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Como Dona Ivone Lara se afirmou no mundo masculino do samba

Bruno Poletti/Folhapress
Imagem: Bruno Poletti/Folhapress

Júlia Dias Carneiro

Da BBC Brasil, no Rio

17/04/2018 16h21

Em 2012, Dona Ivone Lara, já dona de uma longa carreira, foi homenageada pelo samba-enredo da escola Império Serrano, que a descrevia como "Dona, Dama, Diva" e "A Rainha da Casa, Mãe, Esposa de Fé". A letra continuava: "Diz que o dom de compor é coisa de mulher". Se até hoje contam-se nos dedos as mulheres que compõem sambas nas escolas do Rio, a prerrogativa estava há décadas de ser "coisa de mulher" quando Dona Ivone começou a desbravar um território até então estritamente masculino, em sua adolescência, nos idos dos anos 1930.

Dona Ivone nasceu no meio do samba e revelou desde cedo talento para a música, mas seguir o chamado não foi fácil. Os primeiros passos foram acompanhados por puxões de orelha da tia e incluíram pedido dela para que um primo sambista apresentasse suas composições sob seu nome --para ver se, ocultando a autoria feminina, eles seriam acolhidos.

Ela morreu na segunda-feira (16) no Rio de Janeiro, após duas semanas internada com infecção renal. Tinha completado 97 anos na última sexta-feira. Seu corpo foi velado na quadra da escola de samba da Império Serrano, e a prefeitura do Rio declarou luto oficial de três dias. A sambista teve sua vida atrelada à história da agremiação da Serrinha, na zona norte do Rio, tendo participado de sua fundação, em 1947.

Conhecida como "a grande dama do samba", Dona Ivone se tornou a primeira mulher na história a compor um samba-enredo no concorrido Carnaval carioca, em 1965. "Os Cinco Bailes Tradicionais da História do Rio" foi composto em parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau para o Império, e virou um marco, finalmente alçando Dona Ivone à ala de compositores da escola --embora já estivesse compondo havia mais de dez anos na agremiação, diz a historiadora Rachel Valença.

Ela diz que Dona Ivone foi uma "feminista sem saber". "Ela soube esperar", diz Rachel, coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o Império do Samba" e amiga de Dona Ivone. "Ela cumpriu todos os ritos da sociedade, como casar, ter filhos, cuidar da família. Não foi uma mulher que teve uma vida contestatória a esses cânones social. Mas foi feminista no sentido de que sempre acreditou profundamente na possibilidade de ser alguém independentemente do marido e das convenções sociais."

Nascida em Botafogo em 1921, na época batizada de Yvonne, a compositora teve uma infância conturbada, perdendo o pai, mecânico, aos 3 anos, e a mãe, dona de casa, aos 11. Órfã, viveu anos no Colégio Municipal Orsina da Fonseca, um internato. "Talvez por ter ficado órfã tão cedo, ela sempre sentiu a necessidade de trabalhar e ser capaz de se manter. Isso no fim dos anos 1940 não era nada comum, principalmente para uma mulher pobre e negra. Ela fez questão de estudar e se formar em uma época extremamente adversa, em que as mulheres eram preparadas para casar."

No internato, tinha aulas de música e canto coral. Nas férias, ia para a casa do tio, Dionísio, que tocava chorinho --e lá aprendeu a tocar cavaquinho e pegou a "malícia do samba", conta Rachel. "Ela foi reconhecida como uma pessoa superdotada musicalmente, tinha uma musicalidade impressionante. Isso a família via com bons olhos. Já o samba... a tia que a criou após a morte dos pais queria que ficasse longe daquele mundo, longe da música popular. E ela fica muito dividida."

Mas Dona Ivone se casou com um sambista, Oscar Costa, filho de Alfredo Costa, que presidia a Escola de Samba Prazer da Serrinha --que viraria a Império Serrano. "E acaba sendo levada de vez para o mundo do samba", explica Rachel. 

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O samba, entretanto, não se apresenta como uma opção profissional. Dona Ivone completou a formação de enfermeira e depois de assistente social, profissão que considerava sua carreira primária e da qual falava com orgulho. Foi só depois de criar os filhos e se aposentar que dedicou sua energia ao samba, se lançando como cantora e compositora e investindo na carreira solo, no fim da década de 1970 --tendo como principal parceiro Délcio de Carvalho, com quem lançou sucessos como "Sonho Meu" e "Acreditar".

Segundo a jornalista Mila Burns, autora de "Nasci para Sonhar e Cantar" (Record, 2009) --fruto de sua dissertação de mestrado em antropologia, que tinha como tema Dona Ivone Lara--, a compositora tinha uma percepção aguçada do meio em que estava inserida e das limitações da época, e traçou estratégias para lidar com elas. "Ela definiu isso muito bem quando falou em pisar nesse chão devagarinho", diz Mila, referindo-se ao samba "Alguém me Avisou" ("Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho/ Mas eu vim de lá pequenininho/ Alguém me avisou/ Pra pisar nesse chão devagarinho").

"Acho que um exemplo muito bom disso é que no começo ela pedia para o seu primo, o Mestre Fuleiro, apresentar sambas que ela compunha como se fossem dele. Todo mundo aplaudia. Ela dizia que isso não causava revolta, pelo contrário. Ela achava ótimo porque assim sabia que o samba era bom", diz Mila. Ela só foi assumir o protagonismo mais tarde, "quando sentiu que já podia". "Isso mostra que ela tinha uma noção muito forte do meio em que estava navegando. Ela reconhece que há preconceito, mas adota uma estratégia de fazer as coisas devagar e conquistar o espaço aos poucos."

Mila diz que quem sente pena de Dona Ivone por só ter se dedicado ao samba integralmente após a aposentadoria desconsidera as escolhas que ela quis fazer.
"Ela não tinha nada de coitada. Sempre dizia que fez tudo do jeito que queria", diz Mila, professora assistente de Estudos Latinoamericanos na Lehman College, da City University of New York (Cuny). "Ela primeiro quis garantir o seu pão, com seu trabalho como assistente social, mantendo a música como uma coisa secundária de fim de semana."

A autora diz que a lembrança que vai guardar das entrevistas na casa de Dona Ivone Lara em Madureira condiz pouco com a imagem de "senhorinha fofinha" que se disseminou entre uma nova geração que só a conheceu na fase mais tardia. "Sempre vou me lembrar dela como uma mulher tremendamente forte, assertiva, às vezes difícil, mas que sempre sabia o que queria, e sempre deixou isso muito claro", afirma.

Mila agora está prestes a lançar um segundo livro sobre Dona Ivone Lara nos Estados Unidos, sobre o álbum "Sorriso Negro", que foi lançado no começo da abertura política na ditadura, em 1981, e marcou um momento de forte ascensão dos movimentos negro e feminista no Brasil. "Ela nunca se declarou engajada politicamente, nunca se declarou feminista, mas teve um impacto gigantesco para as mulheres e a população negra em termos de representatividade", diz Mila.

Em um país em que a presença de mulheres no meio musical muitas vezes se dá na condição de musa ou de intérprete, Mila destaca a importância do exemplo de Dona Ivone como compositora. "Ela soube navegar esse ambiente e dominar uma área ligada à intelectualidade e que nunca era atribuída a mulheres."

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