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Vários Chorões dentro de um Charlie Brown: doc revela cantor fofo, complexo e louco

Chorão - Divulgação
Chorão Imagem: Divulgação

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

24/10/2019 04h00

Se um homem quando está em paz não quer guerra com ninguém, como diz a letra de Só Os Loucos Sabem, Chorão (1970-2013) foi um homem que poucas vezes conseguiu alcançar a serenidade plena de espírito. O vocalista do Charlie Brown Jr era uma bomba relógio ambulante, prestes a entrar em ignição sem sobreaviso —mas ele não era muito diferente da maioria das pessoas.

O documentário "Chorão: Marginal Alado", do diretor Felipe Novaes, que está em cartaz na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, defende o argumento de que, atrás da imagem porra-louca, havia um músico complexo, contraditório, intensamente amoroso e que quase nunca se permitiu guiar pelas convenções sociais conhecidas. E muitos se esquecem disso.

"Por muito tempo, o Chorão vem sendo tratado de forma maniqueísta. Do céu, pelos fãs, ao inferno, pelos críticos. Acontece que ele era gente, e as pessoas são tudo isso. Quando falamos de um rock star, as coisas se potencializam mais ainda. Todos temos facetas contraditórias. A diferença era que a vida dele era acompanhada em tempo real", avalia ao UOL o diretor Felipe Novaes.

Com cenas de bastidor e entrevistas, "Marginal Alado" demorou seis anos para ser concluído e é fruto de um longo processo de pesquisa que teve como base 700 horas de gravações caseiras, feitas por Jerri Rossato Lima, que trabalhava com a banda. Foram meses de decupagem do material e mais de três anos até a finalização, que precisou acelerar para o lançamento na Mostra.

Novaes ouviu músicos —incluindo o baixista Champignon, que morreu sete dias após as gravações—, familiares, produtores e dezenas de pessoas que orbitavam entre a vida e a obra de Chorão. O resultado é revelador, para fãs e não fãs, e poderá ser visto no cinema comercial no primeiro semestre de 2020, com distribuição da O2 Play.

O Chorão fofo

Em vários momentos do filme, como o que mostra o início do relacionamento com a ex-mulher Graziela, Chorão é retratado como um sujeito afável e amoroso em suas relações afetivas. Pessoas próximas conheciam bem a generosidade do músico, que incluía ajuda financeira a funcionários do Charlie Brown Jr e fãs.

Em uma das cenas, o vocalista está em uma van cercada de fãs quando decide interagir com uma delas, aparentemente mais nervosa. Atencioso, ele diz que o amor que ela sentia não residia nele. Vinha da energia positiva emanada pela própria jovem. A garota ainda se desculpa dizendo não ter dinheiro para ir a shows e comprar CDs do grupo, e o vocalista "esquece" que vive disso e dá um conselho incomum: "Baixa tudo!".

Chorão - Alexandre Abrão/Divulgação - Alexandre Abrão/Divulgação
Imagem: Alexandre Abrão/Divulgação

O Chorão máquina de sucessos

Outro dos múltiplos lados explorado no documentário: Chorão era o "rei do estúdio", com jeito de produtor e extremamente detalhista nas gravações, o que muitas vezes irritava companheiros. O produtor Rick Bonadio conta que teve de conversar horas com ele por telefone para convencê-lo de que a mixagem da música Zóio de Lula era a melhor possível.

Chorão também se mostrava uma máquina de compor. Tinha papéis e cadernos com letras espalhados pelo apartamento e às vezes as escrevia até em outros lugares. A letra Proibida pra Mim foi escrita no verso de uma caixa de pizza. Colegas ouvidos no filme fazem questão de frisar que ele não tinha freios criativos e chegava a escrever cerca de 50 músicas no intervalo de três meses.

Chorão - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

O Chorão encrenqueiro

A conhecida personalidade intempestiva de Chorão, que tinha o dom de amplificar pequenas crises, é radiografada por meio de suas brigas famosas com Champignon, que é pouco explorada, mas principalmente com Marcelo Camelo e João Gordo.

No caso do vocalista do Los Hermanos, Chorão foi tirar satisfação pessoalmente em um encontro no aeroporto de Fortaleza, após receber comentários depreciativos de Camelo por participar de uma propaganda de refrigerante com a banda. Os ânimos se exaltaram, e Chorão acabou desferindo uma cabeçada e um soco no músico, que foi parar no hospital e posteriormente entrou com um processo na Justiça.

Sobre João Gordo, o filme mostra que Chorão não engoliu bem outra crítica, feita no programa Gordo Pop Show da MTV. Destemperado, o vocalista agrediu o líder do Ratos de Porão nos bastidores do VMB (Video Music Brasil), e Gordo não deixou barato: foi até a cozinha do evento, pegou uma peixeira e a colocou na cintura, para fins de intimidação. Nada de mais grave aconteceu. Segundo João Gordo, a treta acabou resolvida ali mesmo, sem trauma, com um pedido de desculpas de Chorão.

Chorão - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

O Chorão "louco"

Como a maioria dos fãs sabe, Chorão tinha problemas com drogas e se viciou em cocaína. O filme trata diretamente do tema com depoimento da ex-mulher. Segundo ela, a situação ficou insustentável a partir de 2009, quatro anos antes de Chorão ser encontrado morto em seu apartamento em São Paulo. Perto dos 40 anos e com o desgaste crescente das turnês, ele entrou em um excruciante processo de depressão, que serviu para alimentar o vício.

No início, ele dizia que o consumo era controlado, mas aos poucos já demonstrava dificuldade para conduzir shows. Na época, ele chegou a sair de casa para usar cocaína sozinho em hotéis. Segundo o documentário, algumas vezes ele consumia a droga por quatro dias seguidos, combinando pó com dez doses de Lexotan. Graziela conta que tentou interná-lo em uma clínica, sem sucesso. Com isso, Chorão foi se afastando do convívio social até o fatídico dia 6 março de 2013, quando morreu de overdose de cocaína.

Chorão no programa "Ensaio", da TV Cultura - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Chorão: Marginal Alado
Quando domingo (27)
Onde Espaço Itaú de Cinema - Augusta Sala 1 (augusta, 1475 - Cerqueira César)
Preço R$ 12,00 (meia) e R$ 24