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Sessão de filmes eróticos causa frustração e embaraço em público

André Lessa/UOL
18.mai.2013 - Sessão Pink Porn, com filmes eróticos japoneses, durante a Virada Cultural Imagem: André Lessa/UOL

Daniel Solyszko

Do UOL, em São Paulo

19/05/2013 00h48

Uma plateia composta em grande parte por cinéfilos idosos e solitários, além de indivíduos solitários de olhar assustado e turmas de jovens em busca de diversão, formava a fila do Cine Dom José, no centro de São Paulo, no inicio da noite deste sábado (18). O público estava ali para ver a Sessão Pink Porn, parte da programação de cinema da Virada Cultural que exibe filmes eróticos japoneses.  

O local funciona normalmente como um cinema pornô, mas tem aberto sua programação nos últimos quatro anos para exibir filmes cult e clássicos do cinema B durante a Virada. “Já houve sessões de ‘Godzilla’, vampiros e filmes de ação” conta Diego Leite, de 24 anos, que atua como uma espécie de monitor do local apenas durante o evento. Ele conta que foi o próprio dono do cinema que inicialmente ofereceu o lugar para participar da maratona cultural. “A média de público costuma ficar entre 1.500 e 2.220 pessoas por dia, sendo que as sessões no começo da madrugada são sempre as mais concorridas”, diz ele.

O segurança Luís, mais conhecido como Silva, trabalha há um ano no cinema e diz que já viu de tudo, e muitas vezes teve que interromper casais mais afoitos e adeptos do sexo solitário. “Rapaz, dá todo tipo de gente aqui”, diz ele, levemente constrangido. “Geralmente fico mais tranquilo na Virada porque são outros tipos de filmes, mas ouvi falar que dessa vez tem erotismo, estou preocupado”, explica.

Apesar da denominação, porém, boa parte dos filmes exibidos não apresenta nenhuma pornografia, com cenas de erotismo bastante discretas para os padrões atuais. O termo “pink” começou a ser usado para definir obras dos anos 60 e 70 de cineastas oriundos do cinema novo japonês, que, imbuídos do espirito da época, misturavam crítica social e visões politicas esquerdistas de cunho libertário. O elemento sexual se encontra presente mais como um tema de fundo do que através de cenas explícitas.

A sala tem uma lotação de 550 lugares, sendo que a primeira sessão de ontem tinha 231 pessoas, e a segunda 184. O primeiro filme exibido foi “A Mulher Inseto”, de Shohei Imamura, um dos principais nomes da “nouvelle vague” japonesa, que acompanha as desventuras de uma camponesa que se torna uma prostituta ao se mudar para a cidade grande, durante a Segunda Guerra Mundial. Em seguida foi exibido o polêmico “Segredos Atrás da Parede”, de Koji Wakamatsu, que acompanha o cotidiano claustrofóbico dos moradores de um condomínio, recheado de adultério, voyeurismo e neuroses sexuais que acabam culminando em suicídios e homicídios.   

Tanto Imamura quanto Wakamatsu tem outros filmes em exibição na mostra, que conta ainda com clássicos como “Cega Obsessão”, de Yasuso Masumura, no qual um escultor cego sequestra uma modelo, com quem passa a desenvolver uma relação doentia de dominação. O filme entrou na programação de última hora, substituindo o longa “Dona de Casa: Sexo da Tarde”.  

O publico contava com tipos estranhos rondando pelos fundos da sala, provavelmente curiosos para ver se alguma coisa mais explícita era exibida, e conversavam o tempo todo em voz alta, atrapalhando a sessão, que já contava com copias ruins de som baixo, imagem sem definição e falta de sincronia. Todos pareciam um pouco embaraçados em estar ali, como se tratasse realmente de filmes pornográficos, e a grande maioria dos presentes, incluindo turmas de jovens e casais, ficava constrangida e dava risadinhas nervosas ao ser perguntada sobre os filmes.  

Uma das exceções era um cinéfilo de idade filho de japoneses, que preferiu não se identificar, mas declarou ter gostado muito do filme de Imamura, apesar de são ser o que ele esperava. “Eu pensei que seria o pornô normal que estamos habituados a ver, o que a gente chama de ‘pornô soft’. O Japão é um país totalmente liberal, um dos únicos no mundo onde o comunismo não conseguiu entrar, e eles fazem tudo o que estiver ao alcance para movimentar dinheiro.  A prostituição lá é gigantesca, no começo do século 20 já haviam 3 mil prostitutas só em Tóquio”, diz ele.

Fã de filmes cult como “Hiroshima Meu Amor” e “Ensaio Sobre a Cegueira”, Raissa Linhares, de 22 anos, estava presente com uma amiga na projeção do filme de Wakamatsu. Sua opinião provavelmente deixaria o diretor orgulhoso. “Achei o filme perturbador, aflitivo e sem sentido. Incesto, necrofilia... como isso é considerado erótico? Essa idéia me incomoda bastante. Vou ficar sem dormir hoje”. Ela explica que teve a ideia de entrar no cinema ao olhar o folheto do evento, esperando algo “mais engraçado, e erotizado também”.

Frequentadores da Virada Cultural interessados em manifestações mais amenas e alegres de erotismo podem conferir ainda a programação do palco “Copan-Ipiranga”, que conta com apresentações de burlesco e shows com drag queens e ícones populares como Elke Maravilha e Rita Cadillac.

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