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"Foi uma surpresa imensa", diz Petra Costa sobre indicação ao Oscar

Petra Costa durante as filmagens do documentário Democracia em Vertigem - Diego Bresani/Divulgação
Petra Costa durante as filmagens do documentário Democracia em Vertigem Imagem: Diego Bresani/Divulgação

Renata Nogueira

Do UOL, em São Paulo

13/01/2020 15h01

Petra Costa está em êxtase. A diretora do documentário Democracia em Vertigem, o representante do Brasil neste ano no Oscar, conversou com o UOL por telefone logo após a indicação.

"Nosso filme não estava em nenhuma das últimas listas de previsões. Eu já estava pensando no que eu ia fazer para me consolar. Foi uma surpresa imensa. Estava com minha mãe e meu namorado e a gente gritava sem parar, ficamos muito contentes, honrados", contou sobre o momento em que soube que seu filme havia entrado na lista de cinco títulos que concorrem a melhor documentário.

A diretora mineira ainda se diz honrada por concorrer em uma categoria que traz mais diretoras mulheres (dos cinco títulos indicados, quatro são dirigidos ou codirigidos por mulheres e quatro são de fora dos Estados Unidos) e mais diversa.

"A categoria de documentários está representando o feminino de uma forma impressionante e também representando o cinema estrangeiro. Isso reflete um passo muito importante que a Academia tem dado para incluir mais membros estrangeiros e mais mulheres entre os votantes. A Academia está de parabéns por ser tão representativa neste ano", diz ela. "Estou feliz pelo Brasil e pela América Latina em um ano que não tem nenhum latino-americano indicado como melhor filme estrangeiro e nenhuma mulher indicada como melhor diretora. É muito importante estar representando nessa categoria", completa.

Disputa com Obamas

Em Democracia em Vertigem, Petra Costa faz um retrato do processo que tirou Dilma Rousseff da presidência do Brasil, em 2016, a partir de um ponto de vista pessoal, misturando sua história familiar com a trajetória política do país. A história começa a ser contada a partir do primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, e segue analisando a posterior crise política no Brasil até o impeachment de Dilma.

O documentário brasileiro concorre com Indústria Americana (produzido pelo casal Barack e Michelle Obama), The Cave, For Sama e Honeyland. Petra diz ter assistido a todos os títulos que estão na disputa, mas prefere não fazer previsões sobre uma possível estatueta dourada.

"São documentários muito fortes, esse ano está muito forte. Tenho muito respeito e admiração por todos eles. Por mim, já estou muito feliz de ter chegado até aqui, estou extasiada em poder nos representar num ano em que o cinema brasileiro foi tão atacado. Isso significa muito para mim e para toda a minha equipe".

Reações

Em um cenário de extrema polarização política, não demorou para que a indicação de Democracia em Vertigem gerasse reações controversas. Uma delas partiu de de Roberto Alvim, secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro. Alvim diz que o filme deveria ter sido indicado na categoria ficção.

Petra defende seu trabalho. "Em uma época que as fake news se espalham de uma forma tão viral, é fundamental que a imprensa possa documentar isso. Nosso documentário faz factcheck (verificação de fatos) do começo ao fim e eu exponho as minhas dúvidas, experiências e preocupações. Espero que a imprensa possa a ajudar a esclarecer fake news como essas em vez de espalhar", comentou a diretora.

Crise política global

Na corrida pela estatueta dourada, a Netflix —distrubuidora do filme— tem sido uma importante aliada de Democracia em Vertigem. Segundo a diretora, a estratégia de divulgação do filme já deu certo e não deve mudar muito. O serviço de streaming colabora desde setembro com exibições em Nova York, Los Angeles, Europa, sempre com importantes anfitriões, em uma lista que inclui até Spike Lee.

Outro fato que pode ajudar o filme a ganhar ainda mais chances é o cenário político em que os Estados Unidos se encontram atualmente, com o presidente Donald Trump também enfrentando um processo de impeachment.

"O processo de impeachment de Dilma é extremamente diferente do norte-americano. Lá, o [Donald] Trump cometeu um crime, um 'high crime', que é um crime à altura de um impeachment. Mas acho que a crise política em que eles se encontram, com o impeachment ainda por cima, fica ainda mais espelhada no filme. O judiciário, a digitalização da política, o ódio crescendo, tantas similaridades podem ajudar os americanos a entenderem lá a partir do que estava acontecendo aqui, apesar das diferenças", observa Petra.

Democracia em Vertigem estreou na Netflix em 19 de junho de 2019, e pode ser visto pelos assinantes do serviço de streaming. O filme teve estreia no Festival de Sundance, em janeiro de 2019, e chamou atenção da crítica e imprensa especializada pelo circuito de festivais nos quais foi exibido. O documentário já vinha surgindo como nome forte nas premiações. Ele foi indicado ao Critics' Choice Documentary Awards, ao Gotham Awards e ao IDA Documentary Awards.

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