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Tuca & Bertie é uma das melhores séries de 2019 que pouca gente viu

Tuca & Bertie - Divulgação
Tuca & Bertie Imagem: Divulgação

Eduardo Pereira

Do UOL, em São Paulo

15/06/2019 04h00

Uma série de TV sobre mulheres, feita por mulheres, mas que deve ser assistida por todos que amam boas histórias. Essa é a melhor definição para a comédia em animação Tuca & Bertie, prima feminista da aclamada BoJack Horseman, que estreou discretamente na Netflix neste ano - mas que faz por merecer muito mais atenção do que recebeu.

Num mundo povoado por animais antropomórficos, ela traz um retrato hilário, ocasionalmente nonsense, mas também profundo, do amadurecimento sob a perspectiva feminina. Tudo a partir da amizade entre uma tucana relaxada, Tuca, e uma ansiosa pardal, Bertie, e suas interações com o mundo na passagem da casa dos 20 para os 30 anos de idade.

Os temas flutuam entre carreira, amor fraternal, amor romântico, sexo, abuso, trauma, infância, família, machismo, elitismo e ainda mais, costurando um retrato tão humano da vida adulta da geração millennial de classe média que faz com que essas duas mulheres-pássaro pareçam não só reais, mas amigas de longa data de quem as assiste. Pois se isso não é o bastante para garantir o seu interesse, o UOL destaca mais alguns bons motivos para adicionar Tuca & Bertie à sua lista.

Animação inventiva (e frenética)

A magia da animação está em quebrar barreiras que, no live action, não seriam possíveis nem com a computação gráfica. É aquele tipo de liberdade criativa que separa, por exemplo, a energia frenética e imparável do gênio de Robin Williams no Aladdin original da versão mais contida de Will Smith no remake em carne e osso (e CGI).

Em Tuca & Bertie, essa abertura permite que os animadores recheiem cada quadro com trocadilhos visuais diferentes, ilustrem sentimentos das personagens com metáforas das mais lindas às mais devastadoras, e mergulhem no absurdo com a mesma velocidade que saem dele. Já no primeiro episódio, por exemplo, somos introduzidos à subtrama de um bolo senciente que vive na barriga do namorado de Bertie. É engraçado, é bizarro, mas é também uma metáfora divertida sobre luto e memória afetiva que, acredite, funciona.

Muito talento envolvido

Falando em animação, basta bater o olho no traço da série para enxergar que nesse angu tem algum caroço de BoJack Horseman - e é verdade. Ela é fruto da cartunista norte-americana Lisa Hanawalt, que trabalha como designer de produção na série do cavalo depressivo e carrega parte daquela identidade visual. Mas logo fica claro que Tuca & Bertie tem identidade própria, extrapolando os confins do universo animal já suficientemente ousado de BoJack para criar aqui algo ainda mais artístico e divertido (e que inclui pessoas-planta maconheiras e animais que servem apenas como meio de transporte).

Tudo isso funciona graças à experiência e sensibilidade narrativa de Hanawalt, que consegue jogar as excentricidades para o fundo de uma trama cara à realidade humana, tirando o melhor de um elenco estrelado escolhido a dedo. A expansiva e enérgica Tiffany Haddish é a Tuca perfeita, enquanto a discreta, mas ácida e nervosa, Ali Wong define Bertie. Não machuca que os coadjuvantes incluam nomes fortes como Steven Yeun (de The Walking Dead), o indicado ao Oscar Richard E. Grant, Laverne Cox (Orange is The New Black) e Jane Lynch (Glee), além de algumas surpreendentes participações especiais.

Leve, mas profunda

Uma das qualidades mais surpreendentes da série é como ela consegue partir da sátira de situações leves e cotidianas para comentários sociais relevantes sobre temas densos, só para então retomar um tom de escapismo que não deixa a peteca do espectador cair. Se maratonar BoJack Horseman pode se revelar um desafio para aqueles que têm certos problemas psicológicos, com gatilhos sendo deixados muitas vezes sem qualquer atenuação entre um episódio e outro, encarar todos os episódios de Tuca & Bertie de uma só vez é tarefa muito mais tranquila: a cada mordida, a animação oferece um carinhoso assopro. E um abraço.

Perspectiva ainda rara na TV

A chave para o sucesso nessas idas e vindas de tons emocionais tem nome: maturidade. Ao focar na relação entre duas mulheres já em seus 30 anos, Tuca & Bertie tece uma narrativa pouco destacada na indústria mainstream de entretenimento, já naturalmente carente de representação feminina. É uma série que faz por essa faixa etária o que Girls fez pelas jovens adultas de 20 e poucos anos; Gilmore Girls fez por adolescentes e suas mães; ou Grace and Frankie tem feito por mulheres mais velhas: dá a elas uma voz.

Assim, quando a história da série toma caminhos que o público espera que levem a grandes crises, ou dramas homéricos, ela naturalmente surpreende. Essas são mulheres que já passaram por esses momentos de vida - já viveram suas intensas adolescências, ou suas crises com a entrada na vida adulta - e, mais do que nunca, sabem o que querem (ou ao menos sabem o que não querem).

Não bastasse a animação com identidade própria, as personagens vívidas e cativantes, e o elenco excelente, Tuca & Bertie traz uma história que se propõe a explorar o novo, dando voz e espaço em uma mídia de massa a quem raramente tem suas experiências retratadas. É o tipo de projeto que equilibra interesses artísticos e comerciais na medida certa, e que merece (e muito) a sua atenção.

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