As dores do bluesman baiano

Sem guitarra nem gaita, rapper Baco Exu fez disco de blues para quem sofre: as mulheres, os negros e os gays

Ronald Rios Colaboração para o UOL
Alex Takaki/Divulgação

Baco trabalha. E como trabalha. Em 2017, o rapper botou o premiadíssimo "Esú" na rua. Um ano depois ele volta com "Bluesman", disco lançado no último 23 de novembro, que chegou conquistando fãs e agradando os críticos que se derretem pela criatividade do baiano de 22 anos e se desdobram em elogios para propagar a mensagem desse prolífico membro da facção carinhosa.

Uma das coisas que mais me espantou no Baco foi o curto espaço para lançar dois discos maravilhosos. "Bluesman" é uma evolução muito clara entre os dois projetos (se você não gostou do primeiro disco, dê uma chance para este). De qualquer forma, Baco não bolou dois discos em dois anos. Ele bolou quatro. Sim, você leu aqui primeiro: já há um terceiro e quarto discos a caminho.

"Eu precisava soltar logo o 'Bluesman', não dava para esperar dois anos. Eu tenho muita ideia. Durante a criação do 'Bluesman', a gente já começou a fazer o terceiro disco. E no meio disso tudo, a gente já sabia como ia ser o quarto disco", ele diz. "E eu tenho uma equipe muito foda. A vontade deles de trabalhar comigo é infinita. Quando não estamos viajando, estamos gravando disco. Quando não é isso, estamos trabalhando em outro projeto. Dia todo no estúdio".

E quão avançado está o próximo projeto? Só mapeado na cabeça ainda, né? Nem. "O terceiro disco já tem todos os beats, todos os refrões". Baco trabalha, não se esqueça. Pergunto quanto tempo levou para a gravação do disco. Ele diz: "Nove meses", como quem demorou muito. Eu olho para ele confuso. Ele dá risada.

Baco no cara a cara é um maluco doce, transparente, mas sem deixar de lembrar um forte soldado importante para nossa cultura.

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Bluesman além do rótulo

Na faixa inicial de "Bluesman", Baco diz que blues é tudo aquilo que foi demonizado por ser de origem negra para, na sequência, ser aceito na sociedade como bonito após receber um processo de embranquecimento. O samba, o funk, o rock, o jazz, o soul e o próprio Baco. Ele quer que você entenda o espírito do blues, que, nos olhos dele, transcende a sua musicalidade. 

"Desde 'Faixa Preta' [música de 2016] eu venho dando esse papo, de que a gente precisa tomar o que é nosso por direito. Chegou um momento que o funk tava branco, o samba tava branco e aquilo me preocupava muito. As músicas que são nossas não são mais nossas. A parada com o bluesman é que o blues é o pai e a mãe de toda música negra. Foi o pé na porta pro artista negro não ser visto como um nada, mas sim como artista. Pra mim, é o começo de tudo", ele diz.

A dor do blues começa lá atrás, em cânticos nas plantações. E chegou um momento em que esses cânticos estavam num teatro com público branco. Tinha um cara ali no palco, negro, cantando o blues sobre o quanto aquelas pessoas brancas foderam a vida dele e dos antepassados dele. E tava todo mundo ali na plateia ouvindo e batendo palma. 

Ele diz que foi ali que se começou a quebrar o estereótipo. "Isso é o bluesman. Não existe gênero musical. Eu fiz um disco de blues sem tocar blues. O blues é sobre não ter rótulo. Não adianta só tocar uma guitarra e se rotular bluesman. Com meu disco, eu sou muito mais bluesman que isso."

Questiono se existem momentos mais convenientes em que o jovem branco vê que "ser preto é cool".

"Claro, óbvio. Desde o começo do rap. É todo um mundo diferente. A forma de se vestir, falar. Tudo que é cultural e legal, você que estar ali. E eu não acho que a pessoa tem que deixar de ser ouvinte de rap por ser branca. Pode cantar sendo branco também, foda-se. Mas é importante entender da onde vem e respeitar isso. Parece um pedido muito grande, né?".

Ouça a música "Bluesman"

Baco comenta três músicas

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"Queima Minha Pele"

"Não tenho visão pessimista do amor, mas não é só de flores. Eu vejo o amor muito mais no entendimento mútuo das pessoas e dos seus defeitos. Um pai e uma mãe que não têm uma relação, mas são companheiros ao longo da vida inteira. Isso é foda. É admirar aquela pessoa. O amor tá muito mais relacionado com a amizade, em aceitar falhas do que com a sexualidade em si. Não tem perfeição."

