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Como o feminismo moldou o filme "Sai de Baixo" sem você perceber

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

25/02/2019 04h00

A versão de "Sai de Baixo" que está nos cinemas se encaixa como uma luva no que se convencionou rotular de "politicamente incorreto". Assim como o programa de TV exibido entre 1995 e 2002, o filme capricha em bordões, piadas e situações que dificilmente passariam ilesas pelo tribunal da internet se não fossem protagonizadas por Caco Antibes (Miguel Falabella), Magda (Marisa Orth) e Ribamar (Tom Cavalcanti).

A própria diretora, Cris D'Amato, reconhece ao UOL que o filme é um espelho cristalino da sociedade e do humor "sem freio" praticado nos anos 1990, aquele que brincava com estereótipos, preconceitos e, por vezes, alvejava minorias. Mas um olhar mais atento perceberá que as transformações do mundo também estão ali. O feminismo, por exemplo, aparece em vários momentos da história. Basta olhar nas entrelinhas.

Cris D'Amato posa com Aracy Balabanian no set de "Sai de Baixo" - Mariana Vianna/Divulgação - Mariana Vianna/Divulgação
Cris D'Amato posa com Aracy Balabanian no set de "Sai de Baixo"
Imagem: Mariana Vianna/Divulgação

5 perguntas (e um comentário crítico) para Cris D'Amato

UOL - O filme "Sai de Baixo" espelha o "politicamente incorreto" dos anos 1990. Não tem medo de críticas nesse sentido?

Cris D'Amato - Eu jamais poderia modificar aquelas personagens. Eu sou mulher. Eu sou feminista. E eu trabalho pra caramba. Minha contribuição está em algumas marcas. Quando os bandidos estão ali, quem vai salvar o caso são duas mulheres: as personagens da Cacau Protásio [Cibalena] e da Katiúscia [Sundae]. O Ribamar se borra.

Quando chega a polícia, você vê que é uma delegada no comando. E quem acaba resolvendo o problema da turma é a "burra" da história, a Magda. Eu contribuí com minha visão. Inclusive com a fala da Magda, que diz que agora está "empoleirada" [corruptela de "empoderada"]. Acredite, aquilo ali não é sacanagem. Eu realmente ouvi pessoas falando (risos).

Dá para dizer que "Sai de Baixo" hoje é mais uma crítica social do que a representação do que é o país?

Acho que a comédia faz a crítica social por si só. E hoje, com a lente de aumento que a comédia traz, um personagem como o Caco Antibes, preconceituoso, começa a aparecer mais. E, nossa, a gente tem muito Caco Antibes por aí, né? Vamos combinar.

E muitos "Cacos" vêm ficando politicamente mais fortes.

Pois é! Eu nem quero falar sobre isso, porque já levei um puxão de orelha. Não posso falar (risos).

Cena do filme "Sai de Baixo"  - Divulgação - Divulgação
Cena do filme "Sai de Baixo"
Imagem: Divulgação

Você, que se considera feminista, não ficou com receio de aceitar dirigir um filme tão "politicamente incorreto"?

Olha, eu fiquei, sim. Com muito medo, de verdade. No início, pensei: "Nossa, vou ser lenhada". Uma mulher, fazendo esse tipo de filme. Depois eu pensei melhor e reconsiderei. Não quero fazer comparação, mas se eu montasse "A Megera Domada", de Shakespeare, ou o "Scapin", do Molière, também haveria a crítica [social de "Sai de Baixo"]. Que essa crítica sirva como lente de aumento e que as pessoas entendam que não existe mais aquilo.

O filme teve várias mudanças de roteiro por imprevistos do elenco. Como foi lidar com isso?

Foi difícil. A Marcinha Cabrita [Neide] e Cláudia Jimenez [Edileuza] fariam um triângulo amoroso com Tom Cavalcante [Ribamar], mas a Marcinha desencarnou. Aí a Cláudia ligou para o Miguel Falabella dizendo que topava fazer, mas depois ligou para mim falando que não queria mais. Ela tem a memória do que aconteceu na época, e o problema de saúde dela se agravou durante o "Sai de Baixo". Não sei ao certo o motivo, mas eu respeito muito.

A Aracy [Balabanian] aceitou, mas em determinado momento começou a dizer: "Ah, não quero mais fazer". No fim, aceitou se fossem só três dias de filmagens. E a gente brinca com isso no texto. Depois veio o problema de saúde do Luis Gustavo [diagnosticado com câncer], que infelizmente teve de sair. Isso aconteceu um mês antes das filmagens. O Miguel teve de reescrever o roteiro várias vezes. Eles me sacaneavam, perguntando se eu ia conseguir montar a história. Fizemos do jeito que foi possível fazer.

Lúcio Mauro Filho e Tom Cavalcante caracterizados de Angelina e Dona Jaula - Mariana Vianna/Divulgação - Mariana Vianna/Divulgação
Lúcio Mauro Filho e Tom Cavalcante caracterizados de Angelina e Dona Jaula
Imagem: Mariana Vianna/Divulgação

Luis Gustavo, o Vavá, só aparece em uma cena do filme. Não acha que as pessoas sentirão falta dele?

Claro! O personagem dele é muito importante. É o Vavá, pô. Ele ia dirigir o ônibus na viagem do filme. Não era para ter sido o Ribamar. Foi algo que fugiu ao nosso controle. Mas mesmo com tudo isso que aconteceu, toda a equipe fez uma campanha para ele ir durante um dia de filmagem. A gente abriu câmera, e todo mundo fez: "Vem, Tatá! A gente quer que você venha, nem que seja um dia". E ele veio, dizendo que já estava pronto pro "Sai de Baixo 2". (risos). Mesmo assim, ele é citado várias vezes no filme. Continuou sendo importante na trama.