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Morre o cantor e compositor Riachão, ícone do samba da Bahia

João Alvarez/BOL
Imagem: João Alvarez/BOL

Aurelio Nunes

Colaboração para o UOL, em Salvador

30/03/2020 10h49Atualizada em 30/03/2020 14h15

Um dos ícones do samba da Bahia, o cantor e compositor Riachão morreu hoje, aos 98 anos de idade.

Ele faleceu durante a madrugada enquanto dormia em sua casa, no bairro do Garcia, em Salvador. Uma de suas últimas aparições públicas foi durante o Carnaval, quando acompanhou da sacada de sua casa a saída do bloco Mudança do Garcia.

Riachão, cujo nome de batismo é Clementino Rodrigues, nasceu em 14 de novembro de 1921 e era considerado um dos principais compositores de samba da Bahia, ao lado de Ederaldo Gentil e Batatinha, já falecidos, e Nelson Rufino.

Dono de um um estilo irreverente, é o autor de clássicos como "Vá Morar com o Diabo", regravada por Cássia Eller, e "Cada Macaco no seu Galho", canção escolhida por Gilberto Gil e Caetano Veloso para celebrar a volta da dupla do exílio político durante o regime militar.

Apesar da produção frenética, Riachão gravou poucos álbuns: Riachão (2001), Humanenochum, CD (2000) Samba da Bahia (1975), Sonho de Malandro (1973), Umbigada da Baleia 78 (década de 1960). O mais recente, Mundão de Ouro, foi gravado em 2013 em parceria com a cantora Vânia Abreu. Ironicamente, ele parte aos 98 anos de idade enquanto se preparava para gravar seu mais novo trabalho, cujo título era "Se Deus quiser eu vou chegar aos 100".

"Riachão é um imortal da academia brasileira do samba. A sua obra atravessa gerações atravessou o século e vai ultrapassar gerações. O malandro pulou no galho da eternidade", disse ao UOL o presidente da Comissão de Cultura da Câmara Municipal de Salvador, vereador Silvio Humberto, que se inspirou numa de suas músicas, Retrato Fiel da Bahia, para dar título à sua tese de doutorado em economia pela Unicamp.

"Foi-se para os espaços celestiais uma das maiores glórias da música popular da Bahia. Grande Riachão, descanse em paz, cantando para os anjos ouvirem, cantarem e gingarem!", destacou o poeta Florisvaldo Mattos. "Os jornais de Pindorama, habituados a mentir, informam que Riachão acabou de falecer. Não procede. Ele morrerá nunca, continuará navegando, pois imenso", pontuou o jornalista e escritor Franciel Cruz.

Trajetória

Desde os 9 anos de idade o menino Clementino já cantava nas festas e batucadas com os amigos. A primeira composição veio aos 12 anos, mas as primeiras audições públicos só viriam aos 44 anos, primeiro cantando em trio, depois em dupla e finalmente sozinho. Sob inspiração de Dorival Caymmi, primeiro compositor baiano a gravar no Rio de Janeiro, na década de 50, Riachão compôs três canções que seriam gravadas por Jackson do pandeiro: Meu patrão, Saia e Judas Traidor.

Retrato da Bahia, Bochechuda e Papuda viriam na sequência. Ganhou a alcunha de cronista da cidade ao apresentar versões pitorescas e bem-humoradas sobre o noticiário local. Assim nasceram Umbigada da Baleia, alusão a uma mórbida exposição da carcaça de uma baleia chamada Moby Dick na Praça da Sé, A morte do Alfaiate, A Tartaruga, A Onça Peteleca, Chegou Pinguim, Visita da Rainha Elisabeth e Incêdio do Mercado Modelo, entre outras tantas.

Em 2001, o sambista foi homenageado pelo cineasta Jorge Alfredo com o filme Samba Riachão, que narra a história do sambista. Sua trajetória ficaria marcada por uma tragédia familiar. Em 2008, um acidente de carro na Rodovia RJ-124, em Rio Bonito, no Rio de Janeiro, matou a esposa do sambista, Dalva Paim Rodrigues, 57, a filha Railene Paim Rodrigues, 25, a nora Tatiane Silva, 23, e o genro Erivaldo Aquino, 29.

"Numa situação normal ele seria homenageado por todo o bairro e por toda a cidade de Salvador. Mas com essa história de coronavírus as homenagens devem ficar restritas à família", previu o presidente da associação Steve Biko e um dos coordenadores do Mudança do Garcia, Raymundo José Alves Badaró, 66, O funeral de Riachão está previsto para as 16h de hoje no Cemitério do Campo Santo.