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Museu do Oscar promete histórias perdidas do cinema, diz curador brasileiro

Fernanda Ezabella

Colaboração para o UOL, de Los Angeles

14/02/2020 04h00

Alguns dos maiores tesouros do cinema mundial estão aguardados em Los Angeles, à espera da inauguração de (mais um) um gigantesco museu na cidade californiana. A aguardada data de abertura foi finalmente anunciada por Tom Hanks durante a cerimônia do Oscar —num segmento cortado pelo TNT, que exibiu a cerimônia no Brasil: 14 de dezembro. Pois o UOL visitou o espaço e te conta o que estará em exibição por lá.

A poucos dias antes da premiação, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood convidou nossa reportagem para conhecer o espaço, em construção há cinco anos. Entramos na sua impactante esfera de concreto, aço e vidro de 36 metros de altura, criada pelo arquiteto italiano Renzo Piano.

Dentro do edifício redondo, fica um cinema com capacidade para mil lugares, com poltronas, paredes e piso cobertos de vermelho, numa ode ao cobiçado tapete por onde as maiores estrelas do cinema desfilam ao chegar para a cerimônia. Durante a visita, funcionários faziam testes na tela, capaz de exibir diversos formatos, até mesmo películas de nitrato. No topo do globo, com uma cúpula de vidro, está um terraço com vista panorâmica da cidade, incluindo o letreiro de Hollywood.

"Antigamente, essa região era muito rural. E era por aqui que Cecil B. DeMille estacionava seu zepelim", contou ao UOL um dos curadores do museu, o brasileiro Bernardo Rondeau, sobre o excêntrico cineasta. "A inspiração da arquitetura veio desses zepelins, como se estivéssemos embarcando numa viagem com o cinema. E aqui em cima, no terraço, é como se flutuássemos pela cidade."

Fernanda Ezabella/UOL
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Além de curador associado, Rondeau, que trabalha na Academia desde 2014, é o chefe da programação dos dois cinemas do museu. O segundo é um menor de 288 lugares que terá programação diária. "Será nossa cinemateca, vamos organizar séries e retrospectivas de filmes", contou o carioca de 41 anos, que se mudou para Los Angeles com os pais quando tinha 8 anos.

Ao lado da esfera de Piano, está o prédio principal do centro cultural com seis andares, que vai receber exposições permanentes e temporárias. As galerias ainda estão vazias, algumas com escadas de obras, mas já é possível imaginar alguns habitantes vindos do enorme acervo da Academia, chamado Academy Film Archive, uma das maiores coleções de cinema do mundo.

São mais de 80 mil roteiros, 100 mil objetos de produção, 190 mil filmes e 12 milhões de fotografias. Estão lá os sapatinhos vermelhos de Dorothy em "O Mágico de Oz" (1939), o figurino de gnomo usado por David Bowie em "O Labirinto" (1986), desenhos de produção de "Cidadão Kane" (1941), cenários de "Psicose" (1960) e "Casablanca" (1942), além de equipamentos como as primeiras câmeras do cinema.

Cinema afro e mulheres pioneiras

A primeira mostra temporária será uma retrospectiva do mestre de cinema de animação japonês Hayao Miyazaki, em colaboração com seu estúdio Ghibli. Serão mais de 200 objetos, entre desenhos conceituais, storyboards e ambientes imersivos baseados em filmes como "Meu Amigo Totoro" (1988) e "A Viagem de Chihiro" (2001).

Em seguida, abre uma exposição sobre o cinema afro-americano produzido entre 1900 a 1970, explorando o movimento de filmes independentes produzidos por e para a população negra do país, em paralelo a Hollywood. O objetivo é redefinir a história do cinema americano elevando aspectos pouco representados da sua produção artística.

"Queremos celebrar histórias do cinema que normalmente não são contadas, que foram esquecidas ou não estão tão bem estudadas", disse Rondeau. "Sinto uma responsabilidade em explorar um cinema não só por uma perspectiva, mas por várias. Tenho um interesse muito internacional, não só por cinema americano ou brasileiro. Tenho paixão pelo cinema do mundo inteiro e de períodos diferentes."

Mulheres que participaram da criação do cinema também vão ganhar destaque na exposição permanente, como a francesa Alice Guy-Blaché (1873-1968), uma das pioneiras do cinema de ficção, e a americana Mabel Normand (1892-1930), primeira proprietária de estúdio nos EUA.

Um conjunto de colunas no quinto andar será dedicado a outras pioneiras, como Hattie McDaniel (1895-1952), primeira atriz negra a receber um Oscar por sua atuação em "E o Vento Levou" (1939), e Sophia Loren, primeira estrangeira a ser premiada, por conta de "Duas Mulheres" (1960).

As colunas, assim como vários outros espaços do museu, foram dedicadas através de doações, maneira como o museu está levantando seu orçamento de US$ 388 milhões (R$ 1,6 bilhão). A maior galeria do primeiro andar, ao lado da entrada e da lojinha, se chama Steven Spielberg, enquanto Barbra Streisand nomeia a ponte que liga o prédio principal ao terraço da esfera.

"Não tem dinheiro do governo. A arrecadação vem de individuais e instituições. A ideia é filantropia e pensar no legado desses indivíduos", explicou.

Brasil e a 'experiência Oscar'

Nos arquivos da Academia, há um pouco de Brasil, como o famoso vestido preto de mangas compridas usado por Sônia Braga em "O Beijo da Mulher Aranha" (1985). Em suas pesquisas, Rondeau também achou uma coleção de cartazes de filmes brasileiros, como "Vera" (1986), "O Caso dos Irmãos Nave" (1967) e "Barravento" (1962), além de um filme de testes de figurinos com Carmen Miranda (1909-1955).

"Tenho um sonho enorme de fazer uma programação brasileira no museu, e não só uma vez. Quero falar do intercâmbio entre os dois países e de elementos pouco conhecidos aqui ", disse o curador. "Para muitos americanos, o cinema brasileiro começa com 'Cidade de Deus'."

Rondeau trabalha no Museu da Academia há cinco anos. Antes, passou sete anos como curador-assistente da programação de cinema do Los Angeles County Museum of Art (Lacma), espaço vizinho e que possui também dois prédios projetados por Renzo Piano.

No Lacma, realizou diversas retrospectivas, como uma do diretor coreano Bong Joon-ho, grande vencedor da noite do Oscar com "Parasita", primeiro filme em língua estrangeira a receber a principal estatueta da cerimônia. "Adoro muito 'Parasita', sempre fui grande fã do Bong", disse.

Pela quarta vez, ele foi à cerimônia do Oscar no domingo, acompanhado da mulher. "Ficamos lá no fundão do Dolby Theater, não dá para ver na TV", ele brinca.

Para os mortais que só assistem ao prêmio pela TV, o museu terá um espaço chamado "Experiência Oscar". A galeria contará a história da cerimônia, exibirá discursos famosos e curiosidades de bastidores. Os visitantes também vão poder segurar uma estatueta dourada de verdade e, claro, tirar sua foto, um jeito bem instagramável de finalizar o passeio.

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