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"Kanye West da Bahia"

Baco canta na música, com participação de DKVPZ e Bibi Caetano, que "agora entende Kanye" e repete: "Eu sou o preto mais odiado que você vai ver". Ele explica: "[A música] Se trata de uma sensação. Não ter medo de testar, fazer coisas novas. Não ter meu trabalho ditado pela indústria. É meu maior medo."

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"Me Desculpa Jay-Z"

"Essa é muito doida. O refrão eu fiz pensando em mim. Era um bagulho meio 'eu não sei se gosto de mim ainda, tenho que me decidir sobre isso'. Tem partes que eu falo pra mim, tem partes que falo pra outras pessoas. Mas a essência da música sou eu. É o meu problema em não saber da minha confusão mental".

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Um disco para quem sofre

O primeiro álbum, "Esú", foi muito bem nas listas de melhores do ano. É evidente que a pressão pelo segundo álbum seria ainda maior. "Eu não tive medo... até terminar o disco. O hype não me irrita. Incomoda um pouco só a maldade que rola nisso. Mas uma coisa é a crítica. Outra coisa é adolescente revoltado querendo descontar no meu trabalho", ele diz.

Baco fez excelentes parcerias com cantoras no disco, como Bibi Caetano e 1lum3. "Eu chamei todo mundo que tinha voz que doía no coração. Eu estava fazendo blues sem guitarra, gaita, sax e trompete. Então pensei: 'Tem que apelar nas vozes'. Daí você tem o sentimento do blues na voz".

Se você quer ouvir sobre glocks, assassinatos e mortes, 'eu sou foda pra caralho, eu faço isso, aquilo e aconteço', não me escuta, mano. Meu som não é pra você. Meu público-alvo é quem sofre. São as mulheres, os negros, os gays. Esses, sim, são meu público-alvo.

Baco Exu do Blues

O que é ser um bluesman?

O álbum "Bluesman" saiu junto de um curta-metragem, que Baco chama de uma "interpretação audiovisual do disco". Feito pelas equipes da AKQA, Coala Festival e Stink em parceria do selo 999; direção de Douglas Bernart e com o esqueleto do roteiro feito pelo próprio Baco, o vídeo tem pouco mais de oito minutos.

"Vou falar o que o fã tem que fazer: ouve o disco e, na sequência, corre para ver esse vídeo. Aí você vai falar: 'Entendi!".

Assista abaixo e daí, então, seguimos com a conversa.

O vídeo mostra a imagem de um Jesus Cristo negro. Impossível não levantar a conversa sobre racismo novamente e como isso interfere a religião, ou vice-versa. 

"Quais os maiores colégios do Brasil? São os católicos. Dentro do catolicismo, o Jesus é branco. Qualquer coisa, o demônio, as trevas, tudo vem da perspectiva do negro, do escuro. E tudo que é celestial é branco. Acho que a gente sofre diversas lavagens cerebrais, cara. E uma delas é o catolicismo. Querendo ou não, o catolicismo tem uma essência bonita pra caralho, como várias religiões, mas eu não entendo por que as religiões brancas só gritam com as religiões negras. Por que 'só pode existir um Deus' e pronto? Mas você não vê nego falando sobre hinduísmo, sabe, 'ah, você é budista, coisa do demônio'. Não tem isso".

Ele vai além e amarra com o que trouxe para os ouvintes em "Bluesman". "Não quero usar esse termo, mas há um problema da mídia em querer criar pretos de estimação. Eu não vou adequar minha música ou postura ao que as pessoas querem porque isso vai ser mais aceitável pra elas. O 'Bluesman' é muito sobre isso. Não se contentar em ser minoria de estimação, não se contentar com os estereótipos nos quais tentam te encaixar. O disco é um movimento pra mim. É bem mais do que 'o disco do Baco'. Eu quero que as pessoas se cumprimentem como bluesman". 

Eu brinco com ele se o bluesman não é uma espécie de super-herói. Ele dá risada.

Na história, a gente precisa de bandeiras pra lutar. A que eu estou levantando com o 'Bluesman' é a bandeira livre. Se você não se encaixa em nenhum rótulo, você é bluesman. Todas as lutas estão ali abraçadas. Isso é o que o blues representa pra mim e é assim que eu quero apresentar o blues pras pessoas se tornarem 'bluesman' também.

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