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Em meio a polêmica, filme sobre pedofilia na Igreja pode ser proibido na França

Paloma Varón

15/02/2019 18h44

O diretor de cinema francês François Ozon vive dias de suspense. Somente na segunda ele saberá se seu último filme, "Graças a Deus", poderá ou não ser lançado na quarta-feira, conforme anunciado pela vasta campanha publicitária em toda a França.

O filme é inspirado na história real de um padre francês acusado de pedofilia, que entrou na Justiça para suspender a estreia.

O juiz do Supremo Tribunal de Paris disse hoje que a sua decisão seria conhecida na "segunda-feira a partir das 16 horas". O advogado do padre Bernard Preynat argumentou hoje que o filme "vai contra a presunção de inocência de seu cliente".

"Graças a Deus", do diretor francês François Ozon - Divulgação - Divulgação
"Graças a Deus", do diretor francês François Ozon
Imagem: Divulgação

A defesa do padre de Lyon entrou na Justiça contra o filme em 1º de fevereiro. Preynat foi indiciado em fevereiro de 2016 por agressão sexual a menores e como testemunha da suposta violação de outros três menores. Seu julgamento final deve ocorrer até o final deste ano. Seus advogados querem que o lançamento de "Graças a Deus", previsto para a próxima quarta-feira (20), seja suspenso até a decisão final da Justiça.

O filme do renomado cineasta francês conta o nascimento da associação de vítimas "A Palavra Liberada", fundada por ex-escoteiros da cidade de Lyon, que denunciaram as ações de Bernard Preynat. As ruas e estações de metrô de Paris e outras cidades francesas já estão repletas de cartazes do filme.

No longa-metragem, Ozon mudou os nomes de todas as vítimas, exceto o do religioso acusado, assim como os do cardeal Barbarin e da ex-voluntária da diocese de Lyon, Régine Maire, que atualmente sendo julgados por não terem denunciado à Justiça as ações de Preynat.

Veredito só no dia 7

O veredito deste julgamento está marcado para 7 de março. Enquanto isso, Régine Maire notificou François Ozon para retirar seu nome do filme. Uma decisão sobre isso será tomada também na segunda-feira, em Lyon.

"No filme, Bernard Preynat é apresentado como culpado? Certamente sim, mas ele ainda não foi considerado culpado pela lei", afirmou seu advogado Emmanuel Mercinier.

Cartaz do filme é exibido nas ruas de Paris - P.Varón/RFI - P.Varón/RFI
Cartaz do filme é exibido nas ruas de Paris
Imagem: P.Varón/RFI

Por sua parte, Benoît Goulesque-Monaux, um dos dois advogados da produtora "Mandarin Cinema" e da distribuidora "Mars Films", que representa o cineasta, respondeu que "uma advertência inserida no filme avisa que o padre Preynat ainda não foi julgado e, que, enquanto aguarda o seu julgamento, ele se beneficia da presunção de inocência ".

O advogado insiste que "o julgamento do Padre Preynat não é o assunto do filme", e que este "não dá ao espectador a possibilidade de julgar Bernard Preynat".

Ficção?

"A defesa argumenta que este filme é uma ficção, mas o nome de Bernard Preynat é pronunciado mais de cem vezes", replicou Mercinier, o advogado do padre.

"A defesa disse que os fatos são comprovados e reconheceu que havia uma confissão. Mas de que confissões estamos falando, de que fatos que estamos falando? Quantos, de que tipo, em que circunstâncias? O padre Preynat reconheceu alguns incidentes, mas não exatamente os fatos pelos quais ele é acusado", disse Mercinier.
 
"O filme de François Ozon será a última vítima do padre Preynat?", questionou, por sua vez, Paul-Albert Iweins, o outro advogado de defesa, argumentando que "uma medida de adiamento seria a morte deste filme", na competição pelo Urso de Ouro em Berlim e cuja cópia já chegou a 307 cinemas franceses.