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Nervosa, o trio brasileiro de mulheres que já espantou astros do metal

Renan Facciolo/Divulgação
Trio de thrash metal Nervosa conta com Luana, Prika e Fernanda (da esquerda para a direita) Imagem: Renan Facciolo/Divulgação

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

22/04/2018 04h00

Destilando seu thrash/death metal com vocais gritados, riffs pesados e bateria a milhão, a banda Nervosa vai lançar, em junho, seu terceiro disco, e tem feito gente de renome ficar de queixo caído com seu som e presença de palco -- quase sempre positivamente.

A história da Nervosa não é tão recente, mas o crescimento foi rápido. Em 2011, a baixista Fernanda Lira procurava uma guitarrista, enquanto a guitarrista Prika Amaral estava atrás de uma baixista. Deu certo, e Fernanda ainda assumiu o papel de vocalista, aprendendo a gritar como os ídolos do thrash metal. Após algumas mudanças de formação, elas estão com Luana Dametto nas baterias e o álbum "Downfall of Mankind" só aguardando para ser lançado, em 1º de junho. O single “Never Forget, Never Repeat” já está disponível nas plataformas de streaming como aperitivo.

Reprodução/Facebook
Fernanda Lira em ação com a Nervosa Imagem: Reprodução/Facebook

Todo este trabalho tem dado frutos, como as parcerias colhidas nas andanças pela América Latina, Estados Unidos e Europa. Em 2016 fizeram 160 shows e em 2017, 130. Abriram para bandas como Destruction, lenda do thrash metal alemão, para os veteranos do death metal Suffocation e aparecem em festivais como o Brutal Assault e o vindouro Hell & Heaven, em maio, no México.

No Brutal Assault, Fernanda cutucou as parceiras ao ver Mille  Petrozza, líder do Kreator -- banda alemã de thrash -- comendo. “Fomos tietar. A gente ficou tremendo e quando chegamos pra falar com ele, ele já falou: ‘Ah, eu sei, vocês são da Nervosa, né?’. Comecei a chorar na frente dele”, conta a vocalista ao UOL.

“Quando tinha 15 anos, vinham amigos em casa e a gente fazia mosh pit ouvindo bandas como o Destruction. Hoje abrimos shows deles. Não imaginava que o Schmier (baixista e vocalista) seria não só como um padrinho, mas um grande amigo. Já o Tom Warrior, do Celtic Frost, citou a gente em uma lista de melhores do ano e depois mandou um e-mail falando que era fã. Isso é uma realização pessoal. Não falo com arrogância, mas no sentido de que o coraçãozinho headbanger bate mais forte”, brinca ela.

Polêmica com o Venom

Mas nem todas as reações são positivas. Um caso ficou famoso em 2017, quando a Nervosa abriu para o Venom, no Chile. A banda, liderada pelo vocalista e baixista Cronos, foi uma das pioneiras em levar o metal para um lado mais extremo. Mas o encontro não foi dos melhores. O show da Nervosa foi abreviado em três músicas, quando o promotor dos ingleses foi ao palco anunciar às brasileiras que a música que tocavam seria a última, sem chance de despedidas.

Fãs e o post de uma roadie da banda sugeriram um ataque de estrelismo de Cronos, que teria se espantado (positivamente) com o desempenho delas. Fernanda é mais cuidadosa e acredita que tudo não passou de um mal-entendido.

“As pessoas acabaram tomando lados, sendo que nem a gente sabe o que aconteceu. Não queremos as pessoas tacando pedra por motivo injusto. O que aconteceu: foi falado um horário pra gente. E estava dentro do horário, sabemos quanto tempo de show tinha pra fazer. Mas o cara chegou e cortou: ‘essa foi a ultima’. O que é frustrante é não ter uma despedida, um encerramento. Não entendemos nada. Mas acho que foi um problema de comunicação com os horários. Isso de 'ferrar com as minas brasileiras', eu acho que não rolou”, explica ela.

Por outro lado, Fernanda já sentiu gestos mais sutis de que músicos que não curtiram o sucesso do trio. “Acho que não pelo fato de ser mulher, mas de tocar junto e a galera ter se empolgado mais com a gente. A gente já sentiu diferença (no tratamento) da pessoa. Isso já aconteceu, sim.”

Exemplo para as minas

Além do sucesso por si, a Nervosa é uma banda que abre espaço para que a mulherada veja que tem espaço no metal. Mesmo com diversos exemplos de mulheres de sucesso, como Doro Pesch, Tarja Turunen e a banda Girlschool, bandas formadas apenas por mulheres e um protagonismo maior delas ainda está em crescimento.

“A sociedade é machistona mesmo e no Brasil é mais foda ainda. Está enraizado, às vezes as pessoas nem notam. No começo foi bem punk, a gente lia comentários de tudo quanto é jeito, de gente falando que só conseguíamos show por mandar foto pelada para produtor, ou que tinha uma banda tocando atrás da gente nos shows”, relata Fernanda.

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“No show, um ou outro cara ainda vem tirar foto e tenta tocar no peito e na bunda. Tem uns loucos, mas são poucos. Com o tempo, a galera foi entendendo que somos só umas metaleiras doidas, querendo viver o sonho. Hoje vejo outras bandas de minas; claro que todas sofrem, mas vai ficando mais fácil. A gente foi tomando esses socos, carregou isso pra abrir espaço para quem vem", diz ela, hoje com 28 anos.

Fernanda sabe que ser um trio de mulheres ainda é um bom marketing, mas aposta num processo em que fique mais natural vê-las em ação.

“O lance do empoderamento e da identificação, muitos caras não entendem como é legal ver uma mulher no palco, como uma mulher vê. Ver a Doro, Tarja, Girschool, eu sei como aquilo era legal, inspirador. Sempre tem muita mulher no nosso show, muitas vezes vem menina falar que é influenciada e começou a banda por nossa causa. É importante elas verem e se identificarem”.

Nova formação e novo álbum

Depois de uma estreia mais crua com “Victim of Yourself” (2014) e um segundo disco mais variado com “Agony” (2016), o novo álbum, “Downfall of Mankind” promete solidificar a identidade da Nervosa como uma banda ainda de thrash metal, mas ainda mais agressiva, já que a baterista Luana tem uma bagagem do death metal.

“Acho que este disco é onde nos encontramos. A gente sabia que ia pender para o death e a gente quer essa agressividade mesmo. Queremos subir no palco e dar soco na cara de todo mundo (risos). No bom sentido”, diz Fernanda. E o single "Never Forget, Never Repeat" mostra isso.

A banda agora prepara o lançamento de um clipe para maio e, depois do álbum, shows no Brasil, América Latina e Europa. "Este ano demos uma diminuída no ritmo, porque estava muito pesado e por causa do novo álbum. Mas sabemos que 2019, depois que a galera digerir o álbum, vamos voltar para aquela loucura".

Se depender do fã que tatuou as três "nervosas" -- veja abaixo --, o thrash metal das brasileiras não vai silenciar tão cedo.

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