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Game of Thrones


"Game of Thrones" perdeu a mão em sua última temporada?

Jon Snow e Daenerys Targaryen em cena de "Game of Thrones" - Divulgação
Jon Snow e Daenerys Targaryen em cena de "Game of Thrones"
Imagem: Divulgação

Beatriz Amendola

Do UOL, em São Paulo

10/05/2019 15h39

ATENÇÃO: O texto abaixo contém spoilers de "Game of Thrones". Não leia se não quiser saber o que acontece.

A apenas dois episódios de terminar de vez, "Game of Thrones" viu a grande expectativa construída ao longo dos dois anos de hiato se transformar em outra coisa: fúria. Nas redes sociais e em fóruns da web, os fãs têm expressado com todas as letras o descontentamento com o rumo que a série da HBO tomou -- e as críticas só cresceram após a exibição de "The Last of the Starks", o capítulo que foi ao ar no último domingo. Teria "Game of Thrones" perdido a mão na sua despedida, seguindo a maldição de produções como "Lost" e "Dexter"?

É complicado cravar uma conclusão sem o desfecho da saga, sob o risco de os próximos dois episódios de cerca de 1h20 cada me obrigarem a pagar a língua. Mas uma coisa é certa: a qualidade dos roteiros dos criadores David Benioff e D.B. Weiss caiu consideravelmente nas duas últimas temporadas, ainda que continue num patamar bem superior ao da concorrência.

Para quem acompanha a série desde o início, a diferença é nítida. Nas primeiras temporadas, as reviravoltas eram sutilmente construídas ao longo de várias cenas que, a princípio, pareceriam de menor importância; por isso, eram surpreendentes, mas nunca gratuitas. A decapitação de Ned Stark é o melhor exemplo disso: "Thrones" nos deu vários indícios de que ele não poderia ter outro fim que não fosse trágico, mas nos recusamos a vê-los por ele ser, àquela altura, o herói da atração.

Algo semelhante se aplicava aos diálogos e às personalidades dos personagens da série. Eles eram tecidos com cuidado, revelando as nuances de cada uma das figuras da tela. Todos os que estavam no time dos "heróis" tinham falhas, e nem Jon Snow era um mocinho típico logo de início. Mesmo figuras vilanescas como Cersei e Jaime ganharam profundidade, fazendo com que você compreendesse perfeitamente os motivos de ambos - ainda que não concordasse com eles.

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Esse tear elaborado perdeu espaço nas duas últimas temporadas da série. Alguns culpam a falta de lastro nos livros de George R. R. Martin - afinal, a série já ultrapassou, e muito, a história na qual se baseou, e "The Winds of Winter", a sexta parte das "Crônicas de Gelo e Fogo", ainda não tem data para chegar às livrarias. Talvez mais determinante do que isso, porém, seja a duração reduzida das temporadas: a sétima e a oitava tiveram, respectivamente, sete e seis episódios, contra dez das anteriores.

Correndo contra o tempo para encerrar "Game of Thrones", Benioff e Weiss abriram mão da trama intrincada que tornou a série uma queridinha dos críticos em prol de sequências de ação que, apesar de serem tecnicamente bem-feitas, não fazem sentido quando analisadas com calma do ponto dramatúrgico. Alguém realmente acreditou que a missão de Jon e seu esquadrão suicida além da muralha seria suficiente para convencer Cersei a lutar contra os White Walkers? Ou que Daenerys não viu, do alto, os navios de Euron Greyjoy, que mataria seu segundo dragão, Rhaegal?

Os próprios personagens parecem ter se tornado apenas sombras do que foram, sendo Jon Snow e Daenerys os mais afetados: o primeiro pouco fez nesta temporada além de jurar amor eterno à Mãe dos Dragões, que por sua vez parece estar sendo empurrada às pressas ao posto de "rainha louca". Jaime, que havia ganhado ótimos momentos no segundo episódio, "A Knight of the Seven Kingdoms", também foi vítima da correria. Sua decisão de deixar Brienne para ir até Cersei faz sentido dentro da história, mas foi tratada de forma desleixada pelo roteiro.

(O desleixo e a pressa, aliás, fizeram, outra vítima no quarto episódio: um copo de café foi esquecido em cena, um erro impensável para uma série dessa magnitude.)

Isso não significa que tudo esteja perdido: a decisão de colocar Arya como a assassina do Rei da Noite, goste ou não, foi trabalhada com o mesmo cuidado dedicado a outras reviravoltas da série, e fugiu da solução simplista que seria colocar Jon como o grande herói da Batalha de Winterfell. Benioff e Weiss também têm se saído bem com as intrigas políticas, que sempre estiveram entre os pontos altos da série.

Agora, para os episódios finais, a questão não é tanto se "Game of Thrones" perdeu a mão, mas se ela conseguirá retomar seu rumo e fazer jus ao seu próprio histórico.

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