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Após salva de tiros, corpo de Suassuna é enterrado ao som de trombetas

Andréia Rocha

Do UOL, em Recife

24/07/2014 17h00Atualizada em 24/07/2014 21h09

O corpo do escritor Ariano Suassuna, autor de obras como "O Auto da Compadecida" e "O Santo e a Porca", foi enterrado às 17h20 sob uma chuva de pétalas brancas e vermelhas no cemitério Morada da Paz, na cidade de Paulista, a 15 km de Recife. O caixão desceu ao som de trombetas, enquanto familiares e amigos lançavam flores. Suassuna, de 87 anos, morreu na tarde de quarta-feira (23), vítima de uma parada cardíaca após sofrer um AVC hemorrágico.

A neta de Ariano, Germana Suassuna, agradeceu a presença de todos. "Gostaria de agradecer de novo a todos que estiveram e estão aqui, porque todos sabem que meu avô era um homem do povo. Após as duas últimas aulas-espetáculo que ele deu, nos contou, emocionado, que nunca iria esquecer um senhor que parou ao lado do carro dele e disse: 'E agora, mestre? Graças a Deus!'. Então somos nós que, agora, dizemos: 'E agora, mestre? Graças a Deus!'", disse ela.

Um cortejo saiu às 15h50 do Palácio do Campo das Princesas, onde o escritor foi velado por cerca de 20 horas, com o caixão em cima de um carro do Corpo de Bombeiros. A chegada do corpo ao cemitério foi marcada por uma salva de tiros executada pela polícia militar de Pernambuco. Uma multidão de fãs também aguardava a chegada do caixão ao som de "Cazá! Cazá! Cazá, Cazá, Cazá!", grito de guerra da torcida do Sport Clube do Recife, time de Suassuna. Duplas de cavaleiros, que representavam os mouros e cristãos retratados no livro "Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta", cruzaram lanças por cima do caixão.

Homenagens

O velório, que começou na noite de quarta, foi marcado por comoção, com a presença de familiares, amigos e admiradores. Por volta das 11h20, chegou ao velório a viúva do escritor, Zélia de Andrade Lima, com quem ele era casado desde 1957 e teve seis filhos (Joaquim, Maria, Manoel, Isabel, Mariana e Ana). Bastante comovida, ela chorava muito, apoiada no caixão do marido.

Pouco antes das 14h30, foi a presidente Dilma Rousseff quem chegou ao local. Acompanhada do governador de Pernambuco, João Lyra Neto, ela cumprimentou os presentes e se sentou ao lado de Zélia. Dilma permaneceu no velório até as 15h e saiu sem se pronunciar nem falar com a imprensa. Ainda durante a manhã, às 11h30, houve uma missa de corpo presente celebrada pelo arcebispo emérito de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido. 

Anísio Brasileiro, reitor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), onde Suassuna deu aula durante 30 anos, disse que a instituição deve muito ao escritor e lembrou a importância que ele teve para a instituição. "O Brasil amanheceu triste e com muita saudade do nosso Ariano. A UFPE, uma instituição pública de longa data, deve muito a Ariano".

Segundo Brasileiro, a história da universidade confunde-se com a de Ariano. "Ele tinha e sempre terá a UFPE como sua segunda casa. Foi aluno, professor e diretor de extensão cultural, ele tem importância imensa. Ele se posicionou ao lado do povo no sentido de compreender a cultura e a identidade brasileira. Ao mesmo tempo, foi um mestre do ponto de vista da formação de recursos humanos e contribuiu para que seus alunos viessem a ter a noção de cidadania e compromisso social. A UFPE se sente muito honrada de ter tido Ariano como professor".

Para o cantor de frevo Claudionor Germano, Suassuna deixou alegria. "A imagem que fica de Ariano é de uma pessoa alegre, cheia de vida, uma pessoa de espírito cativante. Com certeza vai nos fazer muita falta". O bloco carnavalesco de Recife Galo da Madrugada, que teve Suassuna como o grande homenageado no Carnaval deste ano, levou ao velório o boneco gigante do escritor, que foi usado no desfile, assim como o estandarte do bloco. Pequenos grupos musicais também tocam no local algumas das canções populares que o escritor apreciava, entoadas por caboclos de lança, personagens centrais do maracatu.  

Também estiveram no velório o ministro do Esporte, Aldo Rebelo; o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho; o governador da Bahia, Jaques Wagner; o senador Humberto Costa; o prefeito do Recife, Geraldo Julio; e o candidato a presidente pelo PSB, Eduardo Campos.

Homenagem de Selton Mello

  • Imagem: Reprodução
    Reprodução
    Imagem: Reprodução

    "Chicó fui eu, Chicó é Ariano"

    Selton Mello deu vida a Chicó nas versões televisiva e cinematográfica de "O Auto da Compadecida". Em texto, ele afirmou que "o Brasil ficou mais pobre" com a perda de Suassuna. Leia mais

Eleito para a ABL em 1989, Suassuna escreveu mais de 15 peças teatrais e seis romances ficcionais. Ficou conhecido nacionalmente por "O Auto da Compadecida", de 1955. A história virou minissérie da TV Globo em 1999 com Matheus Nachtergaele e Selton Mello, e foi adaptada para o cinema em 2000.

A obra de Suassuna --traduzida para diversas línguas, como alemão, espanhol, inglês e polonês-- mescla características do modernismo, simbolismo e barroco com traços da cultura nordestina, como a literatura de cordel. Elementos da região, como a improvisação, são comuns em seus textos. Ele foi um dos criadores, em 1970, do Movimento Armorial, que mistura literatura, dança, teatro, música e outras manifestações artísticas para se fazer arte erudita a partir da cultura da região.

Formado em direito e em filosofia, exerceu, entre outros cargos públicos, o de secretário de Cultura de Pernambuco durante o terceiro governo de Miguel Arraes, em 1995. Atualmente, era assessor especial do governo de Pernambuco. Suassuna trabalhava havia mais de 30 anos no livro "O Jumento Sedutor", que faria parte de uma série de sete volumes que misturariam romance, poesia, teatro e gravura.

Internação

Suassuna sofreu um AVC hemorrágico na última segunda-feira, quando deu entrada no hospital. Ele foi submetido a uma cirurgia neurológica às pressas para receber dois drenos que controlariam a pressão intracraniana. Na noite de terça, porém, piorou o estado de saúde do escritor, que estava em coma e respirando com a ajuda de aparelhos.

Em agosto do ano passado, Suassuna, que sofria de diabetes, teve um infarto agudo do miocárdio e, semanas depois, foi internado com aneurisma cerebral

Os problemas de saúde, no entanto, não o impediram de seguir seus trabalhos e, em março deste ano, ele participou do Galo da Madrugada de Recife, onde foi homenageado. Teatrólogo e romancista, ele também continuava ministrando suas "aulas-espetáculos" (palestras que misturavam concerto com dança). A última foi na sexta-feira passada durante o 24º Festival de Inverno de Garanhuns, e havia outra já marcada para o dia 5 de agosto, em Curitiba.

Suassuna é o terceiro integrante da Academia Brasileira de Letras a morrer em três semanas. No dia 3 de julho foi Ivan Junqueira e no dia 18, João Ubaldo Ribeiro. Apesar de não integrar o órgão, o escritor Rubem Alves morreu no dia 19.

Biografia

Ariano Vilar Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927, em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa, capital da Paraíba, mas mudou-se para Recife em 1942. Desde pequeno teve sua vida afetada pela política. Seu pai, João Suassuna, era integrante do governo da Paraíba e foi assassinado por motivos políticos no Rio de Janeiro, durante a Revolução de 30.

A família então se mudou para Taperoá, entre 1933 a 1937, onde Suassuna fez seus primeiros estudos. Foi lá que ele assistiu pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola, cujo caráter de improvisação seria uma das marcas registradas também da sua produção teatral.

Em 1942, Suassuna mudou-se para Recife. Foi lá onde conheceu Hermilo Borba Filho, e com ele fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco. Publicou sua primeira peça teatral, "Uma Mulher Vestido de Sol", aos 20 anos.

Ariano Suassuna: 1927-2014

  • Imagem: Montagem/NE10
    Montagem/NE10
    Imagem: Montagem/NE10

    Especial

    Veja obras, frases e história completa do escritor e dramaturgo

Para curar-se de uma doença pulmonar, viu-se obrigado a mudar-se de novo para Taperoá. Entre 1952 e 1956, Suassuna dedicou-se à advocacia, sem abandonar a atividade teatral. São desta época "O Castigo da Soberba" (1953), "O Rico Avarento" (1954) e "O Auto da Compadecida" (1955), que foi considerada, em 1962, por Sábato Magaldi "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro".

Em 2002, Ariano Suassuna foi tema de enredo no carnaval carioca na escola de samba Império Serrano; em 2008, foi novamente tema de enredo, desta vez da escola de samba Mancha Verde no carnaval paulista. Em 2013, "O Auto da Compadecida" foi o tema da escola de samba Pérola Negra em São Paulo.

Sexto ocupante da cadeira nº 32 da ABL e doutor honoris causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e da Universidade Federal da Paraíba, Suassuna é fundador do Teatro Popular do Nordeste e do Movimento de Cultura Popular, além de idealizador do Movimento Armorial. Ele também é membro da Academia de Letras de Pernambuco e da Paraíba. Saiba mais sobre a vida e a carreira de Suassuna.

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