Eu vi amigos e irmãos serem assassinados. Como acontece com muitas crianças, foi muito duro o que passei, mas me ajudou a ser o que sou. Se você sobrevive, intacto, você terá muito a contribuir."

Questionado sobre o Brasil, ele se animou: "O Brasil é um lugar que me empolga. Admiro o que vem daí, é possível sentir a energia. Gosto de Tim Maia. Quem for ao show verá que entrego tudo."

Um homem negro, que veio de baixo e chegou ao topo, Fantastic Negrito diz que não pensa em sua música de forma política, mas demonstra ver com muita cautela o atual momento, com os EUA presididos por Donald Trump.

"Já vimos momentos assim antes, com a direita crescendo. As pessoas estão assustadas, o que mostra que o terrorismo deu certo. Mas não penso na minha música como política. Sou um cara negro, tenho um ponto de vista particular. Mas todos têm. A música é um jeito de lidar com isso. Eu nunca tive como meta vencer o Grammy. Só quero escrever grandes músicas. Se eu posso sorrir ou chorar em um estúdio às 3h da manhã e fazer meus shows, então está tudo bem. Essa é minha contribuição ao mundo", concluiu.

Serviço
Fantastic Negrito em São Paulo (SP)

Data e horário: 19 de março, às 21h
Local: Cine Joia
Endereço: Praça Carlos Gomes, 82
Ingressos: Estão disponíveis pelo site Ingresse

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