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Do sertanejo ao funk: intérpretes de libras comentam imprevistos nas lives

Ana Victória foi uma das intérpretes de libras da live do cantor Gusttavo Lima - Reprodução Youtube e Arquivo pessoal
Ana Victória foi uma das intérpretes de libras da live do cantor Gusttavo Lima Imagem: Reprodução Youtube e Arquivo pessoal

Marcela Ribeiro

Do UOL, no Rio

20/04/2020 04h00

As lives estão bombando neste período de isolamento social. De Gusttavo Lima a Marília Mendonça, passando por Dennis DJ, vários artistas aderiram à modinha da quarentena e, além de divertirem o público diretamente de suas casas —muitas vezes mais "soltinhos" com a ajuda de alguma bebida alcoólica—, alguns incluíram a comunidade surda nos seus shows e receberam elogios pela atitude.

Bebedeira e palavrões

Com tradução da língua brasileira de sinais simultânea, os intérpretes chamam a atenção do público e despertam a curiosidade de saber como eles lidam com os imprevistos.

Em um momento da sua última live, exibida dia 11, Gusttavo Lima resolveu provar um drink vermelho e disparou: "Está parecendo uma menstruação!". Isso sem contar os inúmeros palavrões que soltou ao longo das mais de sete horas de apresentação.

A intérprete de libras Ana Victória Carlos trabalhou na live de Gusttavo Lima e teve de traduzir, além das músicas, alguns momentos inusitados como esse.

"As brincadeiras realizadas pelo cantor foram, sim, traduzidas e interpretadas porque o surdo deve conhecer a essência do artista e saber como ele trabalha", esclarece.

Uísque, cachaça, qualquer coisa

Além de ter sido patrocinado por uma marca de cerveja, Gusttavo não escondeu de ninguém que queria mesmo "beber todas": "Preciso de uísque, uma cachaça, qualquer coisa", disse o artista em alguns momentos.

Sem medo de virar meme

Ana, que tirou de letra os memes que inundaram as redes sociais, comemora a possibilidade de a Língua Brasileira de Sinais ter sido incluída na live, o que proporcionou o divertimento dos surdos em um momento delicado de isolamento social.

"Desde que interpretei para o cantor Lucas Lucco fiquei preparando meu lado psicológico quanto aos memes, mas agora teve mais (risos). Penso que as críticas são fundamentais para crescer, tento não levar para o pessoal", diz.

"O pessoal se diverte muito mesmo, mas acredito que não tem uma maldade por trás disso, é só por falta de hábito de ver traduções em libras. É bonito ver que a linguagem está ganhando cada vez mais espaço".

O professor de Letras Diego Barbosa, mestre em Tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), dividiu as tarefas com Ana na live de Gusttavo Lima e disse que lidou numa boa com o jeito descontraído do cantor, pois tinha se preparado ao assistir a primeira live dele, que seguiu o mesmo estilo.

Intimidade

"Ele falou em vários momentos que estava na intimidade, que queria que o pessoal se sentisse em casa. Nosso objetivo ali é passar informação para o público, em nenhum momento a gente ficou constrangido, foi algo tranquilo".

"O objetivo dessas lives é tirar o foco do que está acontecendo no mundo e fazer as pessoas pensarem em outras coisas. Os surdos aproveitaram, se divertiram com a música e, mais do que isso, eles se sentiram contemplados.", completa Diego.

"Os memes não incomodam de forma alguma porque, de um jeito ou de outro, eles estão dando visibilidade para a língua dos sinais neste momento".

Batidão em libras

Diego trabalhou também com o professor de Letras Quintino Oliveira no Festival Fome de Música, exibido ao vivo no Multishow no domingo (12), com apresentações de artistas de estilos variados, entre eles Jorge e Mateus, Leo Santana, Dennis DJ e Pedro Sampaio.

Quintino, Diego e Jorlan se revezaram na interpretação da língua brasileira de sinais no Festival Fome de Música - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Quintino, Diego e Jorlan se revezaram na interpretação da língua brasileira de sinais no Festival Fome de Música
Imagem: Arquivo pessoal

'Relação visual'

Nas redes sociais, muita gente ficou curiosa para saber como os profissionais fazem para interpretar algumas letras de funk, por exemplo.

"Situações como 'Combatchy' ou 'Senta senta', ou ainda 'Quica aí no Pai', foram interpretadas na língua dos sinais pela relação visual que a linguagem permite", explica Quintino.

"Muitas vezes nós marcamos na língua dos sinais o 'popozão' dançando e quicando —são situações que geraram feedbacks positivos, tanto dos surdos quanto dos intérpretes que estavam acompanhando nosso trabalho"

Quintino explica que, apesar de certas cenas parecerem cômicas para quem não conhece a língua dos sinais, a resposta foi positiva.

"Saímos de lá felizes com a sensação de que conseguimos passar aquilo a que nos propusemos, mas também por aqueles que não participam desse processo também terem observado. Isso coloca em evidência a língua dos sinais da comunidade surda", comemora.

"Enquanto a gente está rindo, brincando sobre isso, a gente está falando da língua dos sinais. Estamos tratando da comunidade surda. Entendo que os memes fazem parte do ofício", diz Quintino.

Sofrência

Fã de Jorge e Mateus, o professor dividiu com Diego algumas músicas da dupla em libras, o que tornou o trabalho mais fácil.

"Como um bom goiano, adoro música sertaneja. Sou muito fã de Jorge e Mateus, e isso facilitou, pois conheço as músicas".

Sucesso entre os surdos

Diego destaca a importância da inclusão do público surdo no entretenimento.

"Isso é um ganho muito grande. Torço para que a gente não pare por aqui e alcance outros contextos de atuação. Para que o surdo possa ter escolha. No domingo, ele pode escolher entre assistir aos shows do Multishow ou à live do Zé Neto e Cristiano", comenta Diego.

'Aquele funk que eu só sentia o ritmo'

"O melhor feedback que recebi foi da comunidade surda dançando com a gente, brincando e publicando vídeos nas redes sociais. A gente contribuiu também nesse aspecto humano", comemora Quintino.

"Foi muito legal o feedback do surdo falando 'agora entendi a letra daquele funk que eu só sentia o ritmo'. 'Achei muito gostoso quando vocês trouxeram o batidão do DJ Dennis'"

'Senhorinha' da Marília

Aos 46 anos, a intérprete de libras e fonoaudióloga Gessilma Dias se divertiu com os comentários na web sobre sua atuação na live de Marília Mendonça.

"Com a Marília foi muito tranquilo, não tivemos nenhum problema. Todo mundo foi só elogios, a não ser eu ter virado a 'senhorinha' da live da Marília. Pensaram que eu era velha, me diverti muito, foi uma loucura"

"Não esperava essa repercussão positiva do Brasil inteiro. Meu celular travou de tantas mensagens", comemora Gessilma.