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Saída do armário e cinzas na privada: as histórias do doc de Edy Star

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Imagem: Divulgação

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

16/06/2019 04h00

"Acho esse nome comprido, acho pretensioso... Que me esqueçam, pelo amor de Deus". É assim que o artista Edy Star se refere ao documentário que trata de sua própria vida. Antes que Me Esqueçam, Meu Nome é Edy Star tem a difícil missão de resumir em menos de 1h30 a carreira do cantor, ator, dançarino e artista plástico.

Apesar de nem sempre conseguir se aprofundar em tantos temas, o longa que estreia neste domingo no Festival In-Edit Brasil diverte com as entrevistas de Edy trazendo suas reflexões sobre a morte, falando sobre o fato de ser o primeiro artista gay assumido do país e com entrevistas com gente do calibre de Caetano Veloso.

Edy nasceu Edivaldo Souza, em Juazeiro, na Bahia, e hoje está com 81 anos - "tô no bônus track", diz ele. O documentário foi projeto de um primo de segundo grau, que teve a ideia de contar a história de Edy em 2010 e precisou de muito convencimento.

"Ele me falava 'não, documentário não presta'. Dizia que a vida dele não daria um doc, que ele não é uma estrela, porque ele não tem essa ilusão de sucesso. Ele é meio que uma anti-estrela, não tem essa vaidade. Acho que o filme mostra como ele nunca levou a carreira a sério, que sempre foi fazendo o que gostava de fazer", explica o diretor Fernando Moraes.

O baiano tem uma frase muito representativa disso:

Eu preferi viver a ter uma carreira careta.

Veja o trailer do doc

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Pioneiro transgressor

Edy tinha uma carreira profissional "padrão" quando era jovem, trabalhando na Petrobras, mas largou o trabalho para ingressar no circo e nas artes. Seu círculo de amizades influenciou em seu futuro: Raul Seixas - com quem gravou Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 -, e os adolescentes Caetano Veloso e Maria Bethânia.

Ele é considerado o primeiro artista brasileiro a se declarar gay publicamente, em 1975, e fez fama com seus espetáculos, peças de teatro e o disco ...Sweet Edy..., que se tornou cult e só ganhou um sucessor 43 anos depois, com o álbum Cabaré Star (2017), produzido por Zeca Baleiro e Sergio Fouad.

Caetano Veloso e Edy Star - Arquivo pessoal/Folhapress
Caetano Veloso e Edy Star
Imagem: Arquivo pessoal/Folhapress

A sexualidade foi uma das coisas que chamaram atenção, em um momento mais conservador. Edy deixava o público intrigado. Mas não foi fácil. Em certo momento do longa, ele diz "descobri que tinha mais gente gay. Porque antes eu achava que era só eu". Questionado no doc como se "descobriu", ele desconversa, com seu tom bem humorado: "Descobri descobrindo, ué. Quer saber muito da minha vida".

Ser abertamente gay também trouxe consequências. Fernando Moraes diz que Edy foi contratado pela Globo na década de 1970 e deixado na geladeira. E o próprio artista se "sabotava". Edy por diversas vezes tomou rumos inesperados na carreira, por querer cumprir mais seus desejos do que seguir um caminho convencional perseguindo a fama.

Assim, foi parar nas artes plásticas, não gravou discos por décadas e brilhou como dançarino de boates no Rio de Janeiro e por mais de 20 anos, quando morou na Espanha.

Edy Star: "Eu sou tão velho que no meu tempo não existia nem a palavra gay, querido!" - Divulgação
Edy Star: "Eu sou tão velho que no meu tempo não existia nem a palavra gay, querido!"
Imagem: Divulgação

Vida e morte: o testamento para queimar tudo

O documentário e o reaparecimento de Edy nas manchetes estão entrelaçados. Em 2009, o cantor se apresentou na Virada Cultural, em um palco em homenagem a Raul Seixas. Como último "kavernista" vivo, fez a alegria do público. Ao mesmo tempo em que começou a desenvolver a ideia do documentário e ganhou um edital em 2013, Moraes serviu quase como um assessor para Edy. Foi sua ideia chamar Zeca Baleiro para ser diretor musical do longa e essa proximidade gerou o disco Cabaré Star.

Com tantas histórias e tanto material, Edy rendeu 600 horas de material entre entrevistas, apresentações e imagens de arquivo para o documentário. Moraes lamenta ter de condensar tanto, até porque o baiano tem planos inusitados para quando morrer.

Edy revela no documentário que fez um testamento para queimar todo o seu acervo quando partir. Ele explica: "Para mim, a vida é como uma vela acesa. Apagou, acabou. No testamento eu escrevi que quero que tudo seja destruído, totalmente queimado. Ou faz para mim enquanto estou vivo, ou não faz nada."

E adiciona: "Eu quero ser cremado. E não quero que joguem cinza no rio São Francisco. Pega aquele potezinho, entra no primeiro sanitário, joga ali e puxa a descarga. Não se preocupa, que essa água vai para o mar."

Seja o Edy dos anos 1970, seja a "vovó transgressora" de agora, Edy manteve o tom debochado e sem papas na língua. Ainda que queira ser esquecido, ganhou uma obra que não deixará que isso aconteça.