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Joaquin Phoenix fala sobre Coringa, rusga com De Niro e culto dos pais

Joaquin Phoenix na premiere de Coringa em Los Angeles - Kevin Winter/Getty Images
Joaquin Phoenix na premiere de Coringa em Los Angeles Imagem: Kevin Winter/Getty Images

Do UOL, em São Paulo

01/10/2019 10h33

Joaquin Phoenix deu uma longa entrevista à revista Vanity Fair, em que falou sobre atualidades, com enfoque nas polêmicas de seu novo filme, Coringa, e sua relação com Robert De Niro e sobre o passado, que teve a tragédia da morte de seu irmão, o também ator River Phoenix, e uma infância incomum. Além disso, revelou que, apesar do estilo de vida vegano, ainda luta contra o tabagismo, tendo falhado nas tentativas de largar o cigarro sendo tratado com hipnose.

O filme Coringa, estrelado pelo ator de 44 anos, estreia nesta quinta-feira no Brasil, cercado de polêmica. A acusação é de que ele promove violência. "Eu não imaginei que seria um filme que teria reações tranquilas. É um filme difícil. De certa forma, é bom que as pessoas tenham reações fortes a ele."

Para Phoenix, o melhor é deixar o filme falar por si. "Você tanto pode dizer que ali tem alguém que precisa ter sua voz ouvida e ser entendido. Ou pode dizer que é alguém que desproporcionalmente precisa que um monte de gente preste atenção nele. Sua satisfação vem de onde ele está no meio da sua loucura", definiu Phoenix.

Além de perder mais de 20 kg para viver o personagem Arthur Fleck, o Coringa, Phoenix pesquisou sobre narcisismo e criminologia e se inspirou em Buster Keaton, Ray Bolger e no espantalho do Mágico de Oz.

Uma curiosidade é que uma cena foi feita no improviso. Fleck precisava aparecer no banheiro após alguns assassinatos, procurando um lugar para esconder sua arma. O diretor Todd Phillips e ator não gostaram do que estava rolando e, enquanto debatiam, Phillips colocou para rodar uma música ainda inédita da trilha sonora. Phoenix começou a dançar e, com apenas um câmera na sala - e uma equipe de 250 pessoas fora, os esperando -, eles gravaram uma das cenas que foi parar no trailer do longa.

Phoenix e De Niro

Outro destaque do filme é Robert De Niro, que teve papel importante nos bastidores. "Ele é meu ator americano favorito. Eu tenho a impressão que ele faz coisas em cena, com certos comportamentos e gestos, que acontecem mesmo se a câmera não está registrando."

No entanto, eles interagiram pouco no set. Phoenix diz que é culpa dos métodos que compartilham e das próprias superstições. "Não gostava de falar com ele no set. Falava bom dia, e depois não conversávamos muito. Nossos personagens não precisavam falar muito. Nós só falávamos: 'Vamos trabalhar e nos relacionar como os personagens'. Fica mais simples, não tem muito motivo."

Trailer final de Coringa, com Joaquin Phoenix

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Mas houve rusgas também. Por pedido de De Niro, houve uma leitura do script com a presença de todos. Phoenix não gosta do processo. Em certo momento, Phoenix deixou a sala para fumar, De Niro o acompanhou, e o protagonista acabou deixando a reunião: "Não consigo mais, preciso ir pra casa".

Phillips conseguiu trazer o ator de volta, todos acertaram as aresta e "De Niro virou para Phoenix, pegou seu rosto com as mãos e deu um beijo em sua bochecha, dizendo: 'Vai ficar tudo OK'", contou o diretor, sobre o gesto de De Niro, promovendo a paz

Culto da família

Phoenix conta na entrevista histórias da infância, quando seus familiares foram do culto Children of God, que depois - após a família ter abandonado a seita - ficaria conhecido por práticas obscuras e perversas, com recrutamento sexual e introdução ao sexo na adolescência. A família, ainda sob o sobrenome Bottom, deixou o culto e virou Phoenix, com a mãe de Joaquin grávida de sua quinta criança.

Em outra cena da infância, ele recorda um dia em que viu pescadores torturando peixes. Pouco tempo depois, a família virou vegana. "Aquilo foi tão violento, tão intenso. Lembro vividamente do rosto da minha mãe. Eu gritei pra ela: 'Como você não nos disse que era daí que o peixe que comemos vinham?'."

Em 1979, os Phoenix se mudaram para Hollywood e viraram uma trupe de crianças artistas, atuando e dançando, inclusive em programas de TV. O filho mais velho, River Phoenix, virou a grande estrela, mas morreu em 1993, após uma overdose de drogas.

Joaquin diz que sempre teve um interesse pelo obscuro e pela mente humana, como sua própria carreira como ator foi mostrando, em filmes como Eu Ainda Estou Aqui e Você Nunca Esteve Realmente Aqui. A morte de River teve papel importante nisso - Joaquin estava presente e ligou para o telefone de emergência.

"Eu tento não pensar nessa p... Por que você está me fazendo essa pergunta? Você está arruinando minha performance", brinca Phoenix. Ele ainda desmente uma entrevista famosa de River, em que ele tinha dito perder a virgindade aos 4 anos. "Vocês acreditam nisso? Era uma piada total. Ele estava f... com a imprensa, porque estava cansado de perguntas ridículas."

A questão tinha relação com o culto dos pais. Joaquin garante que eles nunca foram negligentes e deixaram a seita logo que receberam instruções que previam usar flertes e sexo para atrair seguidores. "Eles eram idealistas e acreditaram que estavam num grupo com gente que tinha seus valores. Eles deviam estar buscando por segurança e uma família".

Na morte de River, a família se retraiu. "Nós apenas deixamos tudo para trás. Foi horrível", admite ele. Os Phoenix se mudaram para Costa Rica e o ator só voltou a fazer testes para Um Sonho Sem Limite (1995), que o recolocou no mercado do cinema. Ao ver o diretor Gus Van Sant, desabou: "Eu comecei a chorar. Não sabia o que ia rolar, mas estava muito triste". Ele agarrou a chance e cresceu, principalmente ao viver Johnny Cash em Johnny & June e outros papeis de destaque.

Para Joaquin, seu estilo e o gosto por papéis complicados, como Coringa e Cash, veio de antes de nascer. "Acho que é uma combinação de natureza e cuidados. E algo que vem da minha educação".

Ele encerra o papo dizendo gostar de como está hoje. Se anteriormente ele tinha vazios, incertezas e neuroses por conta de seus papeis - viver Cash o levou a uma clínica de reabilitação na vida real -, hoje as coisas são mais leves. "Sempre tive momentos difíceis. Acho que só recentemente, ao envelhecer eu vi que estava tudo bem. Eu sei que tenho significado em outras áreas da minha vida. E isso é o que me sustenta. Eu gosto. Eu amo minha vida. Amo a p... da minha vida", encerra o ator, já cotado como forte concorrente ao Oscar.

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