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Carisma sedutor do serial killer Ted Bundy vira trunfo e problema em série da Netflix

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

11/02/2019 04h00

Com as séries documentais em alta e o fascínio que sempre existiu sobre as histórias de serial killers, "Conversations with a Killer: The Ted Bundy Tapes" chegou à Netflix prometendo misturar entretenimento com material inédito sobre Ted Bundy, um dos assassinos mais brutais da história dos Estados Unidos. Em quatro episódios de cerca de uma hora, o carisma de Bundy, um problema já na década de 1970, e sua história surreal viram o trunfo e o problema da produção.

Bundy agiu entre 1974 e 1978, matando com crueldade e abusando sexualmente de mais de 30 vítimas - número que ele confessou antes de ser executado na cadeira elétrica, em 1989. Não bastasse seus atos, Bundy ainda chamou a atenção da polícia e da imprensa por conta de duas fugas enquanto estava detido.

A premissa de "Conversations with a Killer" é explorar 100 horas de gravação, em áudio, dadas em entrevista por Bundy em 1980. Os jornalistas Stephen Michaud e Hugh Aynesworth foram chamados pelo próprio assassino em série, que queria abrir sua história e ter um livro dando sua versão dos fatos.

O resultado é uma docu-série das mais assustadoras, lançada nos 30 anos de sua morte. De um lado, causa espanto ouvir da boca de Ted Bundy parte das atrocidades e de como a cabeça de um serial killer funciona. Do outro, o choque é perceber a influência de Bundy nas outras pessoas - e o que se vê não é agradável. 

Bundy, lá nas décadas de 1970 e 1980, quando era julgado, ganhou aura de carismático. Aquele estudante de direito, branco, bonito, simpático e um hábil comunicador fazia garotas irem às sessões em que ele ficava à frente do juiz simplesmente para observá-lo, seduzidas. Muitos acreditavam que aquela figura que se via externamente não poderia ter cometido atos tão brutais. 

Divulgação
Imagem: Divulgação

E se você acha que a adoração ficou na década de 1980, o que se viu com o lançamento da série foi a Netflix ter de dar um puxão de orelha em seus consumidores. Após o lançamento, o burburinho na internet indicava que estava acontecendo de novo: muita gente estava postando com ares de endeusamento de Bundy, com elogios mais às suas feições e ao seu carisma do que críticas à tristeza que ele causou a dezenas de famílias. Bundy estava basicamente virando um "crush" para muita gente.

"Eu vi muitas pessoas falando da suposta 'gostosura' do Ted Bundy e gostaria de lembrar gentilmente a todos que há literalmente MILHARES de homens à disposição -- e a maior parte deles não é de serial killers condenados", tuitou a conta oficial da Netflix dos Estados Unidos.

Outra curiosidade é que Ted Bundy arranjou "problema" também com fãs de Venom. Nas redes sociais gente que "pegaria" Ted Bundy começou a brigar com quem tem um crush no simbionte. O argumento mais notável em favor do monstro é que ao menos ali se trata de um personagem fictício, enquanto Bundy de fato torturou e matou gente de verdade...

Triunfos: Ritmo, material e roteiro 

"Making a Murderer" foi um divisor de águas nas séries documentais, bombando na Netflix ao abordar como dois suspeitos foram condenados por assassinatos nos Estados Unidos sem que houvesse provas claras contra os crimes cometidos. No entanto, o ritmo lento e o desenvolvimento da história em duas temporadas, cada uma com dez episódios de uma hora tornou a série maçante. 

"Conversations of a Killer", por outro lado, corre rápido em 4 episódios de uma hora. O fato de seu principal material, as entrevistas com Bundy, serem em áudio poderia complicar o andamento, mas não é o que se vê. A edição com imagens antigas é dinâmica e em certas partes até beirando a psicodelia, dando um tom mais artístico e instigante enquanto a trama é costurada.

Como o caso de Bundy foi amplamente coberto, há também muitas imagens de arquivo de Bundy, desde sua prisão ao julgamento, que, aliadas a entrevistas atuais com pessoas que estiveram envolvidas no caso, inclusive uma vítima que conseguiu fugir de um ataque de Bundy, deixam o material completo. 

É interessante, também, ver como Ted se comporta nas entrevistas, indo de uma posição defensiva e sem citar os crimes a uma abertura indireta, falando na terceira pessoa. No entanto, a real confissão de seus crimes só foi feita às vésperas da morte na cadeira elétrica, ainda que ele sempre parecesse se gabar do que fez e passar uma imagem de que nunca seria pego. Ted Bundy era louco por chamar atenção, fez isso até o fim de sua vida e segue fazendo.

O diretor Joe Berlinger, que além desta série documental está produzindo o filme "Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile", que recentemente estreou em festivais internacionais e tem Zac Efron como Bundy, diz que no fundo a produção fala sobre a natureza humana.

Veja o trailer de Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile

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"Minha imersão na história de Bundy me balançou lá no fundo, quanto às minhas crenças na natureza humana e na capacidade de as pessoas serem más", disse Berlinger, ao site Thrillist. Ao canal E!, complementou: "A razão para se falar tanto nele é porque toca no mais fundo, sombrio e primal medo que as pessoas têm, porque Bundy não tem um perfil que as pessoas pensam que teria um serial killer. Ele é bonito, charmoso, as pessoas gostavam dele. Ele podia ser um político ou um advogado, e ainda assim ele tinha esse lado horrível. Ele mudou tudo quando se pensa quando se fala num serial killer".

"Conversations with a Killer - The Ted Bundy Tapes" já está disponível na Netflix. "Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile", que retrata a mesma história do ponto de vista de Elizabeth Kloepfer, que foi namorada do norte-americano, ainda não tem data de estreia na plataforma de streaming.

Errata: o texto foi atualizado
11/02/2019 às 12h33
Diferente do que foi publicado originalmente, a série da Netflix se chama "Making a Murderer", e não "How to Make a Murderer". O erro foi corrigido.
11/02/2019 às 10h40
A versão inicial do texto colocou Venom como "monstro da DC", o que não é correto. O conteúdo foi corrigido.