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Na Flip, T.J. Clark sugere que brasileiros rejeitem a Copa do Mundo

Mirella Nascimento

Do UOL, em Paraty (RJ)

06/07/2013 21h49

O crítico e historiador britânico T. J. Clark sugeriu que os brasileiros sejam contra a realização da Copa no Brasil durante a mesa "Da arquibancada à passeata, espetáculo e utopia" na noite deste sábado (6) na 11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

"Falo como inglês. Estamos nos recuperando das Olimpíadas, agora termos o filho da família real. O Estado se alimenta de espetáculo, de momentos falsos de unidade nacional. Neguem isso", disse Clark para uma plateia lotada na Tenda dos Autores, sob aplausos.

Na mesa, com mediação de Mario Sergio Conti, Clark, o filósofo Vladimir Safatle e o psicanalista Tales Ab'Saber desenvolveram considerações a respeito das manifestações e sobre o posicionamento da esquerda diante do momento político do país.

Clark, o primeiro a falar, citou as manifestações durante a Copa das Confederações e contra a realização da Copa do Mundo no Brasil.

"Não é o culto ao futebol que está sendo atacado, mas as catedrais cada vez maiores. Algo está acontecendo que nem o Pelé sabe desviar essa raiva", observou, citando também a vigilância excessiva da polícia durante os jogos.

A atuação da polícia foi destacada por Tales Ab'Saber ao falar sobre as vitórias do Movimento Passe Livre, que deu início às grandes manifestações em São Paulo.

"Houve uma a vitória desses meninos sobre a polícia parafascista de São Paulo, que era apoiada por forças conservadoras e até pelos jornais para agirem sobre os movimentos sociais. Esse é um elemento que deu legitimidade muito grande ao movimento. Quando a prática da demanda social confronta os restos insepultos da ditadura militar brasileira. Porque a PM continuava funcionando como uma polícia de exceção e de ilegalidade. A polícia precisa agir dentro da lei, o que ela não faz desde 1964", disse Ab'Saber, também muito aplaudido.

Safatle destacou a retomada das ruas e uma mudança na forma de pensar política, expressas nas ruas no último mês: "Estamos vivendo uma volta da política às ruas. Esse é o lugar natural da política brasileira. Não é verdade que o Brasil é um país de poucas mobilizações, de poucos conflitos sociais. Esses últimos 20 anos foram um hiato. Esse é o maior o saldo de todo esse processo, é retirar a política dos bastidores, de uma dimensão institucionalizada onde ela funciona muito mal, e recolocá-la na rua, a partir de demandas populares".

Posicionamento da esquerda
Os três estudiosos analisaram especialmente a crise de representação política e o posicionamento da esquerda nesse cenário.

"Durante esses últimos 20 anos, a política brasileira se organizou a partir de dois grandes consórcios de poder, o PSDB e o PT. O consórcio do PT acreditava que tinha a hegemonia das mobilizações de rua, e o PSDB era responsável pelos interesses da burguesia nacional, do pensamento conservador nacional. Nenhum dos dois representam mais o que representaram. Você tem uma polarização em que os extremos tendem a ter mais força", disse Safatle, para depois citar a Marcha Para Jesus, que reuniu milhares de pessoas com representantes como Marco Feliciano.

E destacou que a luta contra a corrupção não pode ser encarada como uma pauta conservadora, "como alguns amigos esquerdistas" se preocuparam.  "O que parece que as pessoas querem é que o último mensaleiro petista seja enforcado nas tripas do último mensaleiro tucano", afirmou.

Ab'Saber usou boa parte do seu tempo na mesa para comentar a crise do "modelo lulista". "Não é só a crise de um modelo de inserção social parcial e controlado pela liderança e seu poder carismático. É também uma crise da administração da imagem lulista. Porque o governo Lula não produziu apenas uma prática econômica, mas um consenso simbólico em cima do corpo do homem Lula".

A mesa foi uma das últimas a entrar na programação da Flip e substituiu a que seria do francês Michel Houellebecq, que cancelou sua participação por motivos pessoais.

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