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Festival de Cannes

Em Cannes, Cacá Diegues revisita século 20 em longa sobre família circense

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Bruna Linzmeyer em cena de "O Grande Circo Místico" Imagem: Divulgação

Bruno Ghetti

Colaboração para o UOL, em Cannes

13/05/2018 18h11

Demorou quase uma década para que Cacá Diegues conseguisse viabilizar um de seus projetos mais ambiciosos, mas a espera parece ter valido a pena. O longa “O Grande Circo Místico” teve estreia mundialmente nesse sábado (12), no Festival de Cannes, como um dos filmes convidados para exibição especial (não competitiva).

Na primeira sessão, na tarde de sábado (dia 12), com presença da equipe do longa, houve aplausos ao final. Famoso por trabalhos como “Xica da Silva (1976), “Bye Bye Brasil” (1980) e “Deus É Brasileiro” (2003), Diegues dedicou a première em Cannes à memória do amigo e colega de Cinema Novo Nelson Pereira dos Santos, morto no último 21 de abril, aos 89 anos.

Gareth Cattermole/Getty Images
O cineasta brasileiro Cacá Diegues Imagem: Gareth Cattermole/Getty Images

Em seu novo longa, o alagoano Diegues usa por base o poema “O Grande Circo Místico” do escritor conterrâneo Jorge de Lima (1893-1953), que conta os feitos e desventuras dos membros de uma companhia circense. O mesmo texto já havia inspirado, no início dos anos 1980, um bem-sucedido espetáculo de dança de Naum Alves de Souza e um célebre álbum musical homônimo de Chico Buarque e Edu Lobo.

“É como se o filme fosse uma grande orquestra da qual o Edu, o Chico e o Jorge de Lima fazem parte. Mas eu sou o maestro”, diz, rindo, Cacá Diegues, em entrevista ao UOL, em Cannes. “Mas o filme é mesmo uma homenagem ao Jorge de Lima, que eu sempre achei um dos maiores autores da língua portuguesa”, conta o diretor.

O longa é uma fantasia lírica sobre trajetória de um clã circense brasileiro surgido em 1910, quando um jovem rico (Rafael Lozano) se apaixona por uma performer de show de variedades (Bruna Linzmeyer). Para provar seu amor, dá de presente um circo à amada, onde ela possa se apresentar. Um mestre de cerimônias clownesco chamado Celavi (Jesuíta Barbosa) – brincadeira com o termo francês “C’est  la  vie ( “é a vida”) – se encarrega de narrar ao público a história daquela trupe desde então, mostrando-a em várias épocas, ao longo de mais de cem anos.

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Mariana Ximenes em cena do longa de Cacá Diegues Imagem: Divulgação

Algumas canções famosas de Chico e Edu, como “Beatriz”, “A História de Lily Braun” e “Ciranda da Bailarina”, foram incorporadas ao longa. “Mas a ideia era mesmo partir da matriz: o poema. Não houve uma preocupação do tipo: ‘Precisamos incluir as músicas de Chico e Edu’”, revela o roteirista George Moura. “A ideia central foi criar uma narrativa de uma família fascinada pelo circo. E que essa família vive, ao longo de cem anos, o esplendor, depois decadência, e mais adiante um novo esplendor. Então resolvemos dividir esse centenário em blocos de 25 anos.”

Também autor e roteirista da supersérie “Onde Nascem os Fortes”, atualmente no ar na Globo, Moura diz que o projeto, por um bom tempo, sequer contava com a inclusão das canções de Chico e Edu. “Mas com o tempo, acabamos por optar pela inclusão de algumas da músicas. Que são, inclusive, alguns momentos sublimes do filme”, diz.

No número “Beatriz”, por exemplo, Bruna Linzmeyer surge no picadeiro, filmada pela câmera de Diegues de forma a encantar os espectadores (do circo e do cinema) com sua beleza. No filme, entrou a gravação mais conhecida da música, na voz de Milton Nascimento. “Essa versão não teve como deixar de fora”, revela Diegues, que, em outras canções, acabou optando por versões mais modernas ou com novos arranjos.

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Cena com os atores Vincent Cassel e Juliano Cazarré Imagem: Divulgação

Entre os personagens da longa trajetória do circo, há um estrangeiro mulherengo (Vincent  Cassell), um rapaz que se envolve com uma moça entregue aos vícios (Juliano Cazarré e Luiza Mariani) e uma jovem pudica que sonha em se tornar freira (Mariana Ximenes), mas que acaba virando a contragosto uma amarga trapezista.

O filme é uma grande alegoria sobre o que foi o mundo ao longo do século 20 e do início do 21. “Tenta falar do que aconteceu no mundo no século 20, de como o mundo se comportou. E, embora não seja um filme ‘feminista’, é uma história em que as mulheres são as protagonistas, têm sempre um comportamento dominante”, conta Diegues.

Apesar de ter uma atmosfera em geral lúdica, algo felliniana, a trama não se furta de, por vezes, apresentar temas espinhosos, como vício em drogas, estupro e até incesto. “Acho que esse filme é uma alegoria sobre o desejo: de vida, de morte”’, conta o roteirista George Moura. “O que me motiva a escrever é tratar das zonas de sombra do humano. É muito bom que a gente fale sobre assuntos que muitas pessoas não imaginam que existam. A ideia não é chocar, mas a de lançar luz sobre esses assuntos. Esses temas também fazem parte da coletânea da tragédia do desejo”, diz Moura.

Embora o longa talvez seja barroco demais para ter ampla comunicação com o grande público, há quem diga que é um candidato forte à vaga de representante do Brasil no Oscar do ano que vem. “Na verdade, nem Cannes, nem Oscar, nem nada pode ter o direito de ser juiz sobre aquilo o que a gente faz”, diz Diegues. “Não é porque um filme está em Cannes que ele ‘é bom’. Mas é fato que um filme, estando ali, tem aberto um circuito internacional para ele. E se por acaso o filme for para o Oscar, não vai ser bom só para mim, mas para todo o cinema brasileiro como um todo”, diz o diretor. O longa tem previsão de estreia no Brasil para setembro.

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