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Ainda precisamos de filmes 'macho man'? Elenco de 'Troco em Dobro' responde

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em Los Angeles*

06/03/2020 04h00

Em tempos de #MeToo e de crescimento da representatividade feminina no cinema —ainda que relativo—, existe um lucrativo filão em Hollywood que permanece tão forte e intocável quanto o shape do bíceps de Jason Statham. São os filmes de ação dirigidos, protagonizados e conduzidos por homens. É o caso de "Troco em Dobro", que estreia hoje na Netflix. Com pouca conversa e muita porrada, o longa é estrelado pela dupla Mark Wahlberg e Winston Duke, trazendo a comediante Iliza Shlesinger apenas como segunda coadjuvante.

O UOL conversou com o elenco nos Estados Unidos, sob o fantasma do coronavírus —a produção americana recomendou evitar apertos de mão—, e lançou a pergunta: com as mudanças no mundo, ainda precisamos de filmes tão "masculinos", com ação tão "old school" e na esteira de "Velozes e Furiosos" —que o produtor Neal H. Moritz, inclusive, ajudou a lançar? A resposta é sim. Um dos motivos, no entendimento dos atores, está no fato de "Troco em Dobro" possuir camadas, ter mulheres fortes na história e, assim, não pintar um quadro anacrônico como o de outras produções do gênero.

"Há ótimas histórias sendo contadas de vários pontos de vista e perspectivas. O filme tem mulheres fortes, principalmente com a Iliza. É engraçado, porque vimos o filme com uma plateia grande e o testamos diversas vezes. Nunca fiz um filme que passou por tantos testes de audiência. E as mulheres estão realmente respondendo bem a ele", diz ao UOL Mark Wahlberg, que também atuou como produtor em sua quinta parceria com o diretor Peter Berg, de "O Grande Herói", "Horizonte Profundo", "O Dia do Atentado" e "22 Milhas".

Corrupção e representatividade

Na trama, que tem toques de comédia e participação do rapper Post Malone, Mark vive Spenser, um detetive problemático que é expulso da polícia e decide investigar por conta própria uma série de assassinatos. A própria corporação estaria envolvida nos crimes. Mas nem tudo é tão maniqueísta assim. Um incidente logo nos primeiros minutos do filme indica que o protagonista também tem suas questões referentes à justiça e à moralidade.

Mas por que, afinal, erros e crimes cometidos por policiais, como os mostrados em "Troco em Dobro", são tão recorrentes em filmes e séries?" Esse é um problema internacional", entende o ator Winston Duke (o M'Baku do universo Marvel), intérprete do parceiro de Spenser, Hawk, um sujeito desajeitado e de poucas falas, mas cuja expressividade e presença, com seu 1,96 m, chamam atenção na tela.

A corrupção é um tema recorrente que filmes podem tratar como um 'sinal dos tempos'. Existem cineastas que querem liderar como as pessoas enxergam isso. Temos que começar as discussões de várias maneiras. Colocando lentes sobre esse problema, podemos começar a digeri-lo melhor.
Winston Duke

Mark Wahlberg in Spenser Confidential (2020) - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Com bem menos espaço no roteiro, Iliza Shlesinger completa o trio protagonista na pele de Cissy. Ex-namorada de Spenser, ela faz uma mulher de pulso firme, pronta para a briga e para satisfazer os próprios desejos, —pode ser até no banheiro do restaurante. Uma representação claramente moldada a partir do imaginário masculino? Sim. Mas para a atriz está tudo bem. Sobre como o feminino aparece no contexto do filme, ela afirma que as mulheres estão bem representadas nas personagens, especialmente a sua, e que o cinema deve servir a todos os tipos público. O entendido como hétero/masculino continua tendo lugar.

Nem todo filme vai ter uma mistura perfeita de 'feminino' e 'macho'. Este é um filme com muita testosterona, com um incrível diretor e astros masculinos. Mas eles permitem a Cissy ser feminina e trazer complexidade. A questão não é sobre homens estarem assistindo ou se é um filme masculino. É sobre os personagens serem representados fiéis a eles mesmos.
Iliza Shlesinger

*O jornalista viajou a convite da Netflix