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"O Grande Circo Místico": Um filme estranho em meio a candidatos ao Oscar

Divulgação
Imagem: Divulgação

Carlos Helí de Almeida

Colaboração para o UOL

12/09/2018 13h12

"O mundo precisa de um pouco de poesia e magia, e o filme do Cacá [Diegues] vai fazer isso muito bem", disse a veteraníssima produtora Lucy Barreto, presidente da comissão que apontou "O Grande Circo Místico" para representar o Brasil na corrida ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2019. O anúncio foi feito na terça-feira (11), ao final de uma reunião ocorrida na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

É muito bom que haja artistas e realizadores pensando no tipo de cinema que o mundo precisa ver. Mas, em se tratando do tão cobiçado prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, também é preciso considerar o potencial do candidato para conquistar o voto dos eleitores da categoria, independentemente de seu objetivo filosófico. E, principalmente, fazê-lo chegar até eles.

Como produtora que emplacou dois filmes entre os finalistas no Oscar --"O Quatrilho" (1996) e "O Que é Isso, Companheiro?" (1998), dirigidos por seus filhos, Fábio e Bruno Barreto, respectivamente--, Lucy também deve ter levado em consideração o bom relacionamento de Diegues na comunidade cinematográfica internacional. 

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Cacá Diegues nos bastidores do film Imagem: Divulgação

O diretor alagoano já representou o país em seis outras ocasiões, desde "Xica da Silva" (1977) até "Orfeu" (2000), porém nunca chegou a ficar sequer entre os finalistas. No final das contas, computa-se não só o significado do concorrente ao Oscar dentro de seu país de origem, mas também o impacto ou a repercussão que tenha causado fora dele. Até porque a história do prêmio americano está repleta de cineastas negligenciados; alguns, com alguma sorte, levam uma estatueta honorária.

Ainda não dá para falar sobre a repercussão local, já que "O Grande Circo Místico" só chegará às salas brasileiras em novembro. Depois de abrir, fora de concurso, o Festival de Gramado, em agosto, o filme ficará em cartaz por uma semana ainda em setembro, em Macaé, no estado do Rio, para cumprir uma regra da Academia Brasileira de Cinema, entidade que a partir deste ano indica o representante do país ao Oscar.

"O Grande Circo Místico" reúne os elementos mais marcantes da filmografia de Diegues, conhecido por suas ricas alegorias sobre a formação do povo e da cultura brasileiros. No longa, eles aparecem de forma fragmentada, nos diversos episódios que marcam, trágica ou comicamente, a trajetória de uma família circense, que em determinados momentos atinge momentos de fantasia. É quase um objeto estranho no meio dos usuais candidatos ao Oscar de filme estrangeiro, fincados na realidade (do passado ou do presente) nua e crua.

E a repercussão lá fora?

Lá fora, "O Grande Circo Místico" ganhou pré-estreia mundial (também fora de concurso) no Festival de Cannes, a maior plataforma de lançamentos cinematográficos do planeta. A história, que cobre a trajetória de cinco gerações de uma família dedicada ao picadeiro, entre o início do século 20 e o do século 21, foi recebida com palmas calorosas e críticas mornas das principais publicações especializadas estrangeiras --o que pode ser fatal para a reputação de um candidato ao Oscar.

A americana "Hollywood Reporter", por exemplo, reclama que "embora o intenso desfile de personagens pudesse parecer um mash-up dos filmes de Wes Aderson, eles entram e saem tão rápidos da trama que não deixam qualquer impressão". Já a britânica "Screen International" avalia que o esforço de Diegues em adaptar para as telas o poema de Jorge Lima resultou "em uma novela boba cheia de incidentes --dos quais só alguns são realmente memoráveis".

Mais sobre o filme:

O selo de um grande festival estrangeiro tem se tornado determinante no destino de um filme na disputa por uma vaga ao Oscar de produção não falada em língua inglesa. Basta lembrar o histórico dos últimos vitoriosos: o chileno "Uma Mulher Fantástica" (2017), de Sebastián Lelio, levou o Urso de Prata de roteiro em Berlim; o iraniano "O Apartamento" (2016), de Asghar Farhadi, ganhou os prêmios de roteiro e ator em Cannes; e o húngaro "O Filho de Saul" (2015), saiu do festival francês com o prêmio do júri.

"O Grande Circo Místico" desbancou títulos que já chegaram ao circuito brasileiro com afagos internacionais, como "Benzinho", de Gustavo Pizzi, que tem recebido elogios da crítica e do público desde sua primeira exibição, no Sundance, em janeiro; ou "Ferrugem", de Aly Muritiba, que também fez o mesmo caminho. Ambos foram premiados recentemente no Festival de Gramado --o de Muritiba como melhor filme, roteiro e som, e o de Pizzi com os de atriz (Karine Teles) e o do público.

O filme de Diegues receberá um aporte de R$ 200 mil da Secretaria do Audiovisual para promover "O Grande Circo Místico" no exterior, rumo à campanha do Oscar. Ao converter para dólar, o valor chegaria em cerca de US$ 50 mil. Como cobrir gastos com anúncio em jornais e revistas, coquetéis, lançamentos, alugueis de sala para exibição? É uma produção que não dispõe da mesma acolhida de crítica e a visibilidade outros potenciais candidatos à categoria, que chegarão à disputa laureados nos circuitos de festivais.

Entre os mais cotados estão "Shoplifters", do japonês Hirokazu Kore-eda, vencedor da Palma de Ouro em Cannes este ano, ou mesmo "Roma", do mexicano Alfonso Cuarón, que ganhou o Leão de Ouro do recém-encerrado Festival de Veneza. Há também "As Herdeiras", do vizinho Paraguai, dirigido por Marcelo Martinessi (que tem o Brasil entre os coprodutores), premiado em Berlim (melhor atriz) e em Gramado (melhor filme latino, segundo o público e o júri oficial). Todos eles inspirados na dura realidade, mas cheios de delicadeza e poesia, como desejam a comissão brasileira.