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Baco Exu do Blues mostra o poder de "Bluesman" em lançamento em São Paulo

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

23/02/2019 09h24

"Se você não se enquadra no que esperam, você é um bluesman". A mensagem simples e direta do novo álbum de Baco Exu do Blues, "Bluesman", mostrou sua força e foi cantada a plenos pulmões na madrugada de hoje, quando o rapper baiano fez o lançamento do elogiado trabalho em São Paulo, na casa Áudio.

Os ingressos esgotados já mostravam que Baco teria o público na mão. Depois de estourar com "Esú", de 2017, "Bluesman" já nasceu cercado de elogios. Desta vez se apresentando em uma casa de ponta em São Paulo, ele cantou para um público jovem e majoritariamente branco, mas que já tinha na ponta da língua as músicas do novo álbum, tocado na íntegra e entoou um "Ele Não" contra o presidente Jair Bolsonaro.

"Bluesman" traz a ideia de que o blues foi o primeiro estilo musical que tirou os negros do ocaso, que fez os brancos prestarem atenção neles. Por todas as dez faixas, o discurso reforça a luta contra o racismo, o que gera identificação rápida com o público.

Gabriela Oliveira, negra de 19 anos, sentiu isso. Fã do rapper desde "Sulicídio", elogiou o álbum. "Chorei muito com ele, por ele falar da dor da solidão do homem negro. Essa dor não é vista, e não é valorizada. E isso dói muito, quando você se vê sozinho".

Por outro lado, ela estranhou o público. Antes, tinha visto um show de Baco na periferia. Agora em uma casa de show badalada, a imagem era outra. "Me decepcionei um pouco, por ter tanta gente de aspecto branco, pessoas que não entendem essa dor do negro. Mas também sei que é importante ele conquistar esse público", analisou ela.

Gabriela Oliveira durante o show de Baco Exu do Blues em São Paulo - Felipe Gabriel/UOL
Gabriela Oliveira durante o show de Baco Exu do Blues em São Paulo
Imagem: Felipe Gabriel/UOL

Blues sem guitarra? Não é bem assim

O show começa justamente com a mensagem que fecha "Bluesman" - a frase que abre este texto é a última do disco. Em seguida, soa o sampler de Muddy Waters, com o solo de guitarra de "Mannish Boy" e a faixa que dá nome ao disco.

Baco explicou, quando divulgou o disco, que queria fazer um disco de blues sem tocar blues. Curiosamente, para os shows, o único instumento no palco é a guitarra, a principal marca do gênero. O rapper ganha a companhia de três pessoas nas vozes - Shan Luango e duas backing vocals -, e Rodrigo Caian cuida das seis cordas, enquanto todo o resto apenas rola nos PAs.

Por diversas vezes, Baco pede ao público que comece as músicas, à capela, provando que a galera já decorou as faixas de "Bluesman", para depois recomeçar com todo o instrumental. Em outros, estimula a galera a bater palmas, a abrir rodinhas na pista e a pular com força nas músicas mais pesadas.

Vindo de Uberaba, Georges Miller, de 28 anos, aproveitou as férias em São Paulo para ver o ídolo e elogiou o fato de música e mensagem se combinarem para passar o discurso. "Eu gosto do empoderamento das músicas do Baco, elas te mostram que temos de andar com a cabeça erguida."

Georges Miller durante o show de Baco Exu do Blues em São Paulo - Felipe Gabriel/UOL
Georges Miller durante o show de Baco Exu do Blues em São Paulo
Imagem: Felipe Gabriel/UOL

Doçura e peso

Faixa a faixa, as músicas de Baco vão do extremamente belo às mensagens secas contra o racismo. Exemplo do primeiro foi "Queima a Minha Pele", que tem participação de Tim Bernardes no disco, Flamingos, com as convidadas especiais Tuyo, e "Me Desculpa Jay Z", com 1lum3.

Ele também canta com doçura os versos de "Te Amo Disgraça", com seu erótico "Bebendo vinho, quebrando as taças, fodendo por toda casa...", o grande hit de "Esú" e uma das mais comemoradas em São Paulo.

"Esú", "Minotauro de Borges" e "Preto e Prata"colocaram fogo na galera, levando aos gritos de "Ele Não". Já "Abre Caminho" teve o público acendendo as lanternas e fazendo um efeito legal com seus celulares.

Ponto baixo

Apesar de ser um show de lançamento calcado em "Bluesman" e de ele ser tocado na íntegra, o ponto baixo do show foi sua duração: apenas 1h05. As faixas de "Esú" também empolgaram a galera, mas poderia ser em maior número.

Baco deixou o palco, agora enfeitado de correntes, ao fim de "B.B. King", sem direito a bis.

Para Ricardo Coimbra, publicitário de 35 anos, a febre em torno de Baco trouxe um público diferente ao show. "É bem diferente de um show de rap de anos atrás. Mas é a 'hype', é assim mesmo. Eu sempre gostei do som dele, o rap de São Paulo tem muita gente, e é legal ele vir de fora, trazer as batidas e os elementos de África que ele traz".

Para brancos ou negros, fato é que Baco mostrou que "Bluesman" está só iniciando sua jornada, e que ela tem espaço também num meio mais elitizado. Neste meio, é mais fácil a mensagem de protesto ser diluída e superada pela música, de fato. Mas, a reação do público a letras mais fortes de suas composições, mostrou a força do discurso do rapper discurso. Como diz, "Minotauro de Borges", Baco vive.

Ricardo Coimbra durante o show do Baco Exu do Blues em São Paulo - Felipe Gabriel/UOL
Ricardo Coimbra durante o show do Baco Exu do Blues em São Paulo
Imagem: Felipe Gabriel/UOL

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