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De "Cambalacho" a filme em Cannes: Marcos Frota e a vida sob a lona de circo

Fabio Winter / Pressphoto
Marcos Frota no 46º Festival de Cinema de Gramado Imagem: Fabio Winter / Pressphoto

Carlos Helí de Almeida

Colaboração para o UOL, em Gramado (RS)

19/08/2018 17h26

A atividade circense está na trajetória de Marcos Frota há mais de 30 anos, desde que interpretou o trapezista Henrique "Rick" Romano na novela "Cambalacho" (1986), de Silvio de Abreu. Mas só agora, com a estreia do filme "O Grande Circo Místico", que abriu a 46º edição do Festival de Gramado, na última sexta-feira (17) e chega aos cinemas em novembro, contamina o currículo cinematográfico do artista mineiro, que abriu, no Rio, a Unicirco, a primeira faculdade sobre a arte do circo.

Ironicamente, no novo filme de Cacá Diegues, que teve uma pré-estreia de luxo no Festival de Cannes, em maio, o ator de 63 anos interpreta Osvaldão, um empresário da noite que tenta sabotar uma família de artistas do picadeiro. É praticamente um dos vilões da trama, inspirada nos versos do poeta Jorge de Lima. Mas Frota também funcionou como consultor técnico da produção de tons épicos, quase inteiramente rodada em Portugal, e que envolve diversos números com animais e malabaristas.

"Desde que abracei a vida circense, ela inspirou programas na TV, foi tema do especial 'Criança Esperança' da Globo e até um dos desfiles da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel. Mas é a primeira vez que faço um filme diretamente ligado ao circo", conta o ator. "É como se o filme do Cacá coroasse um movimento que iniciei décadas atrás, de colocar o circo no mesmo nível de outros segmentos artísticos, tirando um pouco do véu do preconceito que há sobre ele".

Fabio Winter / Pressphoto
Marcos Frota divulga "O Grande Circo Místico" em Gramado Imagem: Fabio Winter / Pressphoto

Roubado de uma família de ciganos?

Para Frota, "O Grande Circo Místico" é um divisor de águas na carreira. "A trajetória de um ator atinge um novo patamar quando está com um filme na seleção oficial de Cannes. Fiquei pensando nisso quando atravessei o tapete vermelho do festival, ao lado de tantos artistas internacionais", lembra Frota, que desfilou na contenda francesa junto com outros integrantes da equipe do filme, como Mariana Ximenes, Bruna Linzmeyer, e o francês Vincent Cassel.

"É incrível pensar que eu, um ator de teatro, TV e cinema, tenha sido levado ao maior festival de cinema do planeta justamente pelo circo. Vejo como um prêmio a minha dedicação e entrega à arte circense. Atuar no palco ou diante de câmeras é o meu oficio, mas o circo é o exercício da minha cidadania, uma forma de contribuir para tudo que está aí", conta o ator, que abriu a primeira escola dedicada às artes do picadeiro ainda nos anos 1980.

A relação de Frota com a lona é tão antiga, intensa e íntima que até hoje alimenta mitos, jamais desfeitos pelo ator. "Ainda participo do lançamento de espetáculos circenses pelo Brasil, e tem mestre-de-cerimônias que me apresenta ao público dizendo coisas como 'ele foi roubado de uma família de ciganos, quando criança', ou 'ele foi sequestrado por artistas de circo logo depois do parto'", diverte-se o ator. "Mas sou de uma família de fazendeiro do sul de Minas, lá de Guaxupé. Quando algum circo passava por lá, eu ficava fascinado, mas só".

Entre picadeiros e bailes de debutantes

Muito antes de "Cambalacho", houve um sucesso nos palcos. Em 1983, Frota protagonizou a primeira montagem de "Feliz Ano Velho", adaptação do livro homônimo do escritor Marcelo Rubens Paiva no qual descreve o acidente que o deixou paralítico. "A peça, dirigida pelo Paulo Betti, tinha uma atitude circense, porque mostrava através de acrobacias o que era para um adolescente perder os movimentos do corpo. Foi aquela minha presença física em cena que me levou para a TV", lembra o ator, que estreou nas telenovelas em "Vereda Tropical" (1984).

"Em seguida, veio o convite do Silvio de Abreu para fazer o Henrique, um personagem periférico de uma trama protagonizada por Fernanda Montenegro e o Gianfrancesco Guarnieri. Eu era o menino da PUC de São Paulo que queria largar os estudos para entrar para o circo. Como assim? Era o jeito do Silvio, já naquela época, trabalhar a questão do preconceito contra o circo", recorda o ator. "Mas aí o trapezista estourou, e a trama do circo também acabou acontecendo na novela, gerando audiências incríveis".

Aos 30 anos, Frota era um jovem galã da Globo, que mantinha uma agenda abarrotada de aparições em bailes de debutantes. "Durante uns dois anos seguidos fui campeão desse tipo de evento, que era muito comum na época. Dobrava minhas atividades no circo com os bailes. Ganhei muito dinheiro com essas festas, e comprei uma lona. Aí, quando se cria uma escola, adquire-se uma responsabilidade civil, porque coloca pessoas lá dentro, tem uma relação com o poder público".

Com a escola de malabarismo, vieram os espetáculos itinerantes pelo país, e o circo acabou dominando a imagem do ator. "Meus filhos, chegaram a me perguntar: 'Mas pai, por que um artista como você, com a carreira e os prêmios que tem, fica tanto tempo no picadeiro? E o seu trabalho como ator?'. Havia uma demanda muito grande do circo", analisa o ator. "Mas não posso reclamar. Fiz poucas peças, mas todas com três, quatro anos de temporada, fui premiado com todos os prêmios de teatro, do Molière ao Mambembe. A TV eu ocupei bem, até com personagens interessantes, que ficaram na memória do público, como o Tonho da Lua, da novela 'Mulheres de Areia' (1993)".

Vida pessoal como fotonovela

Em vários momentos, o circo ficou relegado aos bastidores da vida pública do ator. Em 1993, veio o primeiro baque: Cibele Cláudia de Moraes, a primeira mulher, morreu em um acidente de automóvel. "Perdi completamente meu chão. Tive que criar meus filhos sozinho", lembra o ator. "Depois, veio meu casamento com a Carolina Dieckmann, de uma geração diferente da minha, com todos os conflitos geracionais possíveis. Vivemos uma união e uma separação pública, parecia uma antiga fotonovela", ri.

"Aquilo tudo me ocupou muito. Porque eu era assunto de interesse público, digamos assim. Tem que ter um cuidado para não deixar sua vida virar uma trama de folhetim. Tentei cumprir alguma agenda com uma novela ou outra, mas não por inteiro porque tinha que cuidar de crianças jovens. O ator precisa ter uma alegria no seu trabalho, de ter uma disponibilidade. Não ficar se defendendo o tempo inteiro".

Nos últimos anos, Frota se ausentou mais da TV para se dedicar ao cinema. "Nesse período, produzi o 'Irmã Dulce', do Vicente Amorim, participei como ator de 'Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood', que era uma grande homenagem ao Renato Aragão, que estava fazendo 80 anos. O filme foi feito no meu circo, preparei toda a equipe para o filme. E agora tem o filme do Cacá. Três incursões que me deram intimidade com o universo do cinema. Queria, agora, filmar a peça 'A Cerimônia do Adeus', do Mauro Rasi (1949-2003)".

Em 2019, Frota completa 40 anos de carreira. "Estreei em 1979, pelas mãos do diretor Ulysses Cruz, com a peça 'O Coronel dos Coronéis', ao lado da Cássia Kiss. Quatro décadas é uma data emblemática. Estou empenhado em voltar ao teatro. Daí a minha vontade de revisitar a obra do Mauro Rasi, que começou na época do besteirol, mas rapidamente se tornou um autor de clássicos do teatro contemporâneo brasileiro, com textos como 'Pérola' e 'Viagem a Forli'".