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Banda mais desbocada do metal provoca homofóbicos e até veganos em novo disco

Fabiano Soares/Divulgação
A banda Gangrena Gasosa lançou mais um álbum do seu "saravá metal" em 2018 Imagem: Fabiano Soares/Divulgação

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

27/03/2018 04h00

Com 28 anos de uma história cheia de polêmicas, bizarrices e som pesado, a banda carioca Gangrena Gasosa ainda não perdeu sua acidez e sua tendência a provocar quem quer que seja em suas letras. Recentemente, o primeiro - e, talvez, único - grupo de saravá metal lançou seu 4º álbum, “Gente Ruim só Manda Lembrança pra Quem Não Presta”, usando seu humor desbocado para fazer críticas, algumas sobre assuntos bem sérios.

Se em outras ocasiões houve críticas, por exemplo, a igreja e religiões, desta vez a Gangrena aproveitou o radicalismo nos debates nacionais para se posicionar contra homofóbicos, racistas e sobrou até para os vegetarianos mais ferrenhos. Tudo dentro da temática com elementos do candomblé e da umbanda e com sua sonoridade que combina guitarras pesadas, vocais guturais e percussão tipicamente brasileira.

Questionado sobre quem acha que vai ficar mais “ofendido” com o álbum, o vocalista Angelo Arede, que se apresenta como Zé Pelintra nos palcos, foi direto: “Acho que principalmente o pessoal vegano (risos). Mas, olha, o Renzo (baterista) é vegetariano, então a gente tem um na banda”, brincou Angelo. “Todo mundo tem que ter o direito de comer as paradinhas que quer. Deixas as pessoas! Eu não encho o saco de nenhum vegano pra falar que ele tem que comer proteína, então não meta a mão na minha carne (risos).”

Fabiano Soares/Divulgação
Imagem: Fabiano Soares/Divulgação

A música em questão é “Carnossauro Diet”, e clama: “Eu diria sinto muito / Se por acaso lamentasse / Mas não troco meu churrasco / Por um monte de alface”.

Mas Angelo é bem mais sério na hora de falar de outros assuntos. E diz que o humor e as mensagens diretas da banda também são um filtro para que os fãs que a Gangrena não quer se afastem, como na faixa “Fiscal de Cu”. “Essa é para os os homofóbicos. Esses eu não quero que gostem da Gangrena não, quero que se f...”.

Na verdade, "Fiscal de Cu" serve de resposta a um momento em que a própria banda foi longe demais com suas piadas. No disco anterior, "Se Deus É 10, Satanás é 666", a faixa "Emboiolada" fazia piada com gays. "Eu não escondo isso. Pensei por muito tempo em tirar essas músicas das plataformas, mas não se muda o passado. Só veio cair a ficha com a popularização maciça da internet e redes sociais. Quando a gente vê na internet gente morrendo por ser gay, a consciência aperta. Que fique de símbolo de que se pode melhorar. Antes eu achava que esse tipo de piada era liberdade de expressão. Não é", disse Angelo.

Na mesma linha vai a faixa título, “Gente Ruim só Manda Lembrança pra Quem Não Presta”. “Todo mundo conhece aquele safado, muquirana, ou aquele racista, aquele facista...Sempre teve no mundo. Mas hoje em dia, eles estão de parabéns”, diz Angelo, irônico.

“Nós somos uma banda que foca no humor, e acho que a maior forma de transgressão é o humor. Ficar calado, perante a um monte de coisa que está acontecendo no país todo é omissão ou mau-caratismo”, acrescenta o vocalista, que canta sobre temes mais leves em músicas como “Saci”, “Trabalho para 20 Comer” ou a ode à comunidade metaleira em “Farda Preta de Caveira”.

Veja o clipe de "Terno do Zé", composta para o curta-metragem "O Terno do Zé":

O fã que virou vocalista

Com muitas mudanças na formação durante toda a carreira, a Gangrena Gasosa já não conta com ninguém da formação original. A principal novidade está no segundo vocalista - que vai ao palco trajado de Omulu. Agora é Eder Santana quem assumiu o posto.

O curioso é que a seleção foi online. A banda pediu para quem quisesse se candidatar à vaga mandasse vídeos. E assim Eder foi de um vocalista de bandas de menor expressão ao estúdio para dar voz às músicas já prontas para o novo álbum.

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“Eu sempre fui fã e um amigo meu me marcou numa postagem procurando vocalista. Fui chamado pra fazer o teste no estúdio. Foi correria pegar as músicas, as dinâmicas e etc, mas o Angelo me deu a maior força e com o apoio de todo mundo fluiu super bem”, contou Eder. "Ele já veio pronto e assimilou rápido. Foi impressionante”, adicionou Angelo.

Uma curiosidade é que boa parte do álbum foi gravada ao vivo, com todos tocando ao mesmo tempo. Algumas dobras de voz e percussão foram acrescentadas depois. Percussão, por sinal, é o diferencial e uma das prioridades na banda, a cargo de Gê Gaizeu, a Pomba Gira da banda.

“A gente tem um cuidado muito especial e dessa vez ficou do jeito que a gente queria. Os arranjos já foram pensados em ritmos percussivos, em maculelê, jongo, samba de coco. E as divisões de letra eu tive como maior inspiração - eu sei que pode não parecer (risos) - gente como Alceu Valença e Bezerra da Silva”, comentou Ângelo.

Maldições e despachos

Duas coisas não mudaram na banda: 1) Eles seguirão levando despachos para o palco e darão banhos de farofa, pipoca ou o que mais encontrarem nos fãs. 2) As maldições misteriosas que cercam a banda não sumiram.

Fabiano Soares/Divulgação
Imagem: Fabiano Soares/Divulgação

A Gangrena sempre conta causos espantosos - o documentário “Desagradável” (2013) reúne alguns - como quando o ex-vocalista Paulão apanhou de simpatizantes da macumba que acharam um folheto da Gangrena Gasosa em seu bolso. Desta vez, foi algo mais tranquilo: em um dos dias de gravação no estúdio Disensso, em São Paulo, o sistema sofreu um apagão.

“Se não acontecer nada, não é a Gangrena. Um dia, a interface inteira deu pau. Simplesmente parou”, ri Angelo. No fim, eles ganharam um dia a mais no estúdio, no que eles consideram a melhor estrutura de gravação que já tiveram em um disco da banda.

A Gangrena Gasosa está promovendo o novo disco pelo país e tem shows no dia 31 de março em São Paulo (no Centro Cultural São Paulo), dia 6 de abril em Manaus (no Clube do Asa), 7 de abril em Belém (no Insano Marina Club) e 4 de maio no Rio (no Circo Voador), sendo este último ao lado dos Raimundos.