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Ano de 2014 foi marcado pela morte de grandes nomes da literatura

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

23/12/2014 05h03

O ano de 2014 foi bastante triste para a literatura, que perdeu de alguns de seus grandes nomes. Da cena internacional, partiram célebres autores como a sul-africana Nadine Gordimer, a alemã Stefanie Zweig e o colombiano Gabriel García Márquez. Já no Brasil, foi especialmente trágico o mês de julho, quando perdemos Ivan Junqueira, Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves. Antes, em janeiro, Donizete Galvão já havia partido, depois, em novembro, foi a vez de Manoel de Barros.

Manoel de Barros, um dos nomes mais importantes da poesia brasileira contemporânea, morreu aos 97 anos em decorrência de falência múltipla de órgãos. Vencedor de inúmeros prêmios, dentre eles dois Jabutis (por “O Guardador de Águas”, em 1989, e “O Fazedor de Amanhecer”, de 2001), escrevia se aproximando da oralidade e gostava de trabalhar com elementos da natureza e do cotidiano. Em determinado momento, chegou a ser indicado por Carlos Drummond de Andrade como o maior poeta em atividade no país  –também foi um dos que mais vendeu livros, sendo publicado em Portugal, na França, na Espanha e nos Estados Unidos. Apesar de apontar “Poemas Concebidos sem Pecado”, seu primeiro livro, de 1937, como o preferido, a obra de maior sucesso foi “O Livro Sobre o Nada”, de 1996.

Esvaziando a ABL

Outro finado autor brasileiro publicado no exterior foi João Ubaldo Ribeiro, cuja obra foi traduzida mais de dez línguas. “Viva o Povo Brasileiro”, um de seus principais livros, de 1984, teve a versão em inglês da história, contada ao longo de quatro séculos do país, feita pelo próprio escritor. Outros trabalhos de destaque foram “A Casa dos Budas Ditosos”, romance carregado de erotismo, e “Sargento Getúlio”, de 1971, seu segundo livro, que lhe valeu comparações com nomes como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Honrado em 2008 com o Prêmio Camões, um dos mais importantes da língua portuguesa, morreu aos 73 anos vítima de uma embolia pulmonar.

Ubaldo era membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), bem como Ivan Junqueira, seu colega que morreu aos 79 anos, de insuficiência renal. Autor de livros consagrados, como “A Sagração dos Ossos”, de 1994, e “O Outro Lado”, de 2007, ambos de poesia, Junqueira também atuava como jornalista, crítico literário e tradutor (verteu para o português livros de T. S. Eliot, poeta que ganhou o Nobel de Literatura de 1948). Chegou a presidir a ABL entre 2004 e 2005 e teve seu trabalho transformado em documentário por André Andries, que filmou “Ivan Junqueira, Apenas um Poeta”, de 2012.

A terceira cadeira da ABL que se vagou em julho foi a de Ariano Suassuna, morto aos 87 anos por uma parada cardíaca. Autor de “O Auto da Comparecida”, um dos textos mais famosos do teatro brasileiro, também adaptado para o cinema e para a televisão, misturava elementos do modernismo, do simbolismo e do barroco com os traços caros à cultura do Nordeste  –batalhava para que as características das regiões do país não fossem suplantadas pelo que vem do exterior. Outros trabalhos de destaque foram a peça “A Pena e a Lei” e os romances “A História do Amor de Fernando e Isaura”, “História do Rei Degolado nas Caatingas do Sertão: ao Sol da Onça Caetana” e “Romance da Pedra do Reino”. Chegou a ser indicado pela Comissão de Relações Exteriores do Senado ao Prêmio Nobel de Literatura, em 2012.

Rubem Alves e Donizete Galvão

Como Manoel de Barros, Rubem Alves, aos 80 anos, também sofreu uma falência múltipla dos órgãos. Com a trajetória completamente influenciada pelo pensamento religioso, foi um dos principais mentores da Teologia da Libertação, que questiona diversas posições da Igreja Católica. Além de escritor, psicanalista, teólogo e educador, era um dos maiores pensadores da educação no país. Dentre seus mais de cem livros publicados, nos quais procurava tratar de temas complexos da filosofia de maneira simples, alguns dos sucessos foram “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, “A Pipa e a Flor”, “A Menina e o Pássaro Encantado” e “A Volta do Pássaro Encantado”, sendo esses três últimos infantis.

Bem mais novo que seus pares, Donizete Galvão morreu aos 58 anos, após um infarto. Bastante influenciado por Drummond, costumava misturar elementos do campo e do homem da cidade grande em seus escritos. Seu “Azul Navalha”, de 1988, lhe rendeu o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte, já “O Homem Inacabado”, de 2010, o levou à final do Prêmio Portugal Telecom.

No exterior

No cenário internacional, as perdas da judia alemã Stefanie Zweig, aos 81 anos, e da sul-africana Nadine Gordimer, aos 90, foram sentidas especialmente pela maneira com que ambas transformaram grandes dramas humanos em arte. No caso da primeira, as consequências do holocausto, já que sua família precisou se mudar para o Quênia para fugir dos nazistas. Já a segunda abordou o apartheid, contra o qual lutou em sua vida. O livro de maior sucesso de Stefanie, “Nowhere in Africa” foi adaptado para o cinema com o filme alemão “Lugar Nenhum na África”, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2003. Já de Nadine, Nobel de Literatura de 1991, destaca-se “A Filha de Burger”.

Por fim, todos choraram a morte do colombiano Gabriel García Márquez, que em 17 de abril não resistiu a uma pneumonia e uma infecção respiratória, quando estava internado em um hospital da Cidade do México. Gabo, como era conhecido, foi um dos escritores mais importantes do século 20 e um dos autores mais renomados da história da América Latina, sendo um dos exponentes do realismo fantástico. Dentre seus diversos sucessos, o maior deles é “Cem Anos de Solidão”, de 1967, que já vendeu mais de 50 milhões de exemplares no mundo e foi fundamental para que ele recebesse o Nobel de Literatura de 1982. Também merecem menção títulos como “Crônica de uma Morte Anunciada”, “O Amor Nos Tempos de Cólera” e “Memórias de Minhas Putas Tristes”.

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