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Arlindinho, o herdeiro de uma dinastia do samba

O sambista carioca Arlindinho - Wallace Barbosa / AgNews
O sambista carioca Arlindinho Imagem: Wallace Barbosa / AgNews

Djalma Leite de Campos

Colaboração para o UOL, em São Paulo

04/12/2019 15h54

Assim que acorda, o sambista Arlindo Domingos da Cruz Neto, o Arlindinho, encontra-se com Antônio Candeia. Não o Candeia (1935-1978), lendário sambista carioca e autor de clássicos como Dia de Graça e Luz da Inspiração. Mas, sim, seu filho mais novo, que acaba de completar três meses de vida.

Aos 28 anos de idade, o filho do cantor e compositor Arlindo Cruz faz parte de uma família de músicos que, há três gerações, vive e respira samba. O nome do recém-nascido não é apenas homenagem a um baluarte do gênero. É uma saudação especial à trajetória do avô: o primeiro Arlindo da família também era músico, e tocou ao lado de Candeia no grupo Mensageiros do Samba. Para ele, música faz parte de uma dinastia.

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Não por acaso, Arlindinho lançou na última sexta (29) um álbum intitulado Nome e Sobrenome. A música de trabalho? Filho Meu.
Ele brinca ao lembrar que quebrou a "tradição familiar" ao batizar o filho com um nome diferente do seu, de seu pai e de seu avô. "É verdade. Mas olha que ainda posso ter outro filho..."

E ele lembra que a família Cruz tem entre seus membros outros craques do ritmo. "Acyr Marques (1953-2019), irmão do meu pai e meu padrinho de sangue, é um dos maiores compositores da história do samba. É autor de músicas como Saudade Louca, Coisa de Pele e Insensato Destino.

Interromper a dinastia dos "Arlindos" é uma das poucas tradições que Arlindinho quebrou até agora. Herdeiro da mesma profissão do pai e do avô e da tradição sonora dos Cruz, ele admite que não conseguia enxergar outro caminho artístico que não fosse se tornar um sambista.

O samba está na minha vida de várias formas. É importante lembrar também que minha mãe [Babi Cruz] é compositora, e foi porta-bandeira da Mocidade Independente de Padre Miguel. Quando eu era bem pequeno, ela já me levava para a escola de samba.

Padrinho

Com vários sambistas na família, ele explica que encontrou na tradicional figura do "padrinho de samba" o suporte para começar a cantar.

"O Reinaldo, o Príncipe do Pagode, foi um cara de extrema importância. Meu pai é referência, claro, mas ele foi o cara que deu o 'carimbo' na minha carreira. Eu era cantor de samba-enredo, e ele me incentivou a cantar os sambas que chamamos de 'meio de ano'. E também ia cantar nos mesmos lugares para puxar público para mim. Acho que passou a confiança para que eu cantasse".
Para Arlindinho, o apoio de Reinaldo [morto recentemente, vítima de um ataque cardíaco] fez também com que seu pai se livrasse de praticar um tipo nepotismo muito comum no meio musical.

"Algumas vezes achavam que ele era apenas um pai tentando lançar a carreira do filho, dando um jeito de me lançar. E o Reinaldo entendeu isso muito bem. Era um ídolo, e eu comecei a seguir os passos dele como artista".

Ao ver o filho iniciar a trajetória como cantor, Arlindo Cruz - que se recupera de um AVC (acidente vascular cerebral) sofrido em 2017 - chegou a temer que ele sofresse com o "peso do nome".

O jovem sambista admite que criar uma trajetória de sucesso no samba é algo muito difícil. "Meu pai tinha medo. É uma vida foda! Hoje estou vivendo um grande momento, e faço cerca de 30 shows por mês. Mas não é simples! Sinto na pele o que é viver de música no Brasil. No começo, há pouco mais de dez anos, foi difícil ter uma carreira estável, rentável... E ainda é.

