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Em prévia do Rock in Rio, Scorpions mostra com quantas baladas se faz um bom show

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

22/09/2019 08h34

Habitué no Brasil --esta é a nona passagem pelo país--, o Scorpions apresentou na noite de ontem em São Paulo, no Allianz Parque, no festival Rockfest, uma prévia do que será o show de encerramento do dia dedicado ao heavy metal no Rock in Rio, próximo 3 de outubro.

O público pode esperar por uma banda septuagenária energética, consistente e que continua dando conta do ofício. Méritos de quem soube tratar bem a saúde e o repertório: todas as grandes músicas lançadas pela banda entre o fim dos anos 1970 e início dos 1990 estão no setlist.

Início em marcha lenta

Em São Paulo, o show com jeito de coletânea começou devagar. Não exatamente pela escolha do primeiro número, a recente Going Out with a Bang, mas pelo volume do som que saia dos alto-falantes do estádio. Pouca intensidade e sem brilho. O problema foi resolvido totalmente apenas a partir da terceira faixa, a clássica The Zoo, quando as guitarras de Matthias Jabs e Rudolf Schenker enfim acordaram. Não chegou a comprometer o todo.

Baladas conquistaram

A essência sonora do Scorpions é o peso. Junto do UFO e do Judas Priest, o grupo tem importância central no surgimento da sonoridade clássica metal. Ao vivo, a pegada agressiva persiste. Mas, ao menos em São Paulo, com público de cerca de 20 mil pessoas — o anel superior do Allianz estava fechado —, as músicas que mais conseguiram atiçar a plateia, morna na maior parte do tempo, foram as baladas: Send me an Angel, Wind of Change e Still Loving You.

Pra não dizer que não falei dos rocks

Em que pese o gosto paulistano por baladas, justiça seja feita a Rock You Like a Hurricane, que encerrou o show em alta voltagem e ecoando coros. Big City Nights, Blackout e The Zoo também mostraram seu poderio de fogo. Fãs do Scorpions dos anos 1970 também não puderam reclamar com a inclusão do ótimo medley Top of the Bill/Steamrock Fever/Speedy's Coming/Catch Your Train, emendado após a instrumental Coast to Coast, em que o vocalista Klaus Meine também arranha a guitarra.

Garoto setentão

O clichê de roqueiro que não envelhece ganha outra dimensão quando aplicado ao guitarrista Rudolf Schenker. Diferentemente de Jabs, mais discreto, e Klaus Meine, que possui os mesmos 71 anos e é mais paradão, Schenker parece ter um formigueiro nos pés -além de 30 anos a menos. De cabelos curtos descoloridos e óculos escuros aerodinâmicos, ele capricha nos riffs e solos e também na aeróbica com a guitarra. É um garotão, com aparência de guitarrista de new metal, que não cansa de correr.

Guitarra com fumaça

Vai ao Rock in Rio? Você pode esperar então por pirotecnia de arena. Primeiro durante o solo de bateria do ex-Motörhead Mikkey Dee, que nesse momento é içado por cabos em uma plataforma a cerca de seis metros do chão. O número, conduzido pelo bumbo duplo, é feito nos ares. Na sequência, Schenker surge com uma espécie de lança-chamas acoplado na guitarra, mas que em vez de fogo expele apenas fumaça "gelo seco". O telão, que em Make it Real exibiu uma bandeira brasileira tremulante, completa o combo com animações e luzes.

Whitesnake em SP: Coverdale estreia joelhos novos no Brasil, mas quem rouba cena é o baterista

Assistir a um show do Whitesnake em São Paulo é a certeza de: a) hinos do rock de arena sendo entoados do início ao fim pelo público - a banda já teve plateias mais barulhentas, mas aconteceu ontem, no Allianz Parque, no festival Rockfest; b) ver um vocalista David Coverdale lépido e faceiro, aproveitando cada momento em que não canta para fazer alguma referência ao sexo e ao amor dos brasileiros.

Meu show continua bom, mas minhas voz...

David Coverdale está prestes completar 68 anos. Tem forma física e repertório e bom humor de fazer inveja a iniciantes e veteranos. Seu único porém, atualmente, é a voz. Não que chegue a atrapalhar o show, mas seu registro, hoje mais rouco, não tem mais a viscosidade e pegada de discos do passado. É normal. Tudo bem. Ele se redime com carisma e presença de palco. A energia não desceu um segundo em músicas como Love Ain't No Stranger, Here I Go Again e Still of the Night. Instrumental sempre no talo.

Joelhos novos

Após sofrendo de artrose, Coverdale foi submetido no ano passado a uma cirurgia em que colocou placas de titânio dos dois joelhos. Em entrevista ao UOL, ele prometeu "correr pelo palco feito Justin Bieber" com as novas peças. Não aconteceu - correr, aliás, nunca foi a dele, nem a de Justin Bieber. Mas, visivelmente mais confortável, o vocalista se movimentou mais, ergueu mais o pedestal do microfone simulando um falo, sua pose clássica, e mandou mais acenos e olhares fatais do que nas últimas apresentações no Brasil. É um novo (velho) homem.

Roubando a cena

Talvez nem David Coverdale esperasse por isso. Pela primeira vez no Brasil, quem saiu mais aplaudido do show do Whitesnake não foi sua grande estrela, mas um coadjuvante, o veterano baterista Tommy Aldridge, 69 anos, ex-Ozzy e Thin Lizzy. Em seu solo, o integrante mais velho da banda que misturou precisão, malabarismo e uma sessão em que dispensou as baquetas e tocou com as mãos, ao estilo John Bonham. Houve delírio nas arquibancadas. O cabelão crespo, grisalho e estiloso alimentou o carisma. "O indestrutível Tommy Aldridge", deu a letra Coverdale.

Brasil na cintura

Durante Slow an' Easy, o líder do Whitesnake catou uma bandeira brasileira no público, a estendeu para as câmeras e a amarrou na cintura, onde ela ficou durante quase até o fim do show. O verde e amarelo também se fez presente estampado na camisa do cantor, que sobrepôs o lábaro estrelado ao logo vermelho do Whitesnake. Durante essas homenagens -também aconteceram posteriormente, no show do Scorpions -, a reportagem não identificou nenhum grito ou manifestação de teor político. O amor ao rock falou mais alto.

Uma ideia para outros shows

Antes de receber o Whitesnake, o Rockfest contou com shows da banda brasileira Armored Dawn, da sueca Europe e da alemã Helloween, que, substituindo o Megadeth, fez uma apresentação histórica no Brasil. A banda trouxe seu guitarrista e vocalista original, Kai Hansen, seu vocalista clássico, Michael Kiske, e o vocalista atual, Andi Deris. O trio dividiu vocais em faixas de todas as fases da banda, para o delírio dos fãs e de quem acha que ego não deveria combinar com música. Fica a lição para outros grupos que também passaram por separações.