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Elenco estelar e tom político: O 1º filme de zumbis a abrir o Festival de Cannes

Bill Murray, Chloë Sevigny e Adam Driver em cena do filme - Reprodução
Bill Murray, Chloë Sevigny e Adam Driver em cena do filme Imagem: Reprodução

Bruno Ghetti

Colaboração para o UOL, em Cannes

15/05/2019 08h09

Um bando de mortos-vivos saiu de baixo da terra para abrir o Festival de Cannes, na noite de ontem. O longa "Os Mortos Não Morrem", do diretor cult americano Jim Jarmusch (de "Paterson"), entrou para a história como o primeiro filme de zumbis a inaugurar a festa francesa - e ainda disputando a Palma de Ouro, prêmio máximo do evento.

Um elenco estelar abrilhantou o tapete vermelho na noite de ontem: além do diretor, Tilda Swinton, Bill Murray, Adam Driver, Selena Gomez e Chloë Sevigny subiram juntos a escadaria do Palácio dos Festivais, onde houve a cerimônia de abertura e a sessão de gala do filme.

O longa não é propriamente um filme de terror: seria mais propício enquadrá-lo como comédia trash de teor social, com uma ferrenha mensagem política progressista camuflada em meio a caveiras, vísceras e corpos em putrefação.

"A escuridão aparece em uma grande parte, mas o humor também. Acho que sem coisas cômicas, a vida seria muito complicada", disse Jarmusch, em conversa com a imprensa. "Quis fazer zumbis secos ou o filme seria um banho de sangue. São os zumbis do café", disse, referindo-se a alguns mortos-vivos de seu longa obcecados pela bebida. "Há um horror cômico ali."

A trama começa quando, certo entardecer, a luz do Sol não vai embora. Já é noite, mas ela segue lá, firme e forte. Cientistas alertam que o aquecimento global gerou uma alteração no eixo da Terra, deixando o planeta em um novo ritmo. Mas, como é hábito em certos países hoje em dia, as autoridades desmentem a Ciência e juram que está tudo nos conformes. Mas as pessoas sabem na prática que não.

De repente, mortos readquirem um novo sopro vital e levantam dos túmulos. Enquanto vivas, as pessoas ficaram tão condicionadas a certas atividades que, ao virar zumbis, automaticamente saem atrás do que faziam quando ainda não tinham morrido. Em uma cidadezinha, um trio de policiais (Murray, Driver e Sevigny) se apavora e fica sem saber como controlar o ataque zumbi. Mas uma bizarra dona de funerária escocesa (Swinton) sabe muito bem como destruí-los.

Selena Gomez em cena de "The Dead Don't Die" - Reprodução/YouTube
Selena Gomez em cena de "The Dead Don't Die"
Imagem: Reprodução/YouTube

A trama não perde tempo com muita lógica, mas fica evidente sua intenção crítica ao governo Trump. O vilarejo de Centerville, óbvio, são os EUA, com seus cidadãos com grandes limitações culturais, alguns ultraconservadores (como o fazendeiro supremacista branco vivido por Steve Buscemi), outros nerds que tipificam o "perdedor" americano (Caleb Landry Jones).

As referências cinematográficas pululam o tempo todo: há menções a Alfred Hitchcock, Samuel Fuller e, sobretudo, George A. Romero, cineasta de obras-primas sobre mortos-vivos, como "Terra dos Mortos" (2005). "Romero era um deus do horror, me inspirei muito nele", reconhece Jarmusch. "Ele mudou a ideia a respeito de monstros no cinema. Em filmes como 'Godzila', o horror vem de fora, mas em Romero vinha de dentro. Os zumbis são vítimas também, são ao mesmo tempo monstros e vítimas. Ele usou a própria estranheza e limitações [dos mortos-vivos] a favor de seus filmes."

Como o longa tem um subtexto político, questões sobre o tema vieram à tona na conversa com a imprensa. "A política não salva nada, é uma distração. Hoje em dia ocorre no nível das corporações. Mas algo está nas nossas mãos: se todos decidissem boicotar uma corporação porque discorda de sua postura, poderíamos mudar as coisas", disse Jarmusch.

Tilda Swinton foi indagada sobre o que acha de, neste ano, Cannes ter apenas quatro mulheres entre os diretores na competição principal. Ela ressaltou que desde o início do cinema, grandes diretoras fazem filmes, mas que não são prestigiadas.

Diretor Jim Jarmusch (4ª da esquerda para a direita) fala em coletiva de imprensa do filme "Os Mortos Não Morrem", em Cannes, junto a Bill Murray, Selena Gomez e colegas -  Laurent EMMANUEL / AFP
Diretor Jim Jarmusch (4ª da esquerda para a direita) fala em coletiva de imprensa do filme "Os Mortos Não Morrem", em Cannes, junto a Bill Murray, Selena Gomez e colegas
Imagem: Laurent EMMANUEL / AFP

"Veja [a importante cineasta soviética, morta em 2018] Kira Muratova: ela morreu e quase não se falou dela. Mas os grandes mestres homens, quando morrem, recebem edições inteiras na imprensa [dedicadas a eles]. Temos mulheres que fizeram e estão fazendo filmes, precisamos olhar o cânone: apreciar, assistir a esses filmes [dirigidos por mulheres]. Precisamos prestar atenção a isso e trazer à tona", disse Swinton.

O tema "medo" apareceu na conversa: o que assusta os atores no mundo de hoje? Selena Gomez disse que as redes sociais foram horríveis para a sua geração, no sentido em que são armas poderosas de espalhar notícias falsas. Já Swinton se disse assustada pela falta de abertura da mente das pessoas hoje em dia. Mas a melhor tirada foi mesmo de Bill Murray. "Acho Cannes assustadora", disse, arrancando gargalhadas dos jornalistas.

O elenco de "Os Mortos Não Morrem" é mesmo o ponto alto do filme, que tem também algumas boas ideias - os zumbis andando enfeitiçados com celulares na mão (uma alfinetada aos viciados em mundo virtual); a modelo morta-viva, literalmente cadavérica, fazendo poses para fotos; a escalação do sempre descamisado Iggy Pop para ser um dos zumbis (com suas veias estufadas, ele quase não precisa de maquiagem).

Mas o filme parece nunca sair muito da mera exploração dessas boas ideias pontuais e algumas tiradas inteligentes e sarcásticas; enquanto narrativa, é deficiente e incompleto, apesar de divertido. Recebido sem muito entusiasmo nas primeiras exibições, "Os Mortos Não Morrem" tem previsão de estreia em julho no Brasil.