Arlindinho acredita que hoje os sambistas já conseguem ocupar outros espaços dentro da sociedade. E isso tem gerado muitos reflexos nas letras das músicas.

"A gente tem que estar tanto na classe mais alta como na mais baixa da sociedade. Donga escreveu Pelo Telefone (o primeiro samba gravado, em 1916) porque, na época, era a novidade tecnológica que tinha acabado de chegar na casa de algumas pessoas. Hoje em dia, atualizando o tema, meu pai escreveu uma música sobre o WhatsApp [Whatsappiei pra Ela]".

E diz que os compositores do ritmo seguem atuantes no papel de principais cronistas da sociedade. Agora, segundo ele, é o momento dos sambistas registrarem lugares e novas experiências que passaram a viver com a ascensão econômica.
"Escutei Confiança, uma música do Mumuzinho, que fala sobre dar um passeio em Orlando (EUA) com a mulher. Acho eu isso retrata o momento que nós, os sambistas, estamos vivendo... Antes, o sambista morava no morro e nas comunidades próximas. Agora, também vive na Barra da Tijuca, que é região nobre da cidade do Rio de Janeiro. E eu acho isso muito interessante!".

Arlindinho - Wallace Barbosa / AgNews - Wallace Barbosa / AgNews
Imagem: Wallace Barbosa / AgNews

O músico diz que muitos filhos de juízes e desembargadores aprenderam a admirar o samba depois de frequentar sua casa no bairro carioca. "Gostam e sambam na minha casa, na Barra da Tijuca. Moro lá há 15 anos. Sinto que o samba está ascendendo porque virou algo natural para as pessoas."

Como ouvinte do ritmo, ele prefere não se prender às produções de um único período. "Gosto de escutar samba bom! Não fico preso a épocas. Existe samba bom feito hoje; existe samba ruim feito em 1930. Ouço, e não é para copiar. E, sim, para entender melhor para onde a sociedade está caminhando."

Samba eletrônico

Assim como não existe mais bobo no futebol, não tem mais nenhum bobo no samba

Em 2015, Arlindinho se submeteu a uma cirurgia bariátrica e deixou para trás 60 kg. Ele sente que o samba também atravessa um momento de evolução e transformação, e prevê até uma possível guinada para o eletrônico.

"É possível... Eu toco com banda, e gosto da forma mais `natural´ do samba. Sou mais tradicional. Mas existe uma galera que está introduzindo o Pro Tools [ferramenta de produção de áudio muito utilizada em produções musicais], e começou a utilizar instrumentos pré-gravados em shows. Acho que, independentemente disso, o mais importante é ouvir um samba bem-executado. E cada um executa o samba da sua forma."

Assim como mudou a forma de produzir música, Arlindinho acredita que a tecnologia tem ajudado a aumentar a qualidade dos músicos. E não vê diferença entre o que é produzido por cariocas, paulistas e qualquer outra região do país.

"Só existe uma diferença no samba: o bom e o ruim. Hoje, todo mundo tem acesso aos melhores pandeiros, aos melhores tantãs e consegue assistir grandes músicos tocando no YouTube", analisou "Todo mundo está tocando bem. E existem muitos grupos de fora do eixo Rio-SP fazendo sucesso. Um deles é Atitude 67, que faz um samba com balanço, pra dançar. E eles são de Mato Grosso."

O músico carioca aposta também no surgimento de um grande nome fora dos espaços tradicionais de samba. "A tendência é aparecer mais gente de outros lugares. Em breve deve vir algum grupo de expressão nacional de Minas Gerais ou de Porto Alegre, assim como já aconteceu com o Só Pra Contrariar nos anos 1990."

"Assim como não existe mais bobo no futebol, não tem mais nenhum bobo no samba", finalizou.

* Esta entrevista faz parte de uma série de reportagens que será publicada pelo UOL para celebrar a Semana do Samba. Fique ligado!

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