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Dead Fish diz que punk tem um lado e chama Bolsonaro de demagogo em novo álbum

Dead Fish conta com Rodrigo Lima (voz, centro), Marcos Melloni (bateria, esquerda) e Ric Mastria (guitarra e baixo) - Marcelo Marafante/Divulgação
Dead Fish conta com Rodrigo Lima (voz, centro), Marcos Melloni (bateria, esquerda) e Ric Mastria (guitarra e baixo) Imagem: Marcelo Marafante/Divulgação

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

31/05/2019 04h00

O Dead Fish deu a letra com o single "Sangue nas mãos" e agora amplia o recado com o lançamento de "Ponto Cego", que chega às plataformas digitais hoje, seu primeiro álbum desde "Vitória", de 2015. Em entrevista ao UOL, o vocalista Rodrigo Lima afirmou que sentiu urgência no cenário político e social do Brasil para fazer letras mais diretas e contestadoras, num momento em que o rock tem perdido o papel crítico de suas origens.

Estamos prontos para lutar (...) / Os dias de autoritarismo terão fim Letra de "Não Termina Assim".

"É um disco que tem uma urgência. Ele mostra o óbvio, mas da forma mais urgente possível. Ao nosso ver, as pessoas não estão dispostas a ouvir a realidade, elas querem viver a verdade delas. E começamos a trabalhar falando exatamente isso, que era necessário falar de forma direta. Estamos num momento que não dá para ter muitas subjetividades", explicou Rodrigo.

O single "Sangue nas Mãos" chamou a atenção por retomar temas como o impeachment de Dilma e a homenagem de Jair Bolsonaro ao coronel Brilhante Ustra, morto em 2015, acusado de tortura durante a ditadura militar: "Sim, foi golpe / Orquestrado / Por sorrisos velhos e apertos de mão / Rumo ao passado". "São letras mais urgentes do que nos últimos discos, é como se eu tivesse voltado a escrever como um garoto do ensino médio".

Sobre as letras combativas, Rodrigo explica que este não é o momento de transformar estas questões em temas subjetivos.

"A gente vive uma distopia. Por que abrir para um diálogo com alguém que não vai querer debater? Eu acho que você vai ficar chovendo no molhado. Não quer dizer que as pessoas não podem mudar de opinião. Mas é por isso que esses tempos de pós-verdade funcionam bem. Cada um tem suas máximas e quer ganhar seus likes. Nós temos uma postura desde que começamos. E preciso mostrar, dentro da minha postura, o que eu penso e o que vejo que está posto aí", disse o vocalista, de 46 anos.

Os recados são claros desde os nomes das canções às letras. "Janelas" fala sobre ambição, "Pobres Cachorros" versa sobre a liberdade limitada dos tempos atuais e "Messias" trata diretamente de Jair Messias Bolsonaro, chamado de demagogo:

Há 30 anos nesse jogo / Ele agora é a salvação / Sem diálogo, nem projetos / Dando graças ao ódio e ao medo. Letra de "Messias"

Apesar das letras duras e de muitas canções agressivas, com riffs certeiros de Ric e a bateria de Marcão preparando o terreno para as rodas de pogo, "Ponto Cego" também consegue ser muito melódico, com linhas grudentas de Rodrigo nos vocais. A ideia foi construir um disco agressivo nas letras, pegajoso nas melodias e amarrado como um todo em sua temática.

O punk tem lado?

"Acho que desde que nos assumimos como uma banda claramente da nossa escola de música, do punk, não dá pra fazer muito um 'veja bem'... A pós-verdade e os robôs estão alimentando certezas vazias", disse Rodrigo. O gênero, assim como o rock em geral, vem sendo acusado de ter se ficado muito conservador, na contramão das suas origens.

Marcelo Marafante/Divulgação
Imagem: Marcelo Marafante/Divulgação

O vocalista afirma que o rock "envelheceu mal". Apesar de citar exemplos de grupos que ainda são contestadores, como Ação Direta e Surra, Rodrigo crê que o lado contestador do rock foi sumindo, mas, por outro lado, vê sentido no que aconteceu.

"Tenho amigos do punk operário de São Paulo que dizem que o que houve sempre foi um discurso de garotos brancos de de classe média, com a visão deles da sociedade. Agora as coisas estão mais claras nesse discurso", afirmou ele.

Para Rodrigo, a molecada de outro gênero conquistou esse espaço. "O rock perdeu espaço de contestação para a molecada do rap, porque eles vêm com uma carga de conhecimento e um senso de classe que o rock brasileiro não tem, mesmo que ainda haja várias bandas produzindo coisa boa hoje."

"Dead Kennedys deu brecha"

Uma das polêmicas recentes que rendeu muito debate foi com o Dead Kennedys, que em sua formação atual, sem o vocalista Jello Biafra, tinha show marcado neste ano no Brasil. No entanto, uma arte da turnê brasileira causou polêmica, por trazer uma caricatura da classe média brasileira armada, usando camisa da seleção brasileira, fantasiada de palhaços enquanto uma favela pega fogo e tanques de guerra dominam as ruas, sendo pilotados pelo palhaço Bozo.

Camisa da seleção, nariz de palhaço e armas: o pôster da turnê do Dead Kennedys - Divulgação
Camisa da seleção, nariz de palhaço e armas: o pôster da turnê do Dead Kennedys
Imagem: Divulgação

"Eu conheço o Dead Kennedys desde que tenho 12 anos. Acho que eles deram uma brecha monstro. Na verdade, deram brecha desde que o Jello saiu", riu Rodrigo. "O cartaz do show é magistral, eu compartilhei e difundi. Mostra um recorte de realidade, mas com cores mais bem-humoradas."

Para Rodrigo, houve um problema na forma de lidar dos norte-americanos. "Eles não estão no Brasil, mas erraram. Eles não sabem o que estão acontecendo, eles têm a distopia deles para lidar, mas poderiam ter sido um pouco mais espertos e informados e feito algo um pouco melhor", comentou o vocalista.

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