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De Miss a "Capitã Marvel": Por que Carol Danvers é uma heroína como nenhuma outra

Reprodução/IMDb
Brie Larson como Carol Danvers em cena de "Capitã Marvel" Imagem: Reprodução/IMDb

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

2019-03-01T04:00:00

01/03/2019 04h00

A chegada da heroína Capitã Marvel, com o filme marcado para estreia no próximo dia 7 de março, tem sido celebrada como o começo de uma nova era para a franquia da editora -- e uma parte dos fãs não está gostando nada disso.

A Marvel Studios vive um momento decisivo: o desfecho de seus onze últimos anos de cinema está prestes a chegar em "Vingadores: Ultimato", o contrato de muitos dos atores que formaram a espinha dorsal da franquia está acabando, e nenhum filme está oficializado para além de 2019.

Neste contexto incerto, a fanfarra em torno da chegada de "Capitã Marvel" parece indicar que sua protagonista, Carol Danvers (Brie Larson), vai assumir posição predominante na próxima fase da franquia -- um papel parecido com aquele que o Homem de Ferro desempenhou até agora.

Os fãs não deveriam estar tão surpresos com esta decisão de Kevin Feige e cia, no entanto. Com uma história rica de mais de 50 anos nos quadrinhos da Marvel, Carol Danvers se tornou só recentemente uma das maiores estrelas da editora. Parece seu destino brilhar também no cinema.

Sinal dos tempos

Carol Danvers surgiu nas HQs em 1968. Embora já fosse oficial da Força Aérea Americana, característica definidora da personagem durante toda a sua história, ela não tinha poderes super-humanos. Ao invés disso, servia como coadjuvante do Capitão Marvel, um herói alienígena que se disfarçava como humano para proteger a Terra de uma variedade de vilões.

Em uma de suas aventuras, o Capitão Marvel acabou colocando Danvers na mira de seus antagonistas, e um acidente com um feixe de energia poderosíssimo fez com que ela ficasse gravemente ferida, à beira da morte. Pouco depois, esta encarnação de Danvers acabou desaparecendo das revistas do herói.

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A primeira aparição de Carol Danvers como Ms. Marvel, em 1977 Imagem: Reprodução/Twitter

Só em 1977 o roteirista Gerry Conway trouxe a personagem de volta, revisitando o acidente envolvendo o Capitão Marvel e estabelecendo que o tal feixe de energia fez com que o DNA de Danvers se misturasse com o do herói, transformando-a em um híbrido humano/alienígena, com habilidades incríveis. Assim nascia a Ms. Marvel, a primeira identidade secreta de Danvers.

Embora trouxesse temas feministas da época (que são relevantes até hoje), como a luta de Danvers por salário igual ao dos homens da Força Aérea, o título da Ms. Marvel também cometia alguns erros na visão das leitoras.

Por exemplo: uma das histórias mais infames envolvendo a heroína nesta era veio em 1980, quando ela foi sequestrada e levada para uma outra dimensão pelo vilão Marcus. Maligno e obcecado, ele fazia lavagem cerebral em Danvers, a estuprava e engravidava. Quando ela conseguia escapar e voltava para a Terra, no entanto, os Vingadores não a ajudavam -- graças à lavagem cerebral, achavam que ela estava apaixonada por Marcus e a mandavam de volta para ele.

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Carol em sua identidade como Binária, em 1982 Imagem: Reprodução/Twitter

A polêmica trama foi efetivamente revertida quando o roteirista Chris Claremont assumiu as rédeas da personagem, em 1981, integrando-a às aventuras dos X-Men. Com a ajuda de Vampira (que absorve os seus poderes permanentemente) e do Professor Xavier (que desfaz a lavagem cerebral), Danvers volta a ter controle sobre suas próprias decisões.

É quando, viajando com os X-Men, ela é cobaia de experimentos científicos da raça alienígena Brood, que lhe dão novos poderes. Danvers se torna a Binária, sua identidade mais poderosa até então, capaz de gerar a energia de uma estrela. Entre os anos 1980 e 1990, a personagem alternaria entre esta identidade secreta e a de Warbird.

Também nesta época, Claremont fez com que Danvers desenvolvesse alcoolismo para lidar com a confusão sobre suas origens, causada por todas as memórias embaralhadas em sua cabeça. Embora fosse agora coadjuvante em aventuras dos X-Men e dos Vingadores, entre outros, a personagem ganhou em profundidade.

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Como Ms. Marvel novamente, em edição de 2005 Imagem: Reprodução/Twitter

O ano de 2005 marcou o retorno de Danvers aos holofotes, após o sucesso da minissérie "Dinastia M", em que ela retomava a identidade de Ms. Marvel em um universo alternativo, criado pelos poderes da Feticeira Escarlate.

No fim de toda a confusão temporal criada pelo evento, a personagem manteve o traje e o título de Ms. Marvel. A sua revista solo, ao mesmo tempo em que era cheia de aventuras de ficção científica trash, trazia uma Carol Danvers que lutava com dilemas comuns: sua insegurança e sua necessidade de ser aceita pelo público e por seus colegas não a fazia menos heroica, ou menos poderosa -- apenas mais humana.

A plataforma serviu para que Danvers se tornasse peça chave em grandes crossovers da editora. Virou líder dos Vingadores após os eventos de "Guerra Civil" (2006), mas abandonou o grupo quando, após "Invasão Secreta" (2008), os heróis passaram a responder a Norman Osborn (o ex-Duende Verve), se juntando ao grupo clandestino que tentava combater sua gestão.

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Em 2012, personagem finalmente virou a Capitã Marvel Imagem: Reprodução/Twitter

A virada definitiva

O ano era 2012 quando a Marvel entregou Carol Danvers nas mãos da roteirista Kelly Sue McCormick, que se tornou a primeira mulher a escrever um título solo da heroína. Foi ela que orquestrou a reformulação da personagem, que trocou de traje e nome: de Ms. Marvel para Capitã Marvel.

Em uma de suas primeiras aventuras com os Vingadores nesta nova fase, Danvers luta contra Yon-Rogg, o comandante alienígena que causou a explosão que deu origem a seus poderes. No filme, Jude Law interpreta o personagem, que pinta como um dos grandes vilões da história.

Foi outra roteirista, Margaret Stoll, que revisou a origem de Danvers ao revelar que, na verdade, sua mãe fazia parte da raça alienígena Kree, a mesma de Yon-Rogg e de Capitão Marvel. Assim, a heroína não ganhou seus poderes na explosão, apenas teve sua metade Kree ativada quando o incidente aconteceu.

Desvinculada de um passado de hiperssexualização e habilidades derivativas de uma contraparte masculina, Carol Danvers chega aos cinemas como um dos símbolos mais fortes da nova era de quadrinhos, em que todos os gêneros, etnias e grupos sociais podem se sentir poderosos.

Chega também como uma mulher que não pede desculpas por seu poder formidável, nem por sua personalidade explosiva. A Capitã Marvel pode não ser um símbolo de serenidade e amor como a Mulher-Maravilha, que tem seu valor -- mas, ao se desvencilhar deste status de ícone intocável, se torna uma heroína muito mais humana.