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Com a morte de Ivone Lara, o samba perde a sua grande dama

Bruno Poletti/Folhapress
Ivone Lara Imagem: Bruno Poletti/Folhapress

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL

17/04/2018 07h03

Aos recém-completados 97 anos, Dona Ivone Lara deixa o mundo do samba órfão de sua grande dama. Brilhante cantora, compositora inspirada, líder nata, Dona Ivone era uma das últimas guardiãs da nobreza do canto singelo do samba, inspirado nas avós baianas da Praça Onze. Em mais de setenta anos de carreira, legou à Música Popular Brasileira clássicos que serão eternamente cantados e deixou o exemplo de uma mulher consciente de seu papel e que sempre lutou pela dignidade das sambistas.

Nascida em Botafogo, em uma família em que a música e o Carnaval sempre foram sua paixão, Dona Ivone foi criada pelos tios em Madureira, raiz do Império Serrano. Ao lado de seu primo Fuleiro, que depois seria um dos maiores diretores de harmonia da história, apaixonou-se pelo mundo do samba e logo conciliaria sua carreira de enfermeira com o dia a dia de uma escola de samba - em tempos em que homens e mulheres tinham papeis bastante definidos por uma moral machista.

Nora de Alfredo Costa, presidente da escola Prazer da Serrinha -- até então, única representante da comunidade nos desfiles das escolas -- logo mostrou a que veio e compôs o hino da agremiação. Com a cisão que originou o Império Serrano, logo estava na escola novata, que conquistou quatro campeonatos consecutivos em seus primeiros desfiles e, assim, atingiu o patamar de grande escola de samba.

Guto Costa
Imagem: Guto Costa

No Império Serrano, além de desfilar de baiana, Dona Ivone tornou-se a primeira mulher a compor um samba-enredo. E não era uma obra qualquer. “Os Cinco Bailes da História do Rio”, em parceria com o lendário Silas de Oliveira e Bacalhau, é tido pelos especialistas como um dos mais belos sambas-enredos da história do Carnaval e até hoje é entoado com bastante euforia na quadra da escola.

Cantora afinadíssima, que teve aulas na juventude com Lucília Villa Lobos, esposa do maestro, aproveitou-se muito bem da explosão do samba na mídia nos anos 1970. Após se aposentar nos hospitais, lançou-se em uma bem sucedida carreira de cantora e compositora e emplacou, em sua voz e na de outras estrelas da MPB, como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Clara Nunes e Roberto Ribeiro uma coleção vasta de obras-primas  como “Sonho Meu”, “Alguém me avisou”, “Acreditar”, “Enredo do meu samba” e “Alvorecer”.

Em todas essas décadas, Dona Ivone sempre reinou, de forma absoluta, nas rodas e redutos do samba por todo o Brasil. No seu Império Serrano, foi o principal destaque do Carnaval de 1983, simbolizando o título do enredo “Mãe, Baiana, mãe”. Em 2012, foi o tema do desfile da verde e branco da Serrinha, quando ficou em um contestado segundo lugar no Grupo de Acesso.

Teve um justo e merecido reconhecimento em vida – algo que nem sempre é comum aos grandes sambistas. Em 2010 foi a grande homenageada do 21º Prêmio de Música Brasileira. Quatro anos depois foi a vez de ter uma edição do Sambabook totalmente dedicada à sua obra. Neste trabalho, gravou, ao lado de Diogo Nogueira, uma de suas últimas composições, “Amor Relativo”, composta em parceria com seu neto, André Lara.

Um brilhante sorriso negro se foi. A quem fica, cabe erguer a taça com euforia e brindar pelo privilégio de poder dar sequência ao sonho de Dona Ivone. Pisando nesse chão devagarinho, ela trouxe dignidade ímpar à música brasileira.

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