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Flip foi marcada por humor, relatos emocionados e excesso de jornalismo

Mauricio Stycer e Rodrigo Casarin

Do UOL, em Paraty (RJ)

04/08/2014 07h00

Em clima de Copa do Mundo, o curador Paulo Werneck chamou o evento que ajudou a organizar de “a Flip das Flips”. Encerrada neste domingo (3), a décima-segunda edição da Festa Literária Internacional de Paraty não foi tanto, mas ofereceu, de fato, grandes momentos a quem a acompanhou.

Também, como ocorre todos os anos, foi palco de decepções e encontros que deixaram a desejar. Na relação abaixo, a equipe do UOL apresenta os destaques, positivos e negativos, do evento.

Homenagem a Millôr:  Único escritor homenageado que chegou a participar de uma Flip (esteve na primeira), Millôr Fernandes foi lembrado de várias formas ao longo desta décima-segunda edição. Entre as mais divertidas da festa, duas mesas reuniram amigos seus, ex-colegas de trabalho e discípulos para contar histórias dos tempos de “Cruzeiro”, “Pif Paf” e “Pasquim”. Na primeira, Jaguar relembrou o dia em que Chico Buarque cuspiu em Millôr. A segunda reuniu o cartunista Claudius, o caricaturista Cassio Loredano e o jornalista Sérgio Augusto para relembrar o "guru do Méier".

Drama na primeira pessoa: O jornalista americano Andrew Solomon arrebatou a plateia ao falar de "O Demônio do Meia-Dia", um verdadeiro tratado sobre a depressão. “Descrever a depressão dos outros ajuda a pessoa a se sentir menos sozinha. Isso foi uma lição muito valiosa. Outra coisa: eu achava que os meus anos de depressão tinham sido anos perdidos. Quando transformei em livro, redimi aquele tempo."

Em nome da mãe: Outro grande momento, igualmente emocionante, ocorreu quando o escritor Marcelo Rubens Paiva, ao falar do desaparecimento do pai durante o regime militar, evocou o papel de sua mãe, Eunice Paiva, na luta pela redemocratização do Brasil. “Quem combateu a ditadura foi a minha mãe, não foi meu pai. Assim como ela, outras mulheres tentaram honrar o nome de seus queridos mortos barbaramente”, disse o escritor.

Diga-me o que comes e te direi quem és: Guru da alimentação saudável, o americano Michael Pollan ensinou na Flip: "Não coma nada que a sua avó não reconheceria como alimento". Autor de "Cozinhar", Pollan defende a necessidade de comer menos e melhor, deixando de lado alimentados processados industrialmente e valorizando a cozinha feita de forma artesanal. "O supermercado tem muito alimento que não merece a honra de ser chamado de comida", disse, provocando aplausos. "Vejo uma garrafa de água brasileira, e está lá o aviso: não contém glúten. Parabéns. É bom saber. Os supermercados se tornaram traiçoeiros", disse.

A arte da crônica e da ironia: Gregorio Duviver, 28, e Antonio Prata, 36, estiveram entre os escritores mais solicitados para eventos em Paraty durante a a Flip 2014, seja na programação oficial, seja em eventos paralelos. Principais nomes da nova geração que mantém viva a crônica de jornal, um gênero com muita tradição no Brasil, os dois participaram de uma “mesa” proposta pelo UOL, quando trocaram ideias sobre crônica, humor e literatura, entre outros assuntos. Foi a primeira vez que ambos debateram juntos.

Excesso de jornalismo: Para surpresas de muitos, a décima-segunda edição da Festa Literária de Paraty deu ênfase, talvez em excesso, para o jornalismo e a não-ficção, deixando em segundo plano, em alguns momentos, a literatura. As atrações que mais atraíram público, provocaram alguma polêmica e emocionaram os espectadores foram protagonizadas por jornalistas. Uma das estrelas do evento, por exemplo, foi o americano Glenn Greenwald, cujas reportagens publicadas no jornal inglês “Guardian” revelaram a ação ilegal do programa de vigilância eletrônica do governo americano.

Menos espaço para o público: A enorme tenda instalada na praça da Matriz, uma tradição da Flip, foi desarmada em 2014. Era ali que, a preços módicos, centenas de pessoas assistiam às palestras principais do evento por um telão gigante. Este ano, não teve tenda. Dois espaços, sem cobertura, transmitiram as mesas. Sob o sol, o público não precisou pagar nada, mas não teve nenhum conforto. Na visão dos organizadores, a medida ajudou a “democratizar” a Flip.

Calor: Ainda na questão da infraestrutura, o sistema de ar-condicionado da Tenda dos Autores deixou a desejar durante todas as palestras, e foi notado até pelo escritor português Almeida Faria, convidado do último debate do evento, que chamou o espaço de estufa e agradeceu a todos por estarem ali aguentando o calor.

Desencontros e falta de interesse: Como ocorre todo ano, nem sempre as apostas da Flip se realizam. Diferentes mesas decepcionaram. O encontro entre o poeta Charles Peixoto, a jornalista Eliane Brun e o comediante Gregorio Duvivier não deu liga. A escritora Jhumpa Lahiri não tinha tanto a dizer para merecer a honra de uma mesa só para ela. O jornalista David Carr, um dos maiores especialistas em mídia hoje, quase não foi questionado sobre o assunto em sua mesa.

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