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Morre André Midani, produtor de sucessos da bossa nova ao rock, aos 86 anos

André Midani - Reprodução
André Midani Imagem: Reprodução

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

14/06/2019 08h46

O executivo de gravadoras e produtor musical André Midani morreu ontem à noite, no Rio de Janeiro, aos 86 anos. Um dos maiores nomes da indústria fonográfica, tendo trabalhado com artistas de sucesso da bossa nova ao rock, ele estava na Casa de Saúde São Vicente, na Gávea. A informação foi confirmada ao UOL pelo filho, Philippe, e pela assessoria de imprensa da casa de saúde.

Ele havia sido diagnosticado com câncer há cerca de quatro meses e morreu em decorrência desta doença, segundo o filho. "Ele estava com idade avançada e há alguns meses vinha lidando com um câncer", afirmou Philippe, por telefone.

Midani teve diversos trabalhos de destaque, entre eles como presidente da Warner para a América Latina, e desde os anos 1960 tinha grande importância na cena musical.

De Damasco ao Brasil

André Midani nasceu em 25 de setembro de 1932, em Damasco, na Síria. Aos três anos de idade, foi morar na França, onde começou a trabalhar com música na gravadora Decca.

André se mudou para o Brasil em 1955 e, buscando emprego na mesma área, conseguiu empregos na Odeon e na Capital Records. Além de lançar as bandas internacionais, sua primeira responsabilidade, ainda na década de 1970 voltou-se à música brasileira.

Assim, passou a promover artistas da bossa nova, que se transformou no principal gênero da juventude brasileira e ganhou fama internacional com João Gilberto e Tom Jobim. Mais tarde, trabalhou com outras lendas da música nacional: de Elis Regina e Caetano Veloso a Gal Costa e Os Mutantes. Na década de 1980, passou por suas mãos a safra que fez sucesso no rock nacional, com Lulu Santos, Titãs, Barão Vermelho e outros.

O produtor na série "André Midani - do Vinil ao Download" - Divulgação
O produtor na série "André Midani - do Vinil ao Download"
Imagem: Divulgação

Da bossa ao rock e Anitta

Em entrevista à BBC em março de 2018 ele relembrou seu primeiro encontro com João Gilberto. Midani relatou ter se assombrado com o que sentiu quando o músico dedilhou os primeiros acordes de seu violão, na casa do amigo Aloysio de Oliveira. E recordou:

Era a música que a juventude brasileira não tinha

O produtor riu quando questionado sobre os esforços que João Gilberto fez para divulgar o 78 rotações com Chega de Saudade e Bim Bom, um ano depois, já em 1958, no que é considerado o disco inaugural da bossa nova. "Ele (João Gilberto) sempre foi muito difícil, reclamava de tudo", relembrou.

Com olhar crítico e intuição apurada, foi da bossa nova, aos Tropicalistas, do rock nacional a Anitta. Midani trabalhou com a funkeira em 2015, no projeto Inusitado, quando reuniu no mesmo palco Arnaldo Antunes, Arlindo Cruz e Anitta. "Eu disse que ela poderia cantar tudo, menos funk", comentou à BBC, elogiando a cantora. "Ela é afinada, musical, com muitas qualidades. Lamento que o meu trabalho com ela tenha durado só duas noites."

Ainda à BBC, falou do panorama atual e o que andava ouvindo: "Tem muita coisa boa: Baiana System, Alice Caymmi, Tulipa Ruiz, Mahmundi...".

E completou:

É claro que o que é bom para mim, pode não ser bom para você. E música boa é aquela que toca aqui [aponta para o coração]. Música é emoção.

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