Topo

Filmes e séries


Versão rejeitada de "Gladiador 2" tinha Russell Crowe perseguindo Jesus Cristo

Russel Crowe vive Maximus, general romano que foi escravizado e se tornou um gladiador, no filme "Gladiador" - Reuters
Russel Crowe vive Maximus, general romano que foi escravizado e se tornou um gladiador, no filme "Gladiador"
Imagem: Reuters

Eduardo Pereira

Do UOL, em São Paulo

18/06/2019 04h00

Depois de quase 20 anos de ameaças, parece que Ridley Scott vai mesmo tirar do papel uma sequência para "Gladiador", um dos maiores blockbusters do início dos anos 2000. A ideia se arrasta desde 2001, quando um embate de bastidores entre os planos do diretor e os de sua estrela, Russell Crowe, deu origem a um dos roteiros mais épicos e bizarros já descartados em Hollywood.

Enquanto Scott advogava por uma sequência direta à trama, que abordaria eventos na Roma Antiga passados após a morte do protagonista Maximus, Crowe queria uma oportunidade de ressuscitar seu personagem (que morre pouco antes dos créditos finais) e, portanto, voltar a protagonizar um blockbuster de proporções colossais como o original. O jeito foi, pessoalmente, incumbir o músico e escritor Nick Cave de escrever um roteiro.

Famoso pelo seu trabalho à frente da banda Bad Seeds, Cave tinha, à época, assinado só um roteiro cinematográfico, o do suspense underground "Ghosts... of The Civil Dead". Ainda assim, acatou imediatamente a proposta de Crowe. "Era um baita pedido", lembrou ao podcast "WTF", do comediante Marc Maron. "Eu só virei e respondi: 'Mas você não morreu no primeiro filme?', e Crowe disse: 'Sim, você resolve isso'". E o escritor fez seu melhor.

Na sua continuação para a saga de Maximus, o gladiador acordava no submundo apenas para descobrir um desolado cenário de morte e destruição. Vagando por entre ruínas, ele encontrava velhos e enfraquecidos deuses, que lhe ofereciam uma saída: "Tinha esse novo deus, um homem na Terra, que estava ganhando popularidade", explicou Cave. "Então, os velhos deuses mandam o Gladiador de volta para matar esse Cristo e seus seguidores".

Em troca, Maximus poderia ser reunido à sua família, morta no primeiro filme a mando do imperador. Mas a grande reviravolta estava na identidade desse suposto Messias: ele seria filho de Maximus, que teria sido ressuscitado e adotado por uma família cristã. Assim, ao descobrir que havia sido enganado pelos deuses para matar seu próprio sangue, o gladiador lançaria uma brutal vingança contra Roma, liderando cristãos em um conflito violento.

Munido de imortalidade concedida a ele pelos velhos deuses (é sério), ele venceria a batalha, mas como punição seria condenado a uma eternidade de guerras e sofrimento, atravessando gerações como protagonista dos maiores conflitos da história da humanidade, sempre lutando (o filme se encerraria numa cena de 20 minutos que colocaria Crowe na guerra do Vietnã, do Afeganistão e, por fim, como secretário no Pentágono).

Nick Cave durante entrevista em São Paulo - Lucas Lima/UOL
Nick Cave durante entrevista em São Paulo
Imagem: Lucas Lima/UOL

Se todo esse conceito surrealista já não fosse esquisito demais para emplacar num filme-pipoca sob a tutela dos conservadores produtores hollywoodianos, a solução de Cave para o problema do título do filme, que claramente não giraria mais em torno de confrontos entre soldados em arenas romanas, era chamá-lo de "Christ Killer", ou "Assassino de Cristo". Tem como ser menos comercial que isso?

"Eu gostei muito de escrevê-lo porque eu sabia, em todos os níveis, que ele nunca seria feito", brincou o músico. E ele tinha toda a razão. O roteiro não só foi descartado pelos produtores, como foi reprovado pelo próprio Crowe, que respondeu a Cave com um econômico: "Não curti, parceiro".

A volta do que não foi

Prometida agora como uma "história que vai se passar entre 25 e 30 anos após o filme original", a sequência de Gladiador já teve diversas formas ao longo dos últimos 18 anos. O filme original vivia, em 2001, sua coroação como maior do mundo. Ganhador de cinco prêmios Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator, e com uma bilheteria global de quase US$ 500 milhões, era o tipo de projeto que gritava por uma sequência para fazer rodar ainda mais dinheiro.

