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'Spotlight': mostramos o que o filme mudou no caso dos padres pedófilos

Cena do filme "Spotlight" - Divulgação/Arte UOL
Cena do filme "Spotlight" Imagem: Divulgação/Arte UOL

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

04/05/2020 04h00

Vencedor de dois Oscars em 2016, de melhor filme e melhor roteiro original, "Spotlight - Segredos Revelados" lança luz sobre um dos episódios mais nebulosos da Igreja Católica: o escândalo de pedofilia que envolveu padres da arquidiocese de Boston, revelado pelo jornal americano "The Boston Globe".

Os crimes mostrados na história, que é um dos destaques do UOL Play, nova plataforma de streaming do UOL, foram acobertados por anos pela instituição e aconteceram em várias partes do mundo —Brasil incluído—, rendendo aos jornalistas o prestígio do prêmio Pulitzer, o mais importante do meio.

Mas "Spotlight" é 100% fiel aos fatos? Como é praxe em Hollywood, tenha certeza que não. Segundo o site "Information is Beautiful", o filme tem várias "licenças criativas" e é 76% preciso na comparação com os eventos da vida real. E nós podemos provar.

Veja a seguir um raio-X do longa, em mais um capítulo da série "Real vs. Ficção".

O padre Ronald Paquin realmente admitiu ter abusado de crianças?

Sim. Mas não aconteceu exatamente como retratado no filme, em que ele admite os abusos conversando corriqueiramente na porta de casa com a repórter Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams).

O padre Ronald Paquin, que foi preso após confessar crime, e o ator Richard O'Rourke, que o interpreta em "Spotlight" - Reprodução/Monagem - Reprodução/Monagem
O padre Ronald Paquin, que foi preso após confessar crime, e o ator Richard O'Rourke, que o interpreta em "Spotlight"
Imagem: Reprodução/Monagem

Foi Sacha quem obteve a confissão do padre, como é mostrado no filme?

Não. A confissão foi arrancada aos poucos, em entrevistas conduzidas durante meses por ela, que escreveu a reportagem em questão, e seu colega Steve Kurkjian (Gene Amoroso), que ouviu a confissão. Paquin admitiu ter abusado sexualmente de garotos até 1989. No ano seguinte, foi afastado pela diocese de Boston.

Ele foi entrevistado antes de o Boston Globe revelar o escândalo?

Não. Por ter confessado os crimes, Paquin é um dos principais personagens do escândalo. Mas ele só foi ouvido depois da publicação da primeira reportagem do "Boston Globe".

É verdade que a avó de Sacha era uma católica devota e a influência familiar a perturbou emocionalmente durante as investigações?

Sim. O filme é realmente preciso nesse ponto. Segundo a própria jornalista, sua avó tinha o hábito de carregar um rosário e, apesar da revelação dos casos de pedofilia, continuou frequentando a Igreja até o fim da vida.

Anos antes, o advogado Eric MacLeish realmente enviou ao editor Walter Robinson (Michael Keaton) uma lista de padres pedófilos, e ele não investigou o caso?

Sim. Isso aconteceu em 1993, nove anos antes da série de reportagens do "Boston Globe". Mas o filme fantasia em um ponto específico: o time de repórteres não sabia disso durante a investigação. A existência da lista foi descoberta pelos roteiristas e produtores do filme ao entrevistar MacLeish e Robinson, e eles decidiram incluir o fato no filme.

É verdade que muitas vítimas dos padres entraram em contato com o jornal após a publicação das reportagens?

Sim. O "Boston Globe" entrevistou de 30 a 40 vítimas durante a apuração. Quando as reportagens passaram e ser publicadas, no início de 2002, o jornal começou a receber dezenas de ligações e mensagens de pessoas que nunca tiveram coragem de relatar os abusos. Em sua grande maioria, eram homens, que tinham medo e vergonha.

O repórter Michael Rezendes (Mark Ruffalo) subornou um funcionário de um tribunal de Justiça oferecendo US$ 83 para levar documentos públicos para casa?

Não. O jornalista não foi até o tribunal para obter documentos usados na investigação e não subornou ninguém. Na verdade, ele recebeu os papéis por correio, legalmente, por intermédio de um dos advogados do "Boston Globe".

O ator Mark Ruffalo posa com o repórter Michael Rezendes - Divulgação - Divulgação
O ator Mark Ruffalo posa com o repórter Michael Rezendes
Imagem: Divulgação

É verdade que um representante da Igreja encontrou com Robinson em um bar e tentou impedi-lo de publicar as reportagens?

Não. A cena é fictícia. O personagem em questão, Peter Conley, foi criado pelos roteiristas para simbolizar o esforço da Igreja em tentar acobertar os casos, o que de fato ocorreu.

A Igreja católica era tão poderosa em Boston como o filme mostra?

Sim. Apesar de o protestantismo ser a doutrina religiosa mais seguida nos Estados Unidos, em Boston, o catolicismo domina. E, segundo o jornalista Walter Robinson, a Igreja tinha amplo poder político na época e costumava pressionar e dificultar o trabalho da imprensa em casos que contrariavam seus interesses.

É verdade que Matt Carroll morava perto de um centro de tratamento de padres acusados?

Não. Na verdade, o repórter interpretado pelo ator Brian d'Arcy James vivia na mesma rua do padre John Geoghan, cujo caso desencadeou as investigações. Quem morava perto do centro citado no filme, montado em uma casa do subúrbio, era o editor Walter Robinson.

O jornalista Matt Carroll e seu intérprete no cinema, o ator Brian d'Arcy James - Reprodução/Montagem - Reprodução/Montagem
Imagem: Reprodução/Montagem

É verdade que a investigação chegou até o Brasil?

Sim. Assim como apontam os créditos de "Spotlight", as cidades de Franca (SP), Arapiraca (AL), Mariana (MG) e Rio tiveram casos confirmados de abusos cometidos por padres da Igreja Católica. Investigações geraram condenações, prisões, pedidos de perdão e até morte de um sacerdote.

A maior condenação foi a do padre José Afonso Dé, de 82 anos, de Franca, condenado a 60 anos, mas ele não chegou a ser preso e morreu em julho de 2016, quando tratava um câncer de próstata.

Outro padre citado no filme, Bonifácio Buzzi, de Mariana, cometeu suicídio aos 57 anos em uma cela do Presídio de Três Corações (MG), em agosto do mesmo ano.