Topo

Edi Rock lança "Corre Neguin" e lamenta tragédias recentes: "É o apocalipse"

Edi Rock lança clipe da música "Corre Neguin" em parceria com o Tidal - João Terezani/Divulgação
Edi Rock lança clipe da música "Corre Neguin" em parceria com o Tidal Imagem: João Terezani/Divulgação

Renata Nogueira

Do UOL, em São Paulo

20/02/2019 15h50

Edi Rock apresentou na noite de ontem em uma première em São Paulo o clipe de "Corre Neguin", música em parceria com Xande de Pilares. O novo trabalho chega como o segundo single do disco solo do rapper que deve sair ainda no primeiro semestre deste ano. Misturando samba e rap, "Corre Neguin" já está disponível com exclusividade no Tidal desde a meia-noite de hoje e chega às outras plataformas digitais na sexta-feira (22).

"Essa música tem a ver com o momento que a gente passa. Um momento difícil, complexo, de decisões em vários setores da sociedade e que a gente enfrenta tragédias e catástrofes naturais e humanas", destacou Edi Rock em entrevista ao UOL. Em um dos versos da música, "no morro dos aflitos cai um beija-flor" - o rapper ainda homenageia Marielle Franco, vereadora morta a tiros no ano passado e que virou símbolo da resistência. "Assim que aconteceu o assassinato dela me chamou a atenção e me influenciou nas primeiras linhas."

Gravado no Morro do Turano, no Rio de Janeiro, o clipe de "Corre Neguin" reconta parte da história de Xande de Pilares, destaca Edi Rock, que conheceu o sambista nos bastidores do extinto programa "Esquenta", de Regina Casé. O rapper falou um pouco mais da música e da sua trajetória em um bate-papo com a plateia de fãs, jornalistas e convidados. Entre eles, Mano Brown, parceiro de Racionais MC's que prestigiou o trabalho solo do amigo.

"É o apocalipse"

Estimulando seu protagonista a correr da mira do revólver, a nova música de Edi Rock chega poucos dias depois de dois casos marcantes e que ainda estão na mídia. A morte de Pedro Henrique, asfixiado por um segurança dentro de um supermercado no Rio, e uma operação da PM que vitimou 15 jovens em comunidades também do Rio. Com uma carreira marcada pelo ativismo e denúncia dentro de sua poesia, o rapper diz que já se prepara para o pior.

"Falando como negro, além de a gente ser morto, estamos em uma sociedade racista. Somos mortos pelo branco, somos mortos por uma instituição, pela polícia, somos mortos por racistas. Somos mortos até pelo próprio negro", lamenta, lembrando o caso do Extra no Rio.

"O caso do mercado é um exemplo. O cara era negro e matou um negro. Matou uma pessoa que veio do mesmo lugar que ele. Então o que a gente pode esperar do futuro? Eu me faço essa pergunta a todo momento. Todo dia a gente tem uma surpresa na TV. Nas últimas semanas só sofremos perdas. Além de estar destruindo o nosso mundo, a gente está se destruindo. Onde vamos chegar dessa forma? Não tem mais retrocesso. É o apocalipse, a gente só se prepara para dias piores."

Futuro com Marília Mendonça

Edi Rock posa no lançamento do clipe de "Corre Neguin" em parceria com o Tidal - João Terezani/Divulgação
Edi Rock posa no lançamento do clipe de "Corre Neguin" em parceria com o Tidal
Imagem: João Terezani/Divulgação

No bate-papo com os convidados, Edi Rock ainda contou que já tem uma parceria pronta com a sertaneja Marília Mendonça. Preparado para ouvir críticas, o rapper lembra que o gênero já estava presente em suas raízes.

"Eu acordava todo dia com o meu pai ouvindo o Zé Béttio na rádio. Lembro do meu pai e do meu padrinho tomando cerveja e comendo churrasco na Cidade Líder ouvindo sofrência e eu correndo por lá. Essas coisas fazem parte", diz.

Sem dar muitos detalhes sobre a canção ainda inédita, Edi ainda faz questão de elogiar Marília como artista. "Ela é uma boa compositora, excelente."

Se aos 50 anos Edi Rock virou referência para toda uma geração, hoje ele diz beber na fonte justamente da juventude. Ele lembra que também ouviu críticas ao lanças seu primeiro single do novo disco, em novembro, em parceria com MC Pedrinho.

"O Pedrinho quando anunciei fui apedrejado, falaram um monte. Que o moleque não representava, que tinha que ser outro. O que as pessoas não sabem é que a música era dele. Eu que gostei da música", comenta sobre "De Onde Eu Venho", gravada com o funkeiro de 17 anos. "Mas a primeira coisa que me chamou a atenção foi a batida, e segundo o refrão. Que é um refrão moderno. O moleque tem idade para ser meu filho."

Racionais e Marighella

Ainda que em hiato desde fevereiro do ano passado, os Racionais MC's estão na trilha de "Marighella" com a música "Mil Faces de Um Homem Leal". Ainda que o filme de estreia de Wagner Moura na direção só tenha sido exibido no Festival de Berlim, o papel do protagonista que seria de Mano Brown e virou de Seu Jorge causou controvérsia entre parte do público que não vê o revolucionário como um homem negro.

"Eu não vi o filme ainda, quero assistir. Sei um resumo da história [do Marighella]. Ainda não tenho uma opinião 100% formada [sobre o filme]. Mas essa questão de branco, negro e pardo, é igual a Bíblia. É uma questão de interpretação. Pra mim ele era negro. É igual você chegar pro Brown e falar que ele é branco. Ele vai te enforcar. A mesma coisa com o Marighella. Além de ser baiano, ele era pardo. Na minha opinião, na nossa gíria tem um pé na senzala é negro. Ele representava os pobres e os negros. É isso é verídico. É um fato, não é ficção", afirma Edi Rock.

Para ele, "Marighella" tem incomodado justamente pela sua história de luta. "Incomoda porque ele lutava contra os militares e contra a direita e hoje a esquerda foi desfavorecida porque na última vez decepcionou. Se tivesse dado certo todo mundo ia apoiar", aposta.

Mais Rap nacional