O plano inicial era, portanto, contar uma história anterior aos eventos do épico, abrindo a possibilidade de retorno não só de Crowe, mas de virtualmente todos os atores que os produtores julgassem pertinentes. Só que logo os roteiristas Douglas Wick, Walter Parkes, David Franzoni e John Logan abandonaram a ideia em troca de uma sequência convencional.

A nova história seguiria o filho de Maximus e se passaria 15 anos depois dos eventos retratados em "Gladiador" - ideia que chegou até a ser aprovada por Ridley Scott. Mas, enquanto o diretor teria questionado apenas como a trama (focada na guarda pretoriana, e não nos confrontos do Coliseu) poderia emprestar o mesmo título, Crowe não gostou nem um pouco de não ver o retorno de seu personagem àquela galinha dos ovos de ouro. Foi aí que recorreu a Cave.

Descartada a saga épica e metafórica pensada pelo músico, a terceira opção natimorta veio por meio da DreamWorks, que queria uma trama complexa sobre política e corrupção em Roma protagonizada, mais uma vez, pelo filho de Maximus - o que não agradou Ridley Scott dessa vez, fazendo-o congelar novamente o projeto.

Anos se passaram até que, em 2017, durante o festival South by Southwest, o próprio Scott resgatou o assunto falando que cortejava Russell Crowe para retornar a uma sequência. A Paramount confirmou o desenvolvimento do projeto só em 2018, e eis que aqui estamos, mais perto do que nunca de uma sequência questionável para um filme muito bem encerrado, quase duas décadas atrás.

Russell Crowe e o diretor Ridley Scott, no início dos anos 2000 - AFP Photo
Russell Crowe e o diretor Ridley Scott, no início dos anos 2000
Imagem: AFP Photo

E para onde vamos, afinal?

Depois de tanto tempo, Russell Crowe, aos 55 anos, não poderia estar mais distante do visual que ostentava quando imortalizou Maximus na tela grande. Aos 81, Ridley Scott já está longe de ser uma unanimidade na direção (como exemplificam "Alien: Covenant", "Êxodo", ou "O Conselheiro do Crime"). E o consciente coletivo da cultura pop parece bem distante de épicos de guerra saudosos a clássicos como "Ben-Hur" e "Spartacus".

Que espaço, portanto, teria a ocupar uma sequência para "Gladiador"? Talvez ela pudesse ser até interessante (o que não necessariamente significa boa) se fosse confirmado o retorno de Crowe e, para isso, usassem alguns elementos do roteiro insano de Nick Cave - mas ainda assim, não teríamos nada de novo na mesa.

A ideia do embate entre velhos e novos deuses é central à trama de "American Gods", celebrada na escrita de Neil Gaiman e levada à TV na série homônima. Conflitos entre cristãos e pagãos na Roma Antiga já foram abordados em "Rei Arthur" (e aquilo não deu certo). E até a ideia de um homem atravessando eras sempre lutando já foi às telonas, pasme, na abertura do horrível "X-Men Origens: Wolverine".

O próprio Crowe, aliás, narrou uma sequência que constrói a mesma metáfora pensada por Cave para "Gladiador 2". Nas cenas em que conta a criação do mundo, em "Noé", vemos a violência humana atravessar as mais diversas eras, sempre igual, representando uma prisão à humanidade

Seguir com o projeto sem Crowe também seria uma opção, mas qual a chance da retomada de um filme com quase 20 anos, já distante do imaginário dum público que hoje se encanta com o hiper-realismo de "Vingadores" e a nostalgia anabolizada de "Jurassic World", lucrar sem se apoiar em nostalgia? Apagar o que efetivamente ligaria esse novo filme do (já) clássico, ainda mais até que a presença de Scott no projeto, é algo quase inimaginável.

Se "Gladiador 2" beberá das ideias de Cave ou não, se terá Crowe ou não, se será um filme bom ou não, só saberemos com o tempo. O que dá para afirmarmos nesse momento, contudo, é que talvez Maximus e sua história estejam melhores enterrados.