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Imprensa, governo e até Eike Batista são alvos de críticas em mesa da Flip sobre protestos

Mirella Nascimento

Do UOL, em Paraty (RJ)

04/07/2013 23h32

A primeira mesa dedicada exclusivamente às manifestações e ao momento político do país na 11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) reuniu personalidades envolvidas em promover formas alternativas de narrar o que está acontecendo nas ruas. O evento virou palco de críticas ao governo, à imprensa, aos empresários e à polícia na noite desta quinta-feira (4).

Pablo Capilé, coordenador da rede Fora do Eixo e do coletivo de jornalistas NINJA, foi o primeiro a falar na mesa "Narrar a rua" e destacou a importância de uma cobertura feita "de dentro" do movimento. "Se você não está dentro, não consegue perceber o que está acontecendo. A imprensa passa por uma crise de intermediário pela qual a música passou há dez, quinze anos", disse.

O coletivo NINJA faz transmissões das manifestações ao vivo pela internet, com grande volume de compartilhamentos nas redes sociais. "Conseguimos ter 180 mil acessos em uma madrugada em São Paulo, o equivalente a 1,1 ponto no Ibope", afirmou Capilé.

Com o discurso mais contundente da mesa, foi várias vezes aplaudido pela plateia, especialmente ao criticar a presidente Dilma por "não estar entendendo o que está acontecendo", e a cobertura da imprensa. "Caiu um monte de ficha no chão e está todo mundo catando. Ficar em cima do muro não é uma opção. O Brasil tem o papel fundamental de apresentar uma nova estética de fazer política no século 21", disse.

Imprensa "caduca"
Capilé classificou o posicionamento da imprensa como "esquizofrênico" diante das manifestações, por ter mudado o enfoque da cobertura dos protestos, e a chamou de "caduca". "Ela não se recupera mais. E [a postura da imprensa] não é nem mais uma agenda conservadora, é a certeza da derrota e a aceitação da derrota."

Marcus Vinicius Faustini, que está preparando um filme cuja história se desenvolve dentro das passeatas, criticou a ex-ministra da Cultura Ana de Hollanda, por "abandonar a agenda social", o governo, por apoiar grandes empresários como Eike Batista, e a polícia, além da forma como a imprensa trata esses assuntos. "Um assunto que não foi tratado aqui e que pouco apareceu na imprensa é o despreparo da polícia. A polícia não está preparada para a democracia, não está preparada para agir nas manifestações e mata na favela", disse Faustini, sob aplausos da plateia.

O documentarista disse ainda não temer que as manifestações sejam apropriadas por uma pauta conservadora. "Só está com medo quem quer dizer como deve ser. Eu não tenho medo não, acho que esse jogo vai ser bom. Acho que, nesses últimos 30 dias, envelhecemos. A gente tem uma quantidade de entradas e saídas para entender o que está acontecendo. A gente precisa ter mais repertório".

Ao final da mesa, tentou resumir sua crítica: "Não é uma crítica ao jornalista, mas uma forma de se fazer jornalismo no Brasil. Não é uma crítica só aos políticos, mas uma crítica ao capital. Queremos que os políticos sejam políticos, não apenas mediadores do capital".

Defesa do jornalismo
O contraponto do debate era o espanhol Juan Arias, correspondente do jornal "El Pais", que defendeu uma "simbiose" entre a grande imprensa e as vozes alternativas que surgem nas redes sociais.

"O grande jornalismo hoje está nas redes sociais. Acho que tem que conciliar os dois jornalismos. O clássico, que tem a obrigação de confrontar as fontes, comprovar se é verdade. O jornalismo mais capilar é mais livre, mas também é mais perigoso. A grande imprensa precisa sim se renovar para continuar fazendo essa mediação das informações, que ainda é seu papel", opinou o espanhol.

Arias disse ainda que o movimento das ruas começou a ser forte e ter visibilidade quando o jornalismo clássico pegou o que saiu nas redes sociais e tornou notícia. O espanhol declarou estar "orgulhoso que o Brasil agora está fazendo perguntas ao poder", pedindo por melhorias na qualidade de vida. "O movimento, para mim, já ganhou. É uma catarse coletiva do Brasil, que pode virar exemplo para toda América Latina", apostou o jornalista.

Também participou da mesa o poeta Fabiano Calixto, que organizou uma antologia de poesia sobre as manifestações. A ideia era reunir diferentes expressões artísticas saídas do movimento. Depois de analisar mais de 170 trabalhos, saiu "Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos".

"O mais importante dessa antologia foi a solidariedade. Eu pensei principalmente na força do grito mesmo. O poético importa, mas não é o mais importante neste momento".

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