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Yung Buda, o fã de games e animes que está levando a cultura geek ao rap

O paulista Yung Buda, que começou no rock, enveredou-se pelo eletrônico e virou rapper - Reprodução/Facebook
O paulista Yung Buda, que começou no rock, enveredou-se pelo eletrônico e virou rapper Imagem: Reprodução/Facebook

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

04/03/2020 04h00

Quando Nicholas K., hoje conhecido como Yung Buda, produziu o primeiro beat em seu computador pessoal, apenas um pensamento veio à mente. "Mano, aquilo parecia trilha de anime de filme japonês. Uma parada Cyberpunk. Uma batalha samurai, saca?", diz ao UOL o rapper que vem bombando na internet por amarrar duas linguagens que não tinham hábito de se bicar.

O paulistano de 24 anos, que vive desde adolescência em Jundiaí, une a sonoridade trap, um dos subgêneros mais populares do rap, e letras inspiradas no universo geek —mais especificamente na cultura otaku, que reúne seguidores da cultura pop japonesa e tecnologia. Em tempos em que os dois lados ganharam evidência, a mistura deu liga.

Totalmente independente, Yung Buda faz sucesso nas redes sociais e conta com milhões de visualizações em vídeos como o das músicas "Akatsuki de Vila", em que usa imagens do anime "Naruto", "Autumn Ring Mini", fazendo alusão a games como "Grand Turismo", "Daytona USA" e "Metal Gear", e "Ninja", um mergulho na mitologia popular dos guerreiros japoneses.

As produções são assinadas pelo selo Sound Food Gang, que ele toca desde 2015 com o parceiro Nill e pelo qual já lançou três mixtapes e um disco de estúdio, "True Religion", com 13 faixas que saíram no último mês de dezembro.

Rapper gamer

Tímido e de pensamento rápido —na música e na entrevista— Buda diz ter tomado gosto pelo som na infância, escutando trilhas de games como "Sonic", "Crash" e "Samurai Shodown". Depois de ter uma banda de rock na adolescência, passou a consumir animes, mangás e a ser consumido pelas possibilidades da música eletrônica, que fazia na própria casa.

A criação do personagem que encarna hoje, um "rapper otaku", veio praticamente por acaso, a partir de uma frustração inesperada. "Quando já estava produzindo beats de rap, mas ainda não cantando, o pessoal da Song Food me chamou para fazer beats para eles, por ser da região e eles curtirem meu trabalho", diz ele.

"Mas minhas produções eram muito pessoais. O pessoal não chapava tanto. Daí dei uma desanimada e falei 'pô, se ninguém vai rimar, vou eu mesmo rimar nessas batidas'. Sempre curti essa parada oriental e precisava de um rumo. Foi assim que tudo começou", conta Yung Buda, que não possui ascendência japonesa, como costumam inferir —ao menos não que ele saiba, já que foi adotado.

O som

Sua música pode ser descrita como retrofuturista, calcada nos games e com pegada sombria. Os flows são marcados pelo grave. Ele também traz influências ocidentais ao falar de carros, de conflitos sociais e da vida na quebrada, onde cresceu. Com isso, vem atraindo ao rap um novo tipo de fã, que não necessariamente tinha interesse pelo estilo.

Às vezes coloco uma trilha de anime no sampler de um beat. Mas é sempre em favor da estética [oriental], que me interessa muito. É uma parada que faz parte do que vivi. Fui criado numa casa em que meus pais me trancavam e não deixavam fazer nada. Assim descobri muito desse mundo
Yung Buda

Segundo ele, a maior parte de seu público é gamer e nem todos se enquadram no conceito de otaku. "Quem me ouve é muita gente que escutava rock e eletrônico, mas nunca o rap, por ser uma música tachada de periférica, de música de bandido. Vejo muito comentário no meu Twitter de gente dizendo que não gosta de trap, de rap, mas que meu som é muito bom. Fico feliz com isso."

Reprodução/Facebook
Imagem: Reprodução/Facebook

Origem do nome

Depois de balizar o conceito sonoro, Nicholas, que já adotou diversos nomes artísticos, decidiu que precisava de uma nova alcunha, de preferência ligada ao oriente. "Porque um negão fazendo rap chamado Takahashi não ia dar certo [risos]". A primeira palavra veio por influência do rapper sueco Yung Lean, sua principal referência. "Não exatamente musical, mas pela forma como ele expressa na música a verdade dele", explica.

A segunda, por, na época, "ser mais gordinho". "Buda e o budismo são ideias que bem aceitas no oriente, que conseguem exprimir de forma mais abrangente uma cultura. Mesmo com o trocadilho, acho que foi uma boa escolha", brinca.

Futuro

Apesar do sucesso no rap underground, ele diz que planeja ampliar seus projetos musicais, como sempre gostou de fazer. "Nessa minha jornada, trombei com música eletrônica, que é uma parada pela qual me apaixonei muito na adolescência. E isso é algo que eu não consigo fazer 100% no meu trabalho", diz ele.

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Imagem: Reprodução/Facebook

Em breve, Buda deixará momentaneamente de ser Buda. "Vou soltar coisas no eletrônico e no experimental, que faço mais para mim. Se o público gostar, a gente continua. Mas a ideia é ser mais esporádico. Pretendo tocar todos os gêneros que eu achei que um dia poderia fazer."

Rap nacional