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Em meio à pandemia, artistas conscientizam e divertem fãs em lives

Zélia Duncan - Roberto Setton
Zélia Duncan Imagem: Roberto Setton

Amanda Cavalcanti

Colaboração para o UOL, de São Paulo

21/03/2020 04h00

Para um fã de música, poucas experiências são tão gratificantes quanto um show ao vivo do seu artista preferido. A sensação que bate quando aquelas músicas que você tanto ama são tocadas na sua frente é uma que nem mesmo cotoveladas, pisões, bêbados falando alto, pessoas derrubando cerveja em você e tirando selfies na sua frente podem atrapalhar.

Mas até mesmo os lados negativos da convivência em coletivo parecem bobagem em comparação ao que estamos enfrentamos: devido à pandemia de covid-19, doença causada pelo novo e altamente contagioso coronavírus, o contato com outras pessoas teve de ser cortado ao máximo para evitar que novos casos da doença apareçam.

Se até idas ao supermercado e passeios com pets são limitados e devem ser feitos só em casos de extrema necessidade, é de se esperar que eventos com grandes aglomerações, como shows e festivais, estão absolutamente fora de cogitação. Desde que o contágio do vírus se tornou mais sério, com dezenas de novos casos da doença todos os dias, grandes eventos com o Lollapalooza Brasil e shows de artistas como Billie Eilish, McFly e Backstreet Boys foram adiados ou cancelados.

A coletividade e o contato com outras pessoas são partes essenciais da experiência de um show ao vivo. Mas, ao longo dos dias de distanciamento social —que prometem se alongar por pelo menos mais algumas semanas ou até mesmo meses —artistas vêm descobrindo um novo modo de se apresentar para os fãs: via lives de plataformas como Facebook, Instagram e YouTube.

A cantora sertaneja Paula Fernandes fez, na última terça-feira (17), uma apresentação acústica para fãs via Instagram e Twitter. Sentada no sofá da casa do namorado, em São Paulo, ela cantou alguns de seus hits, como "Não Precisa" e "Juntos", acompanhada somente do violão. "Todo artista quer estar perto dos seus fãs, é isso não é diferente comigo. E já que nesse momento precisamos priorizar estar em casa, respeitar as recomendações das autoridades, quis aproveitar para estar juntinho deles, mesmo que não fisicamente", contou a mineira ao UOL. "A live foi a forma que eu encontrei de transmitir um pouco de leveza, otimismo e esperança e também entreter um pouquinho, quem está mais recluso, assim como eu."

Além de cantar, ela usou os 60 minutos de live para não somente conscientizar os fãs sobre os cuidados com o vírus, mas também conversar e relembrá-los de momentos de shows e gravações de DVD que passaram juntos. "Acho importante me manter otimista e passar isso para eles, assim o clima fica mais leve, na medida do possível", fala a cantora.

Paula diz que, por enquanto, não foi tão afetada pela crise porque não tinha shows agendados para os próximos meses —exceto por uma turnê em Portugal no fim do ano, que ela espera ainda conseguir realizar caso a situação melhore. Não é o caso para muitos artistas, grandes ou pequenos, que tiveram shows e turnês canceladas e adiados.

A cantora carioca Zélia Duncan, por exemplo, contabiliza até agora 12 shows cancelados. "É muito angustiante e eu gero empregos também, somos uma equipe, mais as pessoas de casa. Mas é fundamental cuidar da saúde", fala a artista. Zélia estava no Teatro Rival Refit na última sexta-feira (13) quando recebeu a notícia de que seus shows, que seriam realizados naquele dia e no sábado (14), tinham sido cancelados. Já com tudo a postos, a cantora sugeriu que o show fosse feito via live do Instagram. "A internet estava ruim, mas fizemos o show todo e saímos de alma lavada", conta.

O músico paulistano Kiko Dinucci também substituiu shows cancelados por apresentações na web. Na última quinta-feira, ele se apresentou na Casa de Francisca, em São Paulo, e transmitiu via Facebook e YouTube. "Não tinha ninguém trabalhando na Casa de Francisca, os funcionários já foram dispensados. Estávamos somente eu e Rubens [Amatto, responsável pela casa], fizemos tudo sozinhos, nenhum músico do disco participou, ficaram todos em casa", fala o artista.

Muitos outros artistas realizaram e realizarão shows ao vivo pelo Instagram, incluindo Gloria Groove, Teresa Cristina e gringos como John Legend, Miley Cyrus, Death Cab for Cutie e Erykah Badu. Até alguns "festivais" foram anunciados, como a versão brasileira do festival Eu Fico Em Casa, originalmente português. O line-up conta com nomes com Daniel Mercury, Rennan da Penha e Maria Gadú. O festival Música Em Casa também anunciou shows de Sandy, Projota e Léo Santana.

Apesar da grande parcela de artistas que aderiram aos livestreams, Kiko acredita que a solução seja provisória e não permanente aos danos que o necessário distanciamento social trará aos artistas e fãs.

Não sei se as pessoas vão querer assistir shows online com a pandemia agravada, é tudo muito incerto. Vou tentar trabalhar nas minhas produções em casa, mesmo sem ser remunerado, para não endoidar.

Kiko Dinucci

"O que está acontecendo é que o Corona está expondo o pior do Brasil, abandono do estado, SUS sendo desmontado, exclusão social, racismo, um presidente irresponsável, tudo isso vai explodir nos próximos dias. A cultura é só mais um elemento abandonado", completa.

Mesmo com um futuro imprevisível, os artistas esperam que os shows sirvam como um escape para os fãs que estejam ociosos ou precisem de uma distração do bombardeamento de notícias sobre o vírus. Kiko finaliza: "Acredito que a cultura é essencial em qualquer situação ou época, uma ferramenta de humanização que não deve ser negada a ninguém. Como artista, para mim é um momento importante para borbulhar ideias, produzir e tentar não enlouquecer."

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