Livros e HQs

Diretor de "A Pedra do Reino" adaptará "Fernando e Isaura" para a TV

Andréia Rocha

Do UOL, em Recife

24/07/2014 13h56Atualizada em 24/07/2014 16h11

O cineasta Luiz Fernando Carvalho, que transformou o livro "A Pedra do Reino", de Ariano Suassuna, em uma minissérie para a TV Globo, prepara agora a adaptação de "A História de Amor de Fernando e Isaura" para a televisão. O diretor adiantou a notícia durante o velório do escritor de obras como "O Auto da Compadecida" e "O Santo e a Porca". Suassuna, que morreu na tarde de quarta-feira (23), vítima de uma parada cardíaca após um AVC hemorrágico, é velado no Palácio do Campo das Princesas, em Recife.

TV Globo/Renato Rocha Miranda
Os atores Pedro Henrique Dias (esq.) e Irandhir Santos em cena da minissérie "A Pedra do Reino" (Globo) Imagem: TV Globo/Renato Rocha Miranda

"Sou um fã, um admirador, um aluno [de Ariano Suassuna]. Porque, antes de tudo, Ariano é um grande mestre", disse Carvalho, que também dirigiu as adaptações para a Globo de "Uma Mulher Vestida de Sol", em 1994, e "A Farsa da Boa Preguiça", em 1995, ambas obras de Suassuna. 

Ele classifica "A História de Amor de Fernando e Isaura" como "um pequeno e lindo romance". "Ariano não morreu. A obra dele não morrerá, não passará. Ariano é um grande cometa Halley que passa pulverizando muitas emoções, muitas histórias, muitos personagens, sempre com esse coração voltado para o país, para os excluídos", disse ele.  

Para Carvalho, Suassuna conseguiu mostrar que a arte produzida pelo povo "é tão genuína quanto a mais nobre arte dos museus". "Eu me sinto feliz por ter sido ensinado a olhar isso verdadeiramente, através de um olhar tão amoroso quanto o do Ariano". 

Divulgação/TV Globo
Ariano Suassuna (à esq.), a mulher Zélia e o diretor Luiz Fernando Carvalho durante visita a Taperoá, onde a Globo filmou "A Pedra do Reino" Imagem: Divulgação/TV Globo

Às 11h30, teve início uma missa de corpo presente de Ariano Suassuna celebrada pelo arcebispo emérito de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido. A previsão é de que o corpo permaneça no Plácio do Campo das Princesas até as 15h. Depois, seguirá para o cemitério Morada da Paz, na cidade de Paulista, a 15 km de Recife, onde será enterrado às 16h. 

Eleito para a ABL em 1989, Suassuna escreveu mais de 15 peças teatrais e seis romances ficcionais. Ficou conhecido nacionalmente por "O Auto da Compadecida", de 1955. A história virou minissérie da TV Globo em 1999 com Matheus Nachtergaele e Selton Mello, e foi adaptada para o cinema em 2000.

A obra de Suassuna --traduzida para diversas línguas, como alemão, espanhol, inglês e polonês-- mescla características do modernismo, simbolismo e barroco com traços da cultura nordestina, como a literatura de cordel. Elementos da região, como a improvisação, são comuns em seus textos. Ele foi um dos criadores, em 1970, do Movimento Armorial, que mistura literatura, dança, teatro, música e outras manifestações artísticas para se fazer arte erudita a partir da cultura da região.

Formado em direito e em filosofia, exerceu, entre outros cargos públicos, o de secretário de Cultura de Pernambuco durante o terceiro governo de Miguel Arraes, em 1995. Atualmente, era assessor especial do governo de Pernambuco. Suassuna trabalhava havia mais de 30 anos no livro "O Jumento Sedutor", que faria parte de uma série de sete volumes que misturariam romance, poesia, teatro e gravura.

Suassuna era casado desde 1957 com Zélia de Andrade Lima, com quem teve seis filhos (Joaquim, Maria, Manoel, Isabel, Mariana e Ana). Ele era avô de 15 netos.

Homenagem de Selton Mello

  • Imagem: Reprodução
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    "Chicó fui eu, Chicó é Ariano"

    Selton Mello deu vida a Chicó nas versões televisiva e cinematográfica de "O Auto da Compadecida". Em texto, ele afirmou que "o Brasil ficou mais pobre" com a perda de Suassuna. Leia mais

Internação

Suassuna sofreu um AVC hemorrágico na última segunda-feira, quando deu entrada no hospital. Ele foi submetido a uma cirurgia neurológica às pressas para receber dois drenos que controlariam a pressão intracraniana. Na noite de terça, porém, piorou o estado de saúde do escritor, que estava em coma e respirando com a ajuda de aparelhos.

Em agosto do ano passado, Suassuna, que sofria de diabetes, teve um infarto agudo do miocárdio e, semanas depois, foi internado com aneurisma cerebral

Os problemas de saúde, no entanto, não o impediram de seguir seus trabalhos e, em março deste ano, ele participou do Galo da Madrugada de Recife, onde foi homenageado. Teatrólogo e romancista, ele também continuava ministrando suas "aulas-espetáculos" (palestras que misturavam concerto com dança). A última foi na sexta-feira passada durante o 24º Festival de Inverno de Garanhuns, e havia outra já marcada para o dia 5 de agosto, em Curitiba.

Suassuna é o terceiro integrante da Academia Brasileira de Letras a morrer em três semanas. No dia 3 de julho foi Ivan Junqueira e no dia 18, João Ubaldo Ribeiro. Apesar de não integrar o órgão, o escritor Rubem Alves morreu no dia 19.

Biografia

Ariano Vilar Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927, em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa, capital da Paraíba, mas mudou-se para Recife em 1942. Desde pequeno teve sua vida afetada pela política. Seu pai, João Suassuna, era integrante do governo da Paraíba e foi assassinado por motivos políticos no Rio de Janeiro, durante a Revolução de 30.

A família então se mudou para Taperoá, entre 1933 a 1937, onde Suassuna fez seus primeiros estudos. Foi lá que ele assistiu pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola, cujo caráter de improvisação seria uma das marcas registradas também da sua produção teatral.

Em 1942, Suassuna mudou-se para Recife. Foi lá onde conheceu Hermilo Borba Filho, e com ele fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco. Publicou sua primeira peça teatral, "Uma Mulher Vestido de Sol", aos 20 anos.

Ariano Suassuna: 1927-2014

  • Imagem: Montagem/NE10
    Montagem/NE10
    Imagem: Montagem/NE10

    Especial

    Veja obras, frases e história completa do escritor e dramaturgo

Para curar-se de uma doença pulmonar, viu-se obrigado a mudar-se de novo para Taperoá. Entre 1952 e 1956, Suassuna dedicou-se à advocacia, sem abandonar a atividade teatral. São desta época "O Castigo da Soberba" (1953), "O Rico Avarento" (1954) e "O Auto da Compadecida" (1955), que foi considerada, em 1962, por Sábato Magaldi "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro".

Em 2002, Ariano Suassuna foi tema de enredo no carnaval carioca na escola de samba Império Serrano; em 2008, foi novamente tema de enredo, desta vez da escola de samba Mancha Verde no carnaval paulista. Em 2013, "O Auto da Compadecida" foi o tema da escola de samba Pérola Negra em São Paulo.

Sexto ocupante da cadeira nº 32 da ABL e doutor honoris causa da Faculdade Federal do Rio Grande do Norte, Suassuna é fundador do Teatro Popular do Nordeste e do Movimento de Cultura Popular, além de idealizador do Movimento Armorial. Ele também é membro da Academia de Letras de Pernambuco e da Paraíba. Saiba mais sobre a vida e a carreira de Suassuna.

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