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Após ausência na Flip, "poeta da Primavera Árabe" diz que arte serve como "guia" dos movimentos

Nasser Nuri/Reuters
Poeta egípcio Tamim Al-Barghouti, em foto de 2007 Imagem: Nasser Nuri/Reuters

Do UOL, em São Paulo

09/07/2013 19h35

O poeta e cientista político egípcio-palestino Tamim Al-Barghouti – que cancelou de última hora sua participação na 11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) – falou nesta terça-feira sobre as manifestações que tomaram o Egito e o Brasil nas últimas semanas durante encontro chamado de pós-Flip, no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo.

Falando direto da Jordânia, via Skype, Tamim afirmou que a poesia, assim como outras formas de arte, serve como "guia" dos movimentos populares. O escritor, que chegou a ser considerado o "poeta da Primavera Árabe", durante os protestos que derrubaram o ditador Hosni Mubarak em 2011, teve cerca de 30 minutos do encontro com o francês Jèrôme Ferrari para falar sobre o tema. Sobre o povo brasileiro nas ruas, resumiu: "O problema agora é entender aonde se quer chegar e cuidar para que movimentos de direita não sequestrem isso no meio do caminho".

“A narrativa e o discurso acabam substituindo o lugar da organização desses movimentos. E a poesia é uma ferramenta ótima para conduzir a narrativa, pensando em termos da revolução. Portanto, há uma explosão de autoexpressão. Todo mundo está tentando fazer poesia, pintando muros. É uma forma de guia, de fio condutor, para esse movimento que está nas ruas. E uma forma de exercer pressão para os governantes que regem o território. Por ser uma narrativa de peso, ela não pode ser interrompida", disse.

Movimentos de direita
Falando ainda em "narrativas", ele afirmou ter acompanhado os protestos no Brasil, mas fez um alerta: "Não quero me precipitar com essas opiniões, ouvimos sobre América Latina, sabemos que o Brasil saiu do militarismo e esse movimento é algo novo. Mas qual é a narrativa disso tudo? Sabemos que o governo é democrático, pró-social. O problema agora é entender aonde se quer chegar e cuidar para que movimentos de direita não sequestrem isso no meio do caminho".

Questionado se as manifestações nas ruas do Egito - que culminou na deposição do presidente Mohamed Mursi na última quarta-feira (3) pelo exército - é um golpe militar ou uma revolução, Tamim respondeu que ambas as definições estão corretas. “É um golpe e uma revolução. O espírito revolucionário é o que está aparecendo. Mas os militares têm usado dessa forma também".

"O que eu penso é que precisa manter a pressão popular, as pessoas na rua. Para que nós continuássemos em uma busca de uma voz civil, democrático, no poder, durante o processo, e que não ceda a um país imperialista, não queremos lutar uma guerra deles", disse, se referindo aos Estados Unidos.

“Eles (a Irmandade Muçulmana) participaram dessa revolução desde o início porque eles tinham histórico de oposição ao Mubarak. Mas eles dividiram o poder econômico com os militares e entraram em alianças regionais, baseado em divisões históricas. E isso jogou o mundo árabe longe de um entendimento. Pouco antes de chegar ao poder, eles fizeram um acordo com os Estados Unidos. E é aí que eles erraram feio", opina sobre o fracasso da Irmandade no poder após a queda do ditador Mubarek.

Ao final, através da transmissão ruim por Skype, Tamim recitou um poema de sua autoria em árabe chamado "Jerusalém".

"Envergonhado"
Sem conseguir chegar ao Brasil para participar da Flip, o poeta enviou uma carta ao público do evento, lida na abertura da mesa "Literatura e revolução", da qual ele participaria, no domingo.

Al-Barghouti citou a manifestações em seu país, o golpe de estado que tirou Mursi do poder e o clima de guerra civil. Disse que, apesar desse cenário, conseguiu chegar a Londres, onde embarcaria para o Brasil, e explicou que, "por conta da distração" seu passaporte havia sido perdido ou até roubado.

Em mais de um trecho da carta, o poeta e cientista político se disse envergonhado e culpado pela ausência. "A culpa só é facilitada porque eu já fui bastante penalizado e castigado", escreveu.

Ele disse ainda que perdeu uma "oportunidade única de visitar o Brasil em um momento histórico" para os dois países e que tem muito a aprender com os brasileiros.

"Para muitos de nós desse lado do Atlântico, a América Latina é fonte de inspiração. E temos muito em comum com o Brasil. Temos desejo de democracia, paixão pela literatura e pela poesia. Em termos pessoais, ir para a Flip teria sido uma experiência muito importante", escreveu.

O poeta agradeceu os esforços da organização da Flip em trazê-lo ao Brasil e das embaixadas brasileiras no Cairo e em Londres, que ofereceram ajuda durante todo o trajeto. 

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