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Chico Barney

Sexo, mentiras e nenhum videotape: O dono de motel que espiava hóspedes

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Gerald & Gay, calejados observadores do cotidiano Imagem: Divulgação
Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

06/12/2017 04h00

Gerald Foos é o típico pervertido americano. Criado a base de solidão e alguma repressão sexual, cresceu convicto de que seria uma ótima ideia comprar um motel de beira de estrada para espionar os hóspedes cometendo variadas práticas de erotismo e sedução. Não obstante, contou com a anuência da primeira e da segunda esposa durante o surto empreendedor masturbatório.

Nos idos de 1980 resolveu escrever uma cartinha para Gay Talese, sumidade do chamado "new journalism" e até hoje uma influência para os aventureiros mais tacanhos da imprensa mundial. O escritor já ostentava prestigioso reconhecimento há tempos, mas estava em particular evidência por conta do lançamento de "A Mulher do Próximo", livro que narra a profunda investigação realizada acerca da transformação do comportamento sexual dos americanos naquela ressaca da alucinação coletiva dos hippies.

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Gerald passou décadas anotando detalhadamente o que acontecia em cada um dos quartos de sua hospedaria, noite após noite. Não filmou nada, justificando que os fatos ocorreram "antes da era da informática". E após a primeira troca de mensagens com Talese, ambos se entregaram a curiosas preliminares intelectuais que duraram até 2016, quando o autor lançou o livro "Motel Voyeur".

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Foos no auge da febre onanista Imagem: Divulgação

Eis que a Netflix lançou na semana passada "Voyeur", um documentário que abrange cerca de cinco anos da tóxica relação entre os dois. Não vou contar muito mais que isso, pois a história tem diversos pontos capazes de surpreender o mais hormonal dos púberes. Mas posso adiantar que, constantemente pego em contradições, Foos chegou a fazer com que Gay Talese questionasse suas próprias qualidades como repórter.

Desdenhoso e pragmático, o escritor quer chegar logo aos finalmentes. Fechar o livro, virar para o lado e dormir. O filme foi todo construído para que o respeitável público chegasse à conclusão de que Talese é o grande voyeur da história.

É uma tática que a indústria cinematográfica tem burilado com bastante carinho. Espalhar migalhas de pão ao longo da divulgação das obras, além da concatenação das ideias em si, para que a audiência acredite ter chegado a conclusões sofisticadíssimas por conta própria.

Não se superestime, prezado leitor. Somos todos uns desenganados. Mas Gay Talese é mesmo um baita de um voyeur, independente do que os malditos burocratas de Hollywood nos obriguem a pensar. E Gerald Foos é um sujeito detestável. O filme, contudo, é uma maravilha --o livro também, caso seja do seu interesse.

Veja o trailer:

E ademã que eu vou em frente. De leve